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Full text of "Biographia politico-litteraria do visconde de Almeida Garrett"

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BKmnUA POLimO-LITTERARIA 



DO 



VISCONDE DE ALMEIDA GARREH 



f • ;■ . 



BIOGRAPmA 



POLITIGO-LIT TIRARIA 



DO 



VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT 



POR 



DOMIMOS MANUEL FERNANDES 



Garrett, pela yariodade dos seus 
«scriptos, e pelo seu «gosto mara- 
vilhoso em escolher os assump- 
tos nacionaes revestindo-os de 
formas portnguezas, não é só 
um poeta, é uma litteratura intei- 
ra. 

Poetas d'este vulto, reinam sós 
e nunca deixam herdeiro. 

Rebello da Silva. 



O nome do visconde de Alme^ 
da Garrett, é tanto para atear o 
enthusiasmo em ({uem o escuta, 
como para infundir um respeito- 
so temor em quem o evoca. 

Não se passa por diante d 'es- 
sas figuras ou dos seus monu- 
mentos sem inclinar a fronte ou 
dobrar o joelho. 

Mendes Leal 




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LISBOA 

TVP. LUSO-BRITANNICA de W. T. Wood 

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ííDCCCijnm 



AA4 30 
1973 




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PREFACCÂO 



Vão já decorridos dezoito para dezeDoye ao- 
nos que desapparecea do seio dos vivos um dos 
homens que inais ennobreceram n'este século a 
pátria de Luiz de Gamões. 

Foi o nobre visconde de Almeida Garrett, sol- 
dado leal e esforçado da liberdade, escriptor dis- 
tinctissifflo, orador afamado, e poeta quasi digno 
de uma coroa de gloria, como aquella que ornou 
a fronte soberba do incomparável cantor das glo- 
rias portuguezas. 

Nós que sentimos ainda, o coração apertado en- 
tre as garras da vehementissima saudade d'este 
génio privilegiado, que a sepultura guarda, yi- 



Unwmiijof 




ARTE, oc. ..,;■.■ 1.,^,,...- 



mmm. politico-litteraria 



DO 



YISCONDE DE AOIEIDÁ GARREH 



XII 



eamifihar na estrada* árida da gloria; iadiffn^te 
á intriga, desconhecendo a inveja, vê, ouve e ca^ 
la-sei A par d^aquelle grandioso génio a quem as 
maiores intelUgencias do mundo prestam homena»^ 
gem, recordo^-me d'esses talentos mesquinhos» 
minados d'inveja, qoasi desconhecidos, que em- 
bríagando^se de encantadoras illusões, se julgam 
iltustres favoritos dos filhos da Memoria, e ee^ 
gos d'orgttlbo, ^Bspresam os que lhe s3o igoaes 
ou superiores: desgraçados! Se por um instante 
a opinião publica òs eleva, ella mesma offenden- 
do-^se da desmedida altivez dos seus validos, os 
arremeça ao esquecimento.» 

Ora, eu apesar de uão ser talento nascente» 
nem coisa qpe a isso se assemelhe, senli-me enso*- 
berbecer ao gostar as respeitosas phrazes que o 
estudioso, mancebo dirigia a esse distincto littera^ 
to, digno d'um dilatado viver, para que aiigmen- 
tem òs primorosos trabalhos que a sua penna 
gloriosa costuma offerecer-nos ; e resolvi com^ 
metter mna temeridade! Lembrei-me que um ho- 
mem tão cheio de grandezas d'alma e coracSo» 
como o sr. Â. Herculano, n3o deixaria de prestar 
attencão aos vagidos de um recem-nascidólitterario» 
como eu; e ani|[iado por essa fé, escrevirlhe uma 
carta, perguntando-lhe quasi suscintameirteaideia 






XIII 



qad formava dos trabalhos a que bavia dado o 
fim. 

Passados algnDS dias, recebi pelo correio uma 
atte&ciosa carta do talentoso historiador, em que 
me patenteava as grandes difficuldades com que 
ea tinha a luctar; para desempenhar este grande 
^cargo; qne era mais para Francisco Gomes do 
Amorim, péla circumstaneia de ter vivido intima- 
mmie com Garrett^ do qqe para outro qualquer. 

Não met aivergonha; honra-me muito a carta 
do sr. Alexandre Herculano. Abstenbo-me de lhe 
dar publicação no primeiro higar do meu pobre 
livro, por dois motivos bem palpáveis. O primei- 
ro è evictar os^murmufios da inveja jerados n'algum 
c(»'ação menos puro, que porventura me chamas- 
sem vaidoso, o se atrevessem a dizer que eu me 
abrigava à sombra do actual governador da nos- 
sa província litteraria para me livrar da criticai o 
segundo, e a meu ver mais sensato, é conhecer 
08 erros que commetti n'esle trabalho, e não que- 
rer n^oapor sombras, ver. o nome do auctor de 
Eurico motejado a par do meu, por algum criti- 
co que conheça ainda menos do que eu, a maté- 
ria de que estou tractando. 

Ha muitas inexatidões no meu volume ; faço 
aqai * publica conOssão d'ellas, para descargo de 



XIV 



consGieacia. NSo ânvoive ad «ondições que s6 eú* 
gem nos trabalhos d'esta espécie, mas estou cser*^ 
to, ^e o pouco merecimento que encerra/ pdde 
satisfazer • em parte, o desejo d'aqueUe3 que ba 
tantos annos esperam em tSo, pelas memorns 
biographicas qm Aifiorim e Bebetlõ prcmieUieram 
pubticar, quando o corpo de Garrett ainda se 
achava inteiro na sepultura. 

Agora que me resolvo a dár eetas poucas^ páH 
ginas ao legado de Gruttômberg, sreu <> primeiro 
a declarar que este pensamento, lançado á roda 
dos expostos pela doença de Amorim, podia ^r 
inscripto nos annaeâ das pubUcaç5es com epilogo 
mais feliz do que o ioseu, e com menos fadigas 
também; do que eu tive para liar este medito de 
phrazes ãesc&tadm, como dizem oe críticoâriÉjOr* 
dazes, quando sentem deseer ao coração o acre da 
inveja, e bradar-lhè : Mèita esêe imeetú, quê nos 
vem oé zumbir aò9 cmidoé t 

bestes se me caluraniarèm, digo-Ihes com antèM 
cipa(^o que escrevam uiúa biographia melfaiDr, e 
m'a enviem depois, para eu por ella, corrigir õs 
erros qSe commetti na minha: aos qoe blasphema-^ 
rem d'ella. só pelo gostinho de dizer mal, e a âe^ 
primirem por nSo a entenderem, dou-lbes um con- 
selho que nSo devem de^resar: leiam Cmios Ma-- 



XV 



gm, e outras obras qae foram escriptas expres- 
samente para alguDs ignorantes qae por nossa 
desgraça abi andam apregoando luz, e a dar ca- 
beçadas, que nem gue a claridade tivesse o no- 
me de trevas. 

Áquelles que me fizerem justiça recta, e criti- 
ca conscienciosa, desde já Ibes agradeço, e pro- 
metto arrepender-me dos meus erros passados, 
remediar os presentes^ e empregar todas as deli- 
gencias para os evictar no futuro. 

Se dedico o meu livro ao batalhão litterario 
que opera actualmente no campo das lettras, n3o 
ponho em vista as honras d'um agradecimento 
unanime» nem tampouco escudar-me com elle con- 
tra bloqueios merecidos. 

Não. 

Offereço-o a essa illnstre corporação, porque, 
como disse o poeta, quem conhece a ^matéria é 
gue a estima, e presando-me eu de estimal-a sem 
cpnhecel-a, busco este meio, para provar o res- 
peito que tributo aos mestres a quem a consa- 
gro. 

Lisboa S5 de Março de 1873. 

Domingos Mamei Fernandef, 



V . 



BIOGRAPHIA POUTICO-LITTERÂRU 

DO 

Víscoide d' Almeida fiarrelt 



Ob I qual te yejo 

Infeliz pátria I Sortes ta, princesa, 
Tu senhora dos mares? Que tyi-annos 
As aguas passam do Guadiana? A rooilc, 
A escraTidão, lhes traz ferros e sangue... 
Para quem?... Para ti mesquinha Lysia j 

(Garrett.— Camõeí) 



I 



João Baptista— da Silva LeitSo— d*Almcida 
Garrett, primeiro visconde d'Almeida Garrett, e 
primeiro poeta peninsular depois de Luiz de Ca- 
mões, nasceu no Porto a 4 de Fevereiro de 17Í9, 
— segundo a sua certidão de idade, e a confis- 
são d'alguns escriptores vivos e fallecidos, aos 
quaes se deve prestar toda a consideração ; — que 
tractaram com elle, na infância e na adolescên- 
cia, nas terras mais notáveis do reino e ilhas ad- 

ALMEIDA GARRETT 2 



i8 



jacentes, como Angra do Heroísmo, Lisboa, Por- 
to^ e Coimbra, onde estudou até os princípios do 
aono de 1822; e também no estrangeiro duran- 
te os desterros que soílreu, pela simples culpa 
de pugnai" pela causa da liberdade, quando viu 
seu brilho quasi ofuscado pela nuvem pavorosa 
do despotismo, que se desdobrava rápida sobre 
ella, e a toldou por fim complectamente ; perse- 
guindo sanhuda e temivel, os seus dignos aposto^ 
los, e arremessando-os pelo direito da força, além 
dos marcos da pátria. 

Entre os diíferentes litteratos que lêem publi- 
cado retalhos da vida <Jo grande poela, (porque 
complecta não me consta que se tenha publicado 
até hoje) encontram-se tantas divergências na 
dacta do nascimento, que hesitei fortemente pa- 
ra me decidir a encher as linhas, que deixara 
em branco ao principiar estes insignificantes es- 
tudos. São taes esses anachronismos como os 
que vou citar; uns assignados por pennas vanta- 
josamente respeitadas no campo das lettras, ou- 
tros anonymos, que asseveram ter nascido Al- 
meida Garrett, em 1798, 1801, 1802, e ainda 
em 1804 ; dactas absurdamente imaginadas, Ou ti- 
radas de documentos duvidosos, e não escriptas 
á vista da certidão do baptismo do poeta, que es- 



19 



tá exarada n'um documenta histórico, concebido 
tf estes termos: — João Baptista da Silva Leitão, 
d' Almeida Garrett, nasceu no Porto a quatro de 
Fevereiro de mil setecentos noventa e nove, e foi 
baptizado na egreja Parochial de Sancto Ildefonso, 
no dia dez do mesmo nisz e anno. — Os escripto- 
res que estão em verdadeira harmonia com a ci- 
tada certidão, aos quaes alludi acima, são os Srs. 
Latino Coelho n*um esboço da infância de Garrett, 
que publicou em hespanhol no primeiro volume 
ádi Revista Peninsular, Gomes d'Amorim, nos seus 
Cantos Matuiinos, e Innocencio Francisco da Sil- 
va, no terceiro volume do seu Diccionario Biblio- 
graphico, que veio engrandecer immensamente a 
erudito dos constantes ledores do antigo Barbo- 
sa Machado. Foram pães de João Baptista d'Al- 
meida Garrett, António Bernardo da Silva Garrett, 
fidalgo cavalleiro da Casa Real, fiscal mór da sel- 
lagem da Alfandega do Pprto, e D. Anna Augus- 
ta d' Almeida Leitão, filha d'um abastado nego- 
ciante, accionista e deputado da poderosa com- 
panhia dos vinhos do Alto-Douro. Sua família era 
OFiunda d'um condado dlrlanda e de mui remota 
ascendência, que tendo sido perseguida por seus 
naturaes por causa de questões de politica ou de 
religião, andou errandq muitos annos, sem pão 



20 



nem abrigo certo, por varias terras da Europa, 
como tantas famílias desgraçadas, a qoem os par- 
tidos políticos 6 seitas religiosas tem feito mor- 
rer ao desamparo entre corações estranhos. Ex- 
perimentando sempre a mais inconstante fortuna 
durante essa larga o dolorosa peregrinação, e 
achando-se finalmente em Hespanba, a desolada 
família resolreu^se a transpor as fronteiras de 
Portugal, e veio no séquito que acompanhou a 
Lisboa a rainha D. Marianna Yictoría, esposa de 
el-reí D. José primeiro, e filha de D« Maria Anna 
d' Áustria, e de D. Philippe V. Pouco depois de 
entrar em Portugal, foram estes infelizes residir 
para o Porto. 

Depois passou esta famiUa ás ilhas dos Açores, 
guiada não sei porque felicidade ou desventura, 
e ahi nasceu então António Bernardo, pae do nos- 
so poeta. Voltando António Bernardo para o Por- 
to, ahi foi contrair os laços matrímoniaes, com a 
virtuosa filha do respeitável negociante portuense. 
Adquirindo por esta vulgar circumstancia uma 
fortuna soffrivel, nasceu João Baptista de Almei- 
da Garrett no seio das melhores commodidades 
que podem ser ambicionadas, pelo homem que 
surgiu no mundo, envolto n'um sudário de dores 
e agonias, como o que velara o nascimento de 



21 



seii pae na intimo de sua família, inda pouco fe* 
liZi e fortemente magoada com a viva lembrança 
do querido ninho pátrio, d'onãe mãos traidoras a 
tinbam rechassado. Mas por fim os perfurantes 
esgalbeiros . do «xilio haviam-se tornado suaves, 
para esse resto dos membros da estirpe irlande- 
sa. 

Quando ' João Baptista começava a soltai; dos 
kbios tenros e engraçados as primeiras modula- 
ções de creança^ acbava-se este pequena tor- 
rão de Portugal, descançado sobre a mais pla^ 
cidã e firme tranquillidade, mas apenas prind-^ 
piòu a pronunciar claramente as vulgaridades fa- 
miliares, foi surprehendido por uma nuvem negra 
e átterradora, que se desdobrava sobre os hori- 
sontes portuguezes, e por uns sons eíccoantes, 
complectamente ignorados pelos seus ouvidos dln-' 
fonte. Era o troar petrificante dos tanhões fran- 
cezes, accesos pela raiva ambiciosa de Napoleaa 
I, que já derruirá então os primeiros torreões 
erguidos nas fronieiras de, Portugal, para derra- 
mar sacrilegamente o sangue de nossos avós, é 
coligado com a fanfarrona Hespanha obrígal-oâ a 
fechar seus portos aos inglezes, pr^der os que 
habitassem em terras portuguezas, é confiscar-: 
lhes 08 bens que possuíssem ; mas reaggindò o 



22 



gtíVerno portuguez contra as despóticas medidas 
do César moderno, entrou em Portugal uma po- 
derosa divisão do exercito francez e alguns bes- 
psuihes commandada pelo general Jnnot, obrigan- 
do, o príncipe regente D. João, a sair as agoas do 
Tejo com toda a familia Real, demandando as 
terras de Santa Cruz. Avançando iracunda e se- 
denta sobre Portugal, essa legião destruidora de 
guerreiros esfaimados, pisando com o maligno co- 
thurno, tudo que encontrava na passagem que 
operaya nas veigas portuguezas, saqueando tudo 
aquillo a que podia lançar as garras ambiciosas, 
violando os sanctos lares das famílias, e cevando 
a bruta sensualidade á viva força nas donzellas, 
emquanto outros assassinavam seus desgraçados 
paeà a ferro e fogo, foi acampando de monte em 
monte, de descampado em descampado, e de po- 
voação em pervoação, esperando qae Portugal se 
resolvesse a dar apoio ao systema continental, 
que Napoleão concebera crear n^aquelfe cérebro 
eivado de malvadez, . avareza estulta, e ambição 
de governar o mundo f 

• Tinham passado apenas dez annos sobre a ca- 
beça joven do nosso poeta, onde amadurecia um es- 
tro excepcionalmente fogoso que o devia levar 
mais tarde sobre suas azas possantes ao apogeu 



23 



da^oria, a esse término immensuravel da im- 
mortalidade, onde subira já, havia perlo de três 
séculos, o inspirado cantor do esforçado Gama, o 
grande capitão rival de Chrislovao Colombo^, e pa- 
rece que descendente dos carthagineziss, os mais 
ousados navegadores da antiguidade, que como 
disse o nosso Homero, metteu frotas altaneiras 



«Por mares nunca d^antes nategados» 



e erguendo seus olhos magneticbs e penetrantes 
oqde fulgia o astro brilhante da intelligencia, que 
reverberava no rosto azul do céu ; ergueu-os pa- 
ra as cumiados imponentes que se desenrolavam 
em dilatada extensão entre Minho e Douro, viu 
treQiiiIar ao som dos ventos pátrios a bandeira 
das águias imperiaes, hasteada pelas tropas, do 
orgulhoso e (tetestavel Corso, que mandara aba- 
ter a das Quinas d'Ourique, oulr'ora tão respei- 
tada por todo o universo, como a imagem d'um 
Deus de bondade, que rege os céus e a terra^ em- 
puidiando na dextra a compaixão divina para ga- 
lardoar os seus eleitos, e a anathema na sinistra 
para aniquillar os filhos dissolutos, d^avados e 



S4 



i«k> 



avacos, renegantes da religião que Elle nos deir 
xou escripta por seu próprio punho, ecomo^ii 
divino sangue. Apoiado á iqão de seu pae, qu^ 
tremia da próxima per4a da independência nacip^ 
, nal, encarou summamente admirado, esses hori" 
sontes affogueados e desconhecidos, que annunr 
ciavam uma tempestade horrorosa em todo <» 
paiz, (jue o devia tornar n'um lago de sangue, e 
deixando escapar do peito innocente e frágil, um 
d'estes suspiros que parecem pertender arrancar 
o coração soffredor, e arremessal-o ao lodo mun- 
danoso, sobre o bafo indomável da intima ago- 
nia, perguntou a António Bernardo, o que sym* 
bolinavam tantos homens d' um aspecto tão singu^ 
larmente diOerente d'aquelles que sempre vira,- 
quando ainda conchegado aos seios de sua mã]e> 
tão . risonhos e pacifícos sob a fleugma da mais 
pura tranquilidade nacional ; qual a sua pnocer 
dencia, e o motivo porque Ioda a cidade estava agi- 
tada. António Bernardo chorou de gozo e de dor 
n'essa occasião; de dpr, por ver a pátria do seu ber* 
ço invadida por estrangeiros, e de gozo, ao escu^^ 
tar as discretas e affliclivas observações da crean*- 
ça. €omo bom pae que era,eUacidou João Baptis- 
ta, o melhor, que poderam conseguir os seos lá- 
bios trémulos^ com o suslo que infundia em seu 



s» 



antmõ, a legião d'invasope3 bârbaro$. GooUrn-llM 
que tal gente» com a fúria indomada espalhada 
nos rostos crestados pelos soes ardentes, erainii- 
miga da pátria; aqueila côr denegrida. que causa<- 
va pânico, e fasia lembrar as fúrias infemaes> érá 
produzida pelo fmno despargido nos acampa^ 
mentos durante carniceiros combates e lambedo^ 
ras fogueiras accesas no campo durante os dias 
de descango e o traçar de planos de guerra des- 
de o Sena atè ao Douro caudal, e turvo^ e mais 
paToròso ainda com o sangue vertido em soas 
longas margens que logo se junctava ao séquito 
ftmebre de suas extensas agoas. Â creança come^ 
çoa a soluçar abraçada a seu pae, e ainda per^ 
guntou se lhe matariam a sua mae ; e recebeu^ 
do a imprudente affirmação da pergunta inno- 
cente, correu a lançar-se nos l^^aços dá carinho- 
sa Anna Augusta, sua mãe beijando-a é dizendo 
que fugisse porque a queriam matar, e a seu 
pae também. A mãe buscou tranquillisal-o, abra- 
çando-o e cobrindo-o de beijos, e contrariando 
bastante a seu pezar as palavras do esposo que 
amava em extremo, e assim pôde restituir-lhe o 
socego habitual e tirar-lhe da lembrança a devas- 
tadora expedição, que abafava as palavras indi- 
gnadas que os portuguezes buscavam proferir coo- 



s 
• 



26 



trã o causador de tantas misérias que já vinham 
perto opprimii-os, apoz 4anto sangue espadanado 
para se apossarem dos haveres d'aqueiies que 
haviam empregado toda a sua vida nas tralhosas 
lidas que Deus nos deixou para tirarmos d'ellas 
o sustento do corpo e do espirito. Até Garrett^ 
havia tão pouco desprendido do berço que o vira 
nascer, já soluçava e vertia lagrimas sobre o pro- 
fanado altar da pátria I Pobre innocentp I Tão ten- 
ro ainda e já sofifria tanto, de ver o seu berço 
calcado por tyrannos useiros da força bruta I Era 
Deus que lhe illuminava o espirito infantil, e o 
fazia comprehender as cruas disenssões dos ho- 
mens ; corações impedemidos, que intentam fe- 
char na mão infame e avara as redondezas d'es- 
se orbe incommensuravel, e constituirem-se domi- 
nadores bárbaros de toda a humanidade. . 



M 'estas horas d'agonía 

Grata consolação é ^er unidos 

No funeral da pátria, os qu6 inda podem 

Carpil-a bem sem remorso e sem Tergonha . 

Na tua edade 

Respeitam-se os anciSos, ouve-se e aprende-se 

Mancebo escuta. Libertar a pátria 

E dar pelo resgate a própria vida 

Não é mais que dever, grande heroísmo, 

Acções de gloria nleso nSo as vejo. 

(Garrett.— Caíõo) 



II 



Poucos dias depois doestas scenas, partia a hones* 
ta família de Garrett, do Porto para Lisboa, ten- 
tando escapar-se do jugo oppressor, e salvar al- 
guns haveres das mãos dos saqueadores. 

Em Lisboa poderam residir alguns mezes mais 
socegados^ mas escaceando-lbes corações amigos 
na capitaU resolveram passar ás ilhas dos Açores 
em demanda d'ttm virtuoso prelado seu parente 
em grau muito .aproximado que ali residia, go- 



28 



sando a geral estima de todos os habitantes d'a- 
quelle archipelago. Era o venerável octogenário, 
D. Frei Alexandre da Sagrada Farailia bispo d' An- 
gra do Heroisnao, tio paterno de Jo5o Baptista. 
Ali poderam então os foragidos disfructar alguns 
dias felizes, no remanso d*uma vida cheia de ale- 
grias, juncto da ahpa gejierosa do venerando sa- 
cwdote. Este ministro de Deus, possuia a par de 
uma religião immaculada, e d'uma caridade que 
o tornava profundamente estimado e bem quisto 
pela diocese de que era digno directbr espiritual, 
uma tão basta erudição e sabedoria, que aíBan- 
çava um futuro brilhante ao pequeno Garrett, se 
acaso o bom velho fosse o seu perceptor. O bom 
velho era um conjuncto de grandezas moraes e 
intellectuaes, como raramente se encontra nas 
aras do christianismo ou no altar do sacrificio de 
Deus! ioto Baptista estudara no Porto ainda com 
seu pae, as primeiras lettras, e já soletrava algunâ 
nômès em liMx)S que António Bernardo lhe dava 
para elle ler quando soubesse. O pequeno èntre- 
gara-se ao estado com grande vontade» é brdve 
começou a ler sc^rítelmente as historiai que a 
pae lhe mandara guardar quando abandonou o 
Porto. Na ilha tomou tanta amizade aos livroi^, 
que estava quasi -siampre a folheat-os. Seuis pães 



20 



gpsavam uioâ singular coosolação, yeudo que el- 
1q era inteirameate contrario aos brinquedos ín^ 
faBtis, a que se abraçam a maior parte das cre- 
anç^is ccHn uma paixão desordenada. A João Ba- x 
ptista nunca se apegara essa lepra contagiosa. 

Os castelUnbos de seixos e barro em cuja fei- 
tura as creanças gastam o tempo, e rompem os 
vQstidps, eram compiectamente desconhecidos pe- 
lO; futuro cantor de Luiz de Camões. Em lugar 
d'esses divertimentos tributários adoptou o pe- 
quena de Ântouio Bernardo, outro systema de 
edíiScar, com pedra mais bem lavrada, e barro 
tãp sublimemente amassado, que seria impossí- 
vel derrubal-os a mais horrorosa tempestade que 
tentasse açoutal-os. Passava dias e noites succes- 
sivas, cavando os alicerces para enterrar as ba- 
ses d-esses magníficos torreões, que só haviam 
de ver um rival entre os Lusos ; e esse era o que 
levantara Cs^nões, cantando o nosso ousado Ga-. 
n^.Mas qué castellos eram esses, que a crean- 
ça riscava entre os afagos da família? Com que 
argiUaf os pmentava? Com que elementos os í^- . 
bricaya, e lhe dava tanta fortaleza? 

Ef^ com os livros das vastas bíbliotbecas de seu . 
tio D, Frei Alexandre, . que juncto de uma coUec- 
çãO; numerosa dos melhores gregos e latinos,, co-. 



30 



X 



mo Pindaro, Anacreonte, Sophocles, Homero, e 
Horácio, Virgílio, e Ovídio, era possuidor dós me- 
lhores partos dos clássicos portuguezes, como Ca- 
mões, Gil Vicente, Sá de Miranda, Rodrigues Lo- 
bo, Bernardim, e outros que souberam tanger com 
valentia as lyras da antiguidade. Foram de tal na- 
tureza os materiaes que Garrett ajunctou para ois 
seus castellos que se tornaram inexpugnáveis, até 
para os mais attilados guerreiros, que com ar- 
mas da mesma espécie pretenderam altear-se ao 
mesmo ponto, ou prostral-os em complecta'rumá. 
Mas aos bloqueios succederam-se bloqueios, bom^ 
bardeamentos a bombardeamentos, ódios a odio^, 
extorsões a extorsões, maldizentes a maldizentes, 
imitadores a imitadores, plagiários a plagiários; 
e o grande Garrett contemplava-os impassível, 
com aquelle sorriso de sceptico que sentiu desa- 
brochar nos desterros que provou em abono do 
seu ninho pátrio, e não ousava punir pelos direi- 
tos que d,e justiça e lei lhe pertenciam e o favore- 
ciam plenamente. Era a imagem da resignação; 
era o guerreiro que vendo o campo onde pdeja 
com os seus, talado de cadáveres lacerados e lan- 
çando golfadas de sangue, pousa negligente"- 
mente o escudo salvador sobre o peito ancíado, 
e aguarda com os olhos no céu, a chegada de 



dl 



uma bala peiibrante, que Iba: transporte a alma 
á tranquilla mansão da eternidade; mas revelia 
no olhar ^e humildade qae ainda cré, firmemen- 
te D'um Deus de misericórdia^ que ^^ontempla do 
seu throuo d'ouro, os cruentos debates acaesos 
por seus filhos com a mira em governar alheios 
territórios, e fazer alvo da tyrannia os seus des- 
graçados íncolas. Garrett era as»m ! De tantas e 
tão Ígneas balas que lhe apontavam ao coração, 
nenhuma o pôde ferir, nem as arguições estúpi- 
das o fizeram nunca descer o mais apertado de- 
grau, do logar onde o levara a intelligéncia qiie 
assombrava os detractores e falsos apostoles da 
seita que elle adorou. 

Os Zoilos espumavam e mordiam-se de ver 
prosperar o seu nome, e elle ria-se da mesqui- 
nhez d'elles, que vendo-se todos oaúapossibilida- 
de de o igualarem, maldizíam-n'o, e buscavam 
prostral-o no maior rastejamento. E nunca tre- 
meu este homem, jlianíe d'esses invejosos e pra- 
guentos ? E não descarregava sobre elles o azur- 
rague tremendo que empunhava? Não? Porque^? 
Porque olvidando todas as crenças, conservava 
unaa no seu nobre coração, e essa, era, — a que 
todos devem alimentar, até lhe estalar a mola ul- 
tima da vida — a de que existe uma Providencia, 



3fe 



(pte è prineipio» meio 6 fim de tudo quanto > ha 
bom e iucomparavel, e capõz de tudo o que nãp a 
permittido praticar aos hpmeus* Com a vista £xa. 
u'essa sombra que dulcifica as magoas do vivenr. 
te» QíQida a ceileuma dos seus adversados» sem 
procurar abafada' oom os ecdos de sua palavra so*. 
berba e altisooa I 
* D« Frei Alexandre, enfadava-se ás vezes com^a 
pequeno sobrinho» pesque Ibe devastava ás es* 
tairtes dos livros para os^pôr euflleirados sobre, 
as mesas enos alegretes do quintal, onde se ass^^ 
tava a analisar a diversidade dos typos, gotbicos^ 
gregos, allemães» e outros que em nada se pare*^ 
ciam com aquelles que lhe haviam ensinado o A. 
B. G Mas, GarreU nSo se anmmendava, e um dia 
chegou a dizer ao honrado velho, que se elle não o 
ensinava a ler aqoeUes livros, ia aprender para 
casa de Joaquim Alves; um velhote terceirense que- 
o estimava muito e lhe dava muitos doces. D Ale- 
xandre não pôde deixar de sorrir da crianceira 
influencia do sobrípho, mas conhecendo-lbe uma 
excel lente comprehensão e uma vocação singular 
para as lettras começou-Ihe a fazer varias pergun- 
tas sobre grammatica, e vendo qué respondia 
com a promptidão do melhor estudanle, princi- 
piou a dar-lbe as primeiras lições de latim, com 



33 



sttía 



âqoaUa consctancia e prudeodá 4]ue Ibe eram ha« 
bitiiaes. Fazendo o pequeno, ^tm pooGo tempo 
grandes progressos n'esta lingua, deu4be tam^ 
bem algumas prelecções da grega> em que era 
prc^ndaiaente versado. Com tão erudito peda^ 
gogo, e t^ boa vimtade de ^tudar pôde Oarrett 
conhecer em pouco tempo as doutrinas â'esses 
gra&des' gigantes do pensameulo, do taooípo do 
prâneiro Mecenas» que o venerável sacerdote con- 
servava como remmiscencia da edade juvenil, em 
cutjo r^aço se abastecera de bem> cimentados es- 
tudos. Assim corria a vida do joven* poeta, sem- 
pre com o pensamento engolfado nos seus livros, 
e *em aturadas consultas entre os vários auctores. 
Quando fechava os liwos, quasi sempre a instan- 
cias dos seus maiores, «mpragava o tempo a h^ 
ZiGT a ;sua ode, a ajlinbavar os seus sonetos, e enr 
&aiava-se em differentes géneros de verso e pro- 
sa^ mas tão fraco.se considerava ainda, que nos 
momentos em que o amor das lettras o incitava a 
mostrar e$$as escre vedoras ao bom tio, antepu- 
nharse-lhe no caminho, o pejo e a vergonha de 
creança, e obrigava-o a guardar aquelles alvores-, 
que mais tarde elle refundiu, e fez dardejar a sua 
luz DOS mais erguidos^ píncaros do universo. Es- 
crevia, ,e guardava, para d^ois apresentar todo 

ALMEIDA GABRETT 3 



34 

r ' - - — ^^.^____^_^_ ... .,. , . ^_^._-_ ■■■^-j-T-.----:v -^ ^ ■ ,- - - 

s^queUe molho de criancices litterarias. Sabendo 
o latim soffriyelmente, e arranhando menos mah 
como se costuma . dizer, no grego, D. Frei Ale- 
xandre descançou algum tempo com as suas li- 
ções, e.disse-lhe naturalmente que {»*ofandasse 
mais o» estudos dos- clássicos portugoezes, para 
depois, aprender o italiano ; mas qual não foi a 
sua admiração ao ver o sobrinho ler correctamen- 
te as obras de Metastasio, e de Goldoni, a ps»r de 
Tasso e Dante, e até os clássicos mais enrevesa- 
dos de Itália?! O velho pastor das ovelhas aço- 
rianas levou as mãos á cabeça e benzeu-se de ver 
o rapaz ler correctamente nos livros que eUe lhe re- 
servava para mais tarde. — «Pois também já tu sa- 
hes o italiano?» exclamou D. Frei Alexandre ver- 
dadeiramente desappontado, por não gbsar elle a 
gloria de ter sido seu mestre em tal lingua. 
— «Sei sim senhor,» respondeu Garrett, levantando 
o cabeUo que teúnava cobrir-lhe aquella fronte es- 
paçosa — «Ora Q rapaz... » dizia o velho comsigo, e 
procurando uns italianos que tinha na biblíotbeca, 
«You-lhe entregar Mafifei, a ver como elle se^ de- 
senvolve.» (1) ED. Frei Alexandre levou-lhe uma 



(1) Yeja^se introdacçSo^ dsiiÊerope. 
t 



35 



tragedia do poeta italiano, e mandou-o ler uma 
sceoa ao acaso. Garrett, n^essa occasiSo, sentiu 
ewrer-lhe no cérebro um pensamento de vaidade 
-e orgulho, porque olhando h*onicamente para o 
tio, leu ligeira e correctamente a scena que elle 
}he apontara, 'e avançou ainda muito mais. Frei 
Alexandre não cabia em si: foi perguntar a sua 
Cunhada D. Ânna Augusta, se era conhecedora 
dos progressos do filho, e respondendo-lhe aquel- 
ia que os desconhecia inteiramente, procurou seu 
irmão, mas não teve tempo de o interrogar, por- 
que António Bernardo correu para elle, dando- 
Ihe exactamente a mesma noticia que soubera 
fl'aquella occasiao; — «O rapaz éo... sabes o que 
eu te. digo António? o rapaz ainda não pára ali; 
aquillo vae muito longe... e sabes o que me está 
lembrando? É... é... nem eu sei o que... Nem 
lenbo animo para t'o dizer...]» 

— «Homem f explica-te ? t^Queres mandál-o es- 
tudar para alguma academia de Lisboa, ou man- 
dal-o ordenar ?» — Ahí... pois é isso mesmo; sae 
d'alium grande homem e um grande sacerdote !)> 
« — ^Pois se elle quizen.. respondeu provavebnen- 
te o pae do intelligente estudante. E D. Alexan- 
dre dizia bem; o bom do velho queria dar-lhe 
um caminho onde achasse a posição de que o 



>s 



36 



considerava m^^cedor, qae estíTesse em bar*- 

monia mm a capacidade e talento qae lhe coidie- 
m^ e lembrapdo-se que podia abdicar n'ella' um 

dia a mitra de bispo da diocese que gaveraava» 
e legar á egreja por sua ísmiQ um aslbio e õÀBr 
creto múQistro, ^ um rival de Jeronymo Osório^ 
trabalhou com acérrima constância^ para lhe ai- 
caqçar um bene&do «da ordem de Christo, o que 
conseguiu no fim d'algu£tô mezes. Aconselhado 
pela mae e pae» e quasi arrastado pelo respeitá- 
vel pastor d'almas chegou Garrett a professar as 
ordens menores; mas D. Alexandre acertada 
sempre nas suas escolhas, menos n'aqueUa; por- 
que Garrett não tinha uma d'aqudlas pbysiono: 
mias que quando apparecem> se diz d'ellas: ^ 
vmmo uma cara de padre 1 Observando minijh 
ciosataente ao lado de seu tio, os estatutos q^e a 
egreja sôe metter na mao dos ecclesiastiços co- 
meçou a olhar para todas aquellas ceremouias 
com desmedida indifferença e a fiK)strar-se enfar- 
dado e tristonho, e vendo-lhe o velho no rosto 
esse desapego, interrogou-o cobre tão estranho 
procedimento. Garrett révestiu*se então de toda a 
coragqm de que dispunha, tão novo ainda^ e res- 
pondeu-Ihe que não sentia forças para empunhar 
o pesado bastão de pastor d'alinas e que da mc^ 



37 



itaor voDtaâe segoiria o curso da magistratura. O 
tio estaeoo ante a saa repentina resolaçSo^ mas 
breve cobrou animo. Era um d'estes bomens que 
não desanimam fadl, nem se curvam aos mais fie^ 
ros desappontamentos da vida. Encarou o so** 
brhaho ní'um olhar austero, e buscou lerrlbe no 
intimo para o guiar pela palavra affectuosa, ao 
camiaho da obediaoeía e da virtude. Nao colhen- 
do porem, os frnetos que esperava d'i&sta opera- 
ção, procurou com seus conselhos mostrar-lhe 
o honroso lugar qoe podia occupar no porvir» so-* 
bre as aras sagradas do christianismo; o respei» 
to que lhe seria tributado pelo rebanho que guar* 
dasse, e os interesses que poderia colher n'esse 
estado, mas João Baptista, apezar de se apresentar 
reágnádo ante as suas sanctas doutrinas, mos^* 
traTa bem visível no rosto o turbilhão de con- 
trovérsias, que Ibe ia no intimo. Esquecendo es^ 
ses symptomas atterradores, o tio buscou met«^ 
tel*ô de noTO na carreira que tinha encetado, mas 
vendo que eram infructiferos os seus lavores^ 
cotk^ordou ccmi António Bernardo^ em não con^ 
trariar as aspirações do filho, e deixal-o seguira 
rumo que desejava. Garrett, quando se viu solto- 
das cadeias que começavam a prendel-o á egreja; 
resfolgou satisfeito, & bateu livre, as azas em de^ 



38 

» ' m \ ■ I m i I ^' ' ' ' ■ ! ' ' ' ' _ _ _ ' '■ ^ ^i^w*^iw^w^P^^i^^|^i^^^*^w >. 

manda das regiões porque suspirava a sua alma 
de poeta. Tendo-se familiarisado com o seu Es- 
cbylo, & o seu Euripides tomou amor á tragedia, 
8 apoiando-se a esses mestres, começou a ensiaiar- 
se n'ésse género, com quo diliciava os ouvidos 
de seus pães, e do tio, que também o escutava, 
com satisfação. Os versos, esses, é que o poeta 
guardava para mostrar mais tarde. 

Concluindo deseseís annos de idade, seu tio 
resolveu mandal-o preparar para entrar na uni- 
versidade, e elle não descançou em quanto se não 
viu em estreita convivência comas auras do Mon- 
dego. Chegando áquella soberba capital das scíen- 
cias portuguêzas, começou logo a cursar a ca- 
deira de jarisprudencia, e renunciou o bene&cio 
que alcançara da egreja, a pedido de Frei Ale- 
xandre. Âpplicando-se com todas ^s suas; forçai 
áquelles estudos, e não recebendo iio primeiro 
exame os elogios e valores que imaginara alcan- 
çar n'elle, aborreceu-se de tal forma, que dando-, 
lhe de mão, entrou a frequentar as cadeiras de naa- 
thematica, philosophia e álgebra, mostrando a seus 
professores o elevado talento,. e a fina compre- 
hensão de que era dotado. Sabendo isto seus 
pães, não tentaram contrafa^el-o mas mostraramr, 
se magoados, e aconselliaram-no com a sua gran- 



39 



de^prudencia, a que n3o deixasse o curso das leis. 
Garrett, obedeceu á voz que mais d€lvia respeitar, 
e continuou com os antigos estudos na firme re- 
solução de os acabar, e pouco depois alcançou 
que lhe fizessem í justiça que merecia, conce- 
dendo-lhe um dos maiores prémios de louvor 
que se deram na universidade. D. Frei Alexan- . 
dre, tomou na devida consideração a obediência 
do sobrinho, presenteando-o generosamente, com 
dadivas d'amor e amizade. O estudante começou 
então a entrar destemido em themas que desco- 
nhecera até ali. O novo estudante possuia um do* 
te sublime, uift dote que era invejado por muitos 
e logrado por poucos que estudavam nas mes- 
mas paginas onde elle chegara por esse tempo. 
Era uma reminiscência tão sã e robusta, a sua, que 
abrangia todos os dominios que lhe appeteciam ; 
e jamais se viu hesitar entre as mais difficeis 
proposições académicas, cujos turbilhões, ator^ 
mentavam a grande turma de cursistas. Estuda- 
va ao mesmo tempo, os mais intrincados e pro- 
fundos ramos scientificos, que já houveram na , 
universidade, a par de artes pouco fáceis, sem 
com isso amputar o fio dos estudos que tão iner- 
gicanaente sustentava, entre os seus companhei- 
ros, pela maior parte apologistas desalmados do 



40 






leito de PrdcustOi.. Sim, fallo d'aqiieires estadmi**^ 
tesi qae se amarram como saDguesitgas, ao de^ 
bil baeulosinbo do género que encetaram para 
seguir um caminho sò, e dão de mão a todos os 
mais assumptos que não toem parentesco» n^i 
consaguinidade, axa o g&a&ío a que se dedi- 
cam, 

É por esse mt)tivo que os padres pela maior 
parte, sabem apenas aquella cantilena do EvafEH 
gelbo^ e d'abi nlo tèem ordem de passar.. Apren- 
deram aqueUes curtos períodos, da mesma forma 
que eu estudei, para ajudar á missa, ao abbade^ 
da nnnha aldeola, e fallei em latiiíl, mas venham- 
me cá perguntar o que significavam taes palavras» 
na nossa linguagem! Venham, que estão s&rú4 
dos! É o me^no que acontece a esses latinistas 
que para dará entender q^x&^o alguma coisat di-* 
zem muito pomposamente que estiveram em Colm-> 
bra t Isto não é sô no latim, é em todas as mais 
classes de estudo^ 

Ganett não era assim; aquelle cérebro iMati«* 
gavel, jamais se conhecera cançado, com a vasta 
amontoação de pensamentos, conceitos e precon- 
ceitos de que andava sempre inçado. Nada lhe 
saciava a sede de aprender que o devorava. 

Tudo quanta até '' ali fizera mover os nobres 



i 



u 



filbos de Gcittembei^, em todas as nações e lín- 
guas cultas na Europa, era pouco, e mesquinho 
p&ra encher o vaciío que tinha aberto na sua ima- 
ginação fogosa, todos os livros tinham mereci- 
mento para elle, porqtfe em todos encontrava uma 
novidade, e uma coisa proveitosa. Em fim, n'a- 
quelle ser excepcional, promettia-nos, o mais com-^ 
pleeto encyclopedieo ; e se o não 'chegou a ser, 
pód^se attribuir á sancta causa em que se envol-^ 
veu amda moço, e não á enercia, porque ess5 
moléstia glutinosa^ nunea lhe roçara, nem leve- 
mente pelas vestes. Ali começou o exceílente es-, 
tudante a desenrolar ante os olhos ávidos da re* 
piâ)Iiea conimbricence as empoeiradas e amarei- 
las folhas de papel onde guardava as escrevedn- 
ras que fizera na ilha Terceira, a occultas do tio 6 
de seu pae, onde só sua extremosa mãe tivera 
occasião d'ouvir com summo prazer, aquellas ex-r 
pansoes do estro que despontava apenas, e já 
era tão fugaz e creador. João Baptista como áei^ 
xãmos dito, nK)stràra ao tio alguns quartos de 
tragedia que escrevera em creança, e não recebeu* 
do d'eHe uma apreciação como entendia, — por- 
que D. Alexandre em litteratura não gostava de 
discutir-^ resolveu-se a esconder os versos aos 
seus olhos, e por isso as suas producções ii^n- 



42 



tis só se revellaram embaladas pelas auras da 
Fonte dos Amores, essa encantadora irmã de Hyp- 
pocrenne e Gastalia, que tanto inspirou o primeko 
catóor de Portugal! Os seus companheiros, rece- 
beram-n'o com enthusiasmo delirante. Abraça- 
,ram-n'o, deram-lhe vivas e acompanharam-n'o a 
casa em triumpho. Estava coroado poeta i 

Estes repelidos e quasi loucos applausos com 
que tamanha alluvião, festejou o apparecim^to 
das suas auroras poéticas, infundiram n'elie ain- 
da-^mais amor pela litteratura, e levaraahn'o a 
um novo hemíspherio, onde a natureza era mais 
productiva, e a poesia brincava leda e jovial, so- 
bre as azas da brisa que agitava as ervinhas es- 
padaneas e enrugava o rosto dos regatos victrios, 
e se alevaiitava depois de fatigada, para ir agasa- 
Ihar-se em seu cérebro pensador. 

Nas vastas margens d'aquelle Mondego, tão su- 
blimemente festejado pela harpa do immortal can- 
tor da desgraçada amante — esposa do rei Jtori- 
cetro, assentado na relva rociada, e nas pedras 
musgosas, era onde o tenro neopby to das camme- 
nas, ia pulsar as cordas da lyra. d'alma, contem^- 
plando os cachões espumosos das aguas, e os 
curvados salgaeirâes, onde soluçava o zephyro 
com suavidade, e trinava o passarinho apaisLO- 



43 



Dado, dando parte da sua existência, á meiga ave* 
sioha que coibia nos pântanos, os vermes para 
alimentar os tenros filhinhos que esperavam no. 
ninho entre as folhagens e nas mattas selvosas. 
Era n'aquelle paraiso, que o poeta se ensaiava pa- 
ra subir aos astros nas azas da inspiração, e can- 
tar as bellezas que a natureza apresentava no ma- 
tisado dos prados, no aroma das flores, no expes- 
30 das arvores, no.gorgear canoro dos cantores 
plumosos dos vergéis, no balar dos rebanhos que 
percorriam os pendores dos montes, no sussurro 
monótono e fleugmathico das nascentes d'agua, e 
no murmúrio dos cachões que se despenhavam 
espadanados^ no vasto sulco que ali corria! Foi 
n'aquelles campos tapetados de hervinhas molares 
e frescas, que rodeiam a víisla metropoli de to- 
das. as sciencias portuguezas, que o novel poeta 
desprendeu seus voos fogosos, elevando-se qual 
águia pi;)ssante, á$ alturas da idealidade e re- 
moBtando as destendidas nqvèns que povoam 
sanprQ as regiões do Zenilh. Foi n'aquelles dili- 
cioâos outeirinhos, rivaes de Tempe e de Phoci- 
de, por entre os renques frondosos que elle es- 
cutou os bravos frenéticos e dilirantes da grande 
republica, e onde lhe cingiram na fronte espaço- 
sa, um laurel explendido, que o levava á digni- 



44 



ãade de pFimeiro poeta da academia. E em vol^ 
to em tudo isto, os seus estados galopavam com 
espantosa velocidade, tomando a dianteira ao& 
coltegas qae primeiro mofavam d'eUe, pela rejípro- 
vação qae soflfreu ao entrar na universidade I E 
. os professores começavam a estimal-o, e a ligar- 
Ibe mais attenção do que áquelles que lactavam 
todos os dias com os verdeaes. 

N'este tempo ainda elte não revellára a sud veia 
poética aos professores, mas correndo algum 
tempo e sendo apertado fortemente pelo lente áe 
mathematica e álgebra, mdignou-se e pespegou- 
Ihe com ura soneto nas bochechas que^ fez erguw 
todas as aulas i O mestre gostou da compo^siç%y 
e elogiou-o muito. D' ali para o futuro todos lhe- 
chamavam poeta em (plenos geraes,) e as suas 
producç()es eram lidas com enthusiasmo, até pe- 
los professores mais orgulhosos em matéria de» 
litteratura. Correram tempos, e o poeta era in- 
cansável nos. seus lavores poéticos. N'este eome^ 
nos, veio despertal-o um novo sentimento I 

Leu muito, viajou com attenção pelas aventu- 
ras mais notáveis do amor, e desejou amar. Mas 
amar a quem? Era provavelmente esse o seu 
constante pensamento ; amar quem o amasse tsmi* 
bem. Mas esse quem estava ainda occulto atraz 



45 



dos bastidores do iiaipossivel. VeFeejou. Faltan- 
do-Uie por fim o asumpto para tamanha coUecção 
de Tersos como ambidonava, saiu das aulas, um 
àta> e foi percorrer os arrabaldes de Coimbra 
em |»*ocura de assumpto para um poema. Na 
maiigem d'um ribeirinho descubríu um yqUo. Des- 
ceu ao local, e viu... viu uma mulher 1 

Nada mais natural — dirá o leitor. 

Olbon-a, ella olhou-o e retirou-se. Tinha en- 
contrado o ramo de Sybilla ! Frequentando aquei- 
les sítios ^ a [miúdo, via sempre a nayade, e tan- 
tas yezes se viram que se amaram. Por fim visi- 
tava-^a todos os dias, e ella lá estava sempre, no 
sen posto. Um dia porem, a nympha não lhe ap- 
pareceu. Retirou-se a casa, e deitou-se, com a fir- 
mo tenção de ir no dia s^uinte; foi, e não á 
viut Passaram-se mezes, e o regato corria da 
mesma forma, — mais triste só — as margens eram 
ledas como ontr'ora, mas a deusa não contem- 
plava a corrente como era costume. Tinha desap- 
parecido! Então o poeta tomou-se scismatico, e 
ia esconder-se, nos ermos mais solitários, para 
d^affogar das suas magoas. Ahi é que elle era 
sublime e grande; ahi é que elle era poeta. Quem 
o : quizesse admirar, era embrenhar-se por entre 
as eepas ramalhudas dos vallados, e contemplat-o 



46 



silenciosamente, quando estava immerso nas suas 
intimas cogitações. De espaço a espaço, erguia a 
fronte de repente, como se acordasse d'um som- 
no leve, e fitando as verduras que o rodeavam, 
murmurava com voz triste: «Annalia? Annalia?..- 
Quem te arrebatou dos meus olhos?» — suspirava 
elle com a voz queixosa do homem, ou antes do 
poeta profundamente apaixonado pela visão que 
lhe levou uma nuvem procelosa. Quem era essa 
Annalia, leitor? Que segredos existiriam entre o 
poeta e a possuidora d'um nome que tanto o im- 
pressionava, e lhe vibrava t3o meigo e satfdoso, 
nas abras mais intimas da alma de poeta? Não 
sabes, leitor amigo e condescendente?!... Era 
aquella, a quem elle, tencionava dar a colher os 
seus aflfágos d' amante apaixonado I e... Perdão 
leitor ou leitora ! a penna ás vezes enlouquece, e 
escorrega... A nympha nao appareceu mais. O 
poeta continuou a frequentar as aulas e fez tan- 
tos versos que se esqueceu do amor; continuou 
a amar, mas os seus amores antigos, seus pães, 
seu tio, seus livros, seus poetas e seus amigos: 
— «Fiz versos como um desalmado,» — diz elle 
na introducção d'uma de suas obras. Com- 
prehende-se aqui que vefsos são infalíveis para 
serenar as sazões amorosas. Eu por mim não sei; 



47 



tenho feito os meus versínhos medidos a compas- 
so, mds sem amor^ até jk fabriquei um folheto 
d'eUes uma noite para distribuir pela manhã, co- 
mo ouvi dizer ainda ha pouco tempo, a um dis- 
tiQctp escriptor. «Que a litteratura de hoje, se 
faz de noite para vender pela manhã» 
Mas vamos ao assuímpto principal* 
Por esta occasião escreveu Garrett uma satyra 
ao desalmado critico José Agostinho de Macedo 
qu6t^a um dos seus maiores inimigos/ Essa com- 
posição .anda agora juncta ás Folhas Caídas, e 
algumas fabulas e contos também d'esse tempQ. 
Começando o poeta a roçar nos vinte annos, rece- 
beu um golpe mais &tal e fundo do que a $ua 
Annalia lhe deixara no coração que logo sarou 
passados alguns dias de dilirio poético, poético, 
só, já se sabe. Sentiu entrar n'aquelle peito ge- 
neroso e sensível, um ferro sangrante^ que não o 
prostrando por terra, avivou*lhe grandemente as v 
lavas da imaginação, e forneceu-lhe uma divina 
inspiração, para revellar mais vantajosamente, 
quanto podia o estro que o queimava. Era um 
assumpto grandioso, e digno de ser aproveitado 
por aquelle talento singular, que não hesitava pa- 
ra avançar alem das regras de Couto Guerreiro, 
nos edlficios métricos, que nos deixaram no mes- 



48 



mo ponto em qae esperávamos ma mestre para 
ensinar a fazer boa poesia ou canora ao menos, 
porque ârz VigQy« no seu drama Ghatterton, qoe 
para ò poeta lião ba mestre, é a immeasidão que 
a nossa vista abrange. Então Gairettinfluidoporsens 
amigos e mestres» que }be haviam laureado a ly« 
ra lenternecedora» resolveu-se a dar amplo desen* 
vokimeato a esse facto que feriu súbita e pro- 
fundamente, a universidade e os coniml}ricens6s^ 
e rasgou o sendal com que occukava a lyra aos 
olhos enrugosos de muitos doutoraços antigos 
que se jactavam de estar em estreita convivência 
com as musas pátrias, mas que ânalmente mog«- 
travam-se pescadores de termos pomposos, e ga- 
meliadas philosophicas, como dizia, creio qoe o 
venerável padre Sancto Agostinho. O estro de 
Garrett, rebentou então em torrentes impetuosas 
do limbo &ak que jazera ignorado por muitas, e 
desferiu com estranha inergia, as cordas da sua 
akna, que desillusões mundanas ainda não tinham 
estallado; — esses v^mes roedores que tão cedo 
começam a germinar nos mancebos, principal- 
mente n'aquelles que, creanças ainda, se sentem 
queimados pelo fogo dos. sentidos e attrábidos 
pelo iman feminino, na meza d'orgíã, ou perdidos 
no vórtice da extrema di^olução, que faz bra* 



49 



■d»>*á_áA 



mir o organismo, e entontece, <|narido nSo aii^ 
puta coxDjplectameDte os voadoiros qoe tentam le^ 
val-os ao supremo engrandecimento. João Baptis- 
ta amara, e amava ainda, mas n3o os bordeis do 
vicio qoe queimam, ensandecem, e mattàm al- 
ma e escrito. Amava com a infinencia de joven 
e de poeta^ porque onde não ha amor não ha 
poesia, como disse algures, não sei que pensador 
ou philosopho, 

O assumpto fôra a morte rápida e sentidissi- 
ma ã'um cathedratico da universidade, que fôra 
sempre amado .e respeitado com veneração petos 
numerosos akimnos que estudavam aquella facul- 
dade ^H que Garrett se alistara, e fizera já es- 
pantosos^ progressos, O incansável poeta ergueu* 
se cbeio de entbusíiismo, e inspiração, e subindo 
tígeiro aos aprazíveis outeiros do seu Helícou, 
embalado por essa viração embalsamada de poe- 
sia> modulou uma elegia, ou nenia fúnebre que 
endieu de pranto e gratidão a todos os académi- 
cos que lh'a ouviram recitar com tt)da a sua ca- 
dencia d'alma. Todos os amigos do fallecido len- 
te abraçao^am o discípulo que cantava tâo subli- 
memente a saudade quê lhes despertara a falia 
4o mestre. Esta proéucção do nosso e^eranço- 
so poeta, revellava sufficientemenie a bondade 

ALMEIDA GARRETT 4 



50 



que manara sempre na alma do erudito e pru- 
dente magistrado. 

Poucos dias depois, abraçado a Eschylo, es* 
creveu uma tragedia em dnco actos» que encer- 
rava algumas coisas boas, e. que se representou 
pelos amigos que o influíram para a pôr em sce- 
na. Garrett não foi muito feliz na representação, 
mas os que a conheciam, e amavam a poesia pe- 
diam-lhe copias, e por fim aquas] que a sabiam de 
cor. Escrevendo também na mesma'epoca, a. sua 
Lucrécia, tragedia ainda de mais subido mérito, 
que também não saiu á luz da publicidade como 
ja ultima, pela muita modéstia do auctor, ficou o 
poeta gosando na academia de uma tão subidare- 
putação poética, como nenhum dos seus companhei- 
ros foi capaz de alcançar^ não obstante os grandes 
exforços que fizeram. Os estudantes mqis instruídos 
andavam sempre a pedir-Ihe que repetisse a lei- 
tura d'esta ultima, porque diziam que s^npre que 
a ouviam lhe encontrayam grandes novidades. 
Elogios, e amigos das lettras não lhe faltaram por 
essa occasião, e a par d'estes lauréis que tanto 
merecia, e tão bem lhe ficavam n'aque}la fronte 
soberba, soffreu também as successivas imperti- 
nências da grande republica que principiava a di- 
rigir a palavra ás musas^ mas das quaes colhia mal 



51 



articuladas respostas. Entre esses fabricantes ãe 
regrinbas desiguaes como lhe chama o sr. Casti- 
lho, qae molestavam impiamente Almeida Garrett, 
contavam*se alguns que davam esperanças de fa- 
bricar mais tarde alguns versos soffriveis, como 
José Frederico Pereira Marrecos estudante de Ju- 
rísprudencia, José Maria Grande, estudante de 
medicina que veio a ser soffrivel orador parla- 
mentar, o padre Emygdio, e muitos outros que 
viam em Garrett um ente para occupar mais tar- 
de o distincto logar que ficara vago pela morte 
agonisante do desditoso Camões, que expirara 
abraçado ao leal escravo da ilha de Java, e bai- 
xara á morada commum, olvidado de todos os^ 
porluguezes ingratos, a quem legara a maior ma- 
ravilha poética que se tem visto no reino das no- 
venta léguas, e talvez em toda a Europa, um gé- 
nio para contar em melodiosos versos, as vicissi- 
tudes que o esperavam, qual outro Fernão Mendes 
Pinto as contara em elegante prosa. Passados al- 
guns mezes, depois doeste acontecim ento luctuosb, 
achou-se opoeta muito doente, e recolheu-se a casa. 
Âchando*se melhor, e voltando a frequentar pe- 
la melado de 1820 as aulas, ainda nSo complecta- 
mente restabelecido, continuou com as suas ta- 
refas Ulterarias,com crescente admiração dos seus 



62 



collegas DO anno, e mesmo dos lentes da univer^ 
sidade. 

Por e8se tempo eotregoti-se a uma composiçSo 
qae eu julgo suíBciente, para §e chamar desas- 
sombradamente poeta a quem a fizesse. Mas não 
poeta só quanto á arte ou elegância, poeta de co* 
ração e alma! Foi uma ode admirável ao trium- 
pho da liberdade nos fins de 1820, que recitou 
em geraes, na sala dos actos grandes da univer- 
sidade, em que exclama para o numeroso audi- 
tório com aquelle puro amor da pátria sasona- 
do com os reflexos das cbronicas romanas, onde 
viajara-attento e vira revellados os prémios com 
que baixaram ao regelo do sepulcbro os pugna- 
dores da liberdade: 



«Ergo tardia vóz, mas ergo-a livre 
«Ante vós, ante os céos, ante o univ^so, 
«Se os céos, se o mundo, minha voz ouvirem!» 



E depois de communicar aos ouvintes extasia- 
dos, as suas sympathicas e nobres ideias, as cren- 
ças e anceios que alimentava, prosegue com o 



S3 



mai& fando sentimentoi que pôde existimos seios 
de ama alma generosa e sensivel : 



«Nâo posso tanto ; nSo me atrevo ó sócios, 

«Mas tenho um coração que é Lusitano, 

«Mas tenho um coração que é livre, é de homem. 

«Livres como eile, minha voz meu brado, 

«O que a alma sente, vos espalhe n'a]ma 

c £ o grito da razáo troveje ao mundo! 

«Livrei Ahl livre um portuguez foi sempre. 

«Sim: que essa infame sórdida caterva, 

«Esse rebanho vil de vis escravos, 

«Que ao.sceptro da ignorância insensam curvos, 

«Esses... esses oh! Lusa academia, 

«Do nome portuguez, vergonha opprobrio, 

«Portuguezes nSo sSo, jamais o foram.» 



Não è'«sta uma grandiosa concepção d'am ado- 
rador da terra em que nasceu? Quem deixará de 
amar o poeta que arranca do peito violado pela 
doeoça, tão sublimes estrophes que deieitjsim c6m 
melodia, entbusiasmam, exaltam com sua ideia 
firmada sobre a .verdade» e que são capazes de 



54 



despertar o amor pela liberdade ao maior ãe&- 
pota do mundo? Qaem?f... Quem terá animo pa- 
ra negar um monumento glorioso a quem des- 
carrega umá trovoada d'estas, sobre esses mons- 
tros vis e sedentos do despótico governo? Quem 
se não curvará diante d'um apostolo tâo leal, da 
sancta causa liberal? 

Tão alto brado de puro patriotismo, deve fi- 
car gravado ecternamente nos corações dos ho- 
mens liberaes que o escutaram, para que o repi- 
tam diante de tgdos os que se presam de ser fi- 
lhos d'esta abençoada terra de Portugal. Um poe- 
ta assim, merecia aquasi, as palavras com que o 
meu querido Palmeirim festejou o cantor dos 
grandes feitos da Lusitânia antiga: * 



«Era um astro fulgurante, 
cEra um poeta gigante 
cTinha mais alma c[ue o Dante 
c Contava com mais amor!» 



A 



Eu se tivesse ideias de ser um dia poeta, e re- 
solvesse evocar tal génio n'um verso, parece-me 
que diria proximamente: 



55 

Oh i qae risonhas esp'raQça8 
Dava Garrett na lyra f 
Quem nâo ama tal poeta? 
Quem por elle nSo suspira? 

Quem n'uma idade d^aquellas 
Erguera tâo alto brado? 
Quem ouvindo-lhe a voz meiga 
Não se sente enthusiasmado?! 

Quem tão poeta nascera 
€oiBo o cantor de Gamões?... 
Quem sob as plagas do exílio 
Sofrera tangos bald($e8 ? 

Quem t^to se resignara 
Ante as agras decepções? 
Quem fora tâo laureado 
Pelas mais cultas nações? 

Só Camões ergueu mais alto 
O seu eceo snblimado. 
Nenhum génio Lusitano 
Cantara tão inspirado ! 



m 



■>^^*i^— ■W^^MWP^p 



Mas siiff^ alfím. um gigante 
ContandQ-lhe a negra sorte, 
O que em vida lhe negaram^ 
DeurUi'o Garrett na morte t 



Nenhum poeta alem d^elle» 
Como Garirett cantou: 
Nenhum poeta majs nobre 
Nenhum mais alto vooul 



£ que tal? não me ia esquecendo da prosa em 
que me embrenhei entrando por esta selva en- 
redada 1 Mas jà volto a ella, apesar de me ser 
muito ingrata, pondo-me barreiras, e mostrando- 
me precipícios que fariam tremer génios mais 
animosos do que eu. Em seguida ás tragedias 
Xerxes e Lucrécia escreveu Almeida Çarrett uma 
terceira, a Merope que principiara em 1819, obra 
que revelia já mais vasta erudição, do que em-, 
pregara nas mais, muito engenho, e fecunda ima- 
ginação; cujas qualidades essenciaes hão de col- 
local-a, — se acaso ainda não a coUocaram, — 
ao lado dos seus bons poemas. Tem scenas de 
grande merecimento lilterario e effeito dramático, 
mas não foi nunca representada em consequência 



57 



de o auctor começar por esse tempo a atolar-se 
na politica com seus companheiros da. academia, 
que lhe punham em scena as suas composições. 
Esta peça dedicou-a Garrett a sua mãe por ser 
uma das primeiras obras de mais vulto que saiu 
da sua penna de creança. Se não tivesse tão apa- 
gada a reminiscência que d'ella me ficou dava 
uma amostra ao leitor, mas como não a tenho 
agora aqui á mão, deixo ficar aqui a minha hu- 
milde apreciação, e mais adiante me occuparei 
d'esta peça e da sua publicação. 



Em prol da pátria 

Uds obramos c*oa espada; compre a outros 
Coa penoa honral^a. 



{(jÁxaim.^Camões}, 



III 



Havia pouco tempo que o poeta acabara de 
dar os últimos traços n'est.a ultima obra, e já co- 
meçava a ferir com seu cinzel aguçado, uma pe- 
dra tosca que arrancara em idade mais verde á 
borda d*um rio, para formar d'ella uma estatua 
em que tivesse o retracto d'uma deusa que lhe 
vivera no coração 1 Era o Retracto de Vénus , poe- 
ma didactico-social, e que me parece referir-se 
áquella divindade que elle baptisou com o poeti- 



60 



GO nome d'Annalia. N'esta obra, o poeta parecia 
ter desejos de revellar ao leitor que amava já 
d'outra forma que não a primitiva. Parece que 
perdendo aquella que amara cora o lyrismo de 
poeta e joven, se envolvera logo no manto da dis- 
solução, olvidando o amor virtuoso. Desenvolve 
ali ideias tão attrevidamente luxuriosas, que me 
obrigam a negar o que disse d'elle no capítulo 
precedente — «Garrett amava... amava; mas não 
os bordeis do vicio, que queimam, ensandecem 
emaltam almae espirito.» 

Não o lembro como modelo de virtude para 
as pessoas essencialmente honestas, porque isso 
era dizer o que não sinto, mas como uma bella 
obra d'arte, e do grande conhecimento que o 
auctor mostra da pintura, é digno de ser lido 
por tod#s. E mesmo ainda que não tivesse esta 

. ultima boa qualidade, nada podia adulterar a ho- 
nestidade das leitoras, porque quem è bom, que- 

. rendo, nunca será máo. A própria fc^ueira não 
estende a lingua para lamber a estopa, sem que 
um sopro de vento a incline, ou crepite a lenha, 
e arremesse uma brasa sobre a matéria que se 
inflama. Por isso não se deixe a leitora açoutar 
por mao vento e leia este poema. É uma ima- 
gem lindíssima e bem esculpturada, mas o que 



61 

*^'"*^^~^^^»« u i^i »»^^— ^ I I I p ■ . p n ■- ^ II 1 > 



a desfeia borrivelmente sSo os vestidos extrema- 
mente curtos com que se adorna, para^ se apre-* 
sentar aos olhos pudicos da sodedade inno- 
cente... qpe quer livros onde hajam exemplos de 
moral, e não ideias que inflamam o espirito e os 
sentidos. A phrase é inergica, sem sombras de af- 
fectação, e empregada com elegância e magâifica 
propriedade, mas a liberdade que Garrett deu ao 
Uco da penna, que a derramou sobre o papel 
raspou-lheem parte essa belleza, e salpicou-a com 
o absyntho da mais devassa impudicicia, e au- 
daciosa sensualidade. Gravitam ás vezes ali pen- 
samentos, que fariam mover com ímpeto o bruto 
que Gamões disse que a nada se movia. O auctor 
apresenta a Vénus dos seus sonhos, a Vénus pa- 
gã em trajos curtos, n'aH]uella languidez perdida 
que provoca o homem, transporta-o do campo 
da virtude, ás regiões do mais arraigado sensu9- 
lismo, e o faz arder em desejos de barregão, por 
que 



«Em quanto nas lidadas ofilckias, 
«Forjando o raio vingador dos numes, 
«Vive o coxo marido sem receios, • 
« Já^ deslembrado da . traidora rede, 



62 



•T^ 



cDo Cynerea mancebo entre os abraços 

«Jáz a esposa gentil ennamorada, 

«Nas languidas pi^pUas lhe transloze, 

<0 prazer diyinal qae a opprime e anceia, 

«Nos enflamados beijos, nas caricias, 

«No palpitar do seio voluptuoso, 

«No lascivo apertar dos braços niveos, 

«Nos olhos em que a luz quasi se extingue 

«Na interrompida vóz que balbucia, 

«Nos derradeiros ais' que desfalecem... 

«Quem do prazer nSo reconhece a deusa 

«No excesso do prazer quasi expirando? 

«Sorri-lhe ao lado o filho de travesso, 

«E d'entre o myrtho as cândidas pombinhas 

«Co estremecido arrulho a dona imitam. 

«Âhl se o gosto supremo a um deus nâo peja, 

«Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras 

«Tão suave peccar, docedelicto, 

«Antes virtude que a natura ensina.» 



N'este e em muitos mais ponctos, tem Garrett 
muita e muito boa rasSo, e julgo que tem todo 
o mundo a seu lavor por que a natureza manda 
que se toquem os dois géneros da humana cons- 



63 



I 

tracção, para que- progridam as gerações, e não 
se apartem disolvendo a amizade que é indis- 
pensável no mundo. Continua o poeta: 



iD'est'arte as breves horas decorriam 

cAos alheados fervidos amantes, 

i£ vezes trez rotara o disco argênteo 

iTriyia gentil, sem que no Olympio ou Lemno» 

'A esposa de Yulcant) apparecesse. 



< Já na eth^ea mansão vagos juizos 
«Maliciosa forma, a inveja, aintríga 
<E sorriso maligno ás deusas todas 
«Do marido infeliz incita o fado, 

«.....••••••••• 

E em busca da infiel vagueia o mundo. 

< 

Tal é paixão zelosa o teu império !» 

Voo voltar os olhos Mtra vez para traz, a ver 
o que encontro que melhor ligue com a finda ci* 
taç5a. . 



^i«« 



64 

^^^^^ . - - . - j 

rMas quanto é bello, é grito or vencimento, 
rSe á dôr suave do pungir fagueiro, 
(Da ferida se encontra amigo bálsamo, 
tE nos olhos da linda vencedora, 
(Do ardimento o perdão, brando se acolhe ! 
iTu Marte, o dize o Cypreo, o moço o Teucro ; 
lE vós que ousaes na terra imitar numes, 
iQue do sumulo prazer rompendo arcanos 
iN'um momento gozaes da eternidade.» 



No fim do poema, indica viver de novo com 
Ânnalia, em Ânnalia, ou que ella vivia em seu 
coração de poeta apaixAn^do, por que diz: 



« quando natura se empenhara 

tEm dar-te ao mundo, carinhosa Annafia 

« Um,' o um copiou meigos encantos, 

«Que, ó minha Vénus, te compõem te adomam» 

«Ali olhos no quadro; os teus formosos 

i Estremada rasgou; tli as faces 

«De neve, e roías, coloriu divinas; 

«Foi amynhar-se amor, te abriu mimosa; 



65 



«Ali o callo d'alabastro puro; 
«Os lácteos pomos que devoram beijos» 
«Do faminto amador; lisas columnas, 
«Que sustentam avaras mil segredos; 
«Segredos cpie.» Perdoa: eis-me calado 

«Volve a meus versos compassiva amante, 
«Benignos olhos, para ti voando, 
«Da critica mordaz censuras fogem; 
-«Se accolheres o rude oíFertamento 
«Seráo meus vei^sos como tu divinos.» 



O resto do poema, quero dizer a parte que 
Sca por citar, que é quasi todo, é cosiubado com 
temperos d'este género, mais ou menos apimen- 
tados ou insulsos isso nada adianta ou atraza. 

Vénus, ou Annalia, a deusa que inspirou o 
poeta, occupa ali o centro do quadro n'uma po- 
sição provocadora . e sublime, e em Volta d'ella 
jestao os melhores pintores, cujos nomes Garrett 
conheceu, debuxando em suas telas aquellas for- 
mas seductoras da estatuária trabalhada pelo Crea- 
dor do mixto terrestre e celestial. As admiráveis 
formas d'aqueUa imagem profana, dominadora dos 
sentidos do homem, e com especialidade do ho- 

ALMEIDA GABRETT . § 



Ge 



mem material, taogem as finas palhetas dos pin- 
tores que a cercam, nos quaes o poeta mette 
só o amor carnal, empregnado de materialismo 
e depravação de castames, com seus affectos 
desmedidamente devassos. Façamos justiça ao 
poeta: se n'este livro existe uma parte que ultra- 
passa os limites da chamada decência, abrange 
por outra uma face moral, que nos faz esquecer 
o. turbilhão d'ideias que primeiro experimenta- 
mos, das mundanídades desordenadas, e instrue- 
nos sobre a existência de homens que ignoráva- 
mos pela maior parte, em que épocas floresce- 
ram, e qual a sua procedência. Este poema foi 
publicado entre os annos de 4 820 -Si pela anti- 
ga livraria Orcei de Coimbra, e foi recebido por 
conhecidos e amigos do poeta com muitos ap- 
plaqsos, e parecé-me que ainda mais pelos edito- 
res,, porque era procurado com s.umma. influen- 
cia. 

Vulgada desde logo por pertos e longes a exis- . 
tencia do poema phenomeno, começaram vários . 
invejosos a fazer uma guerra medonha a Garrett. 
Os padres foram segundo me consta; os seus 
maiores verdugos. Empunharam o azorrague da 
maledicência, e coma inveja a ferver no cérebro, 
pretenderam Jleval-o ao maior rastejamento. En- . 



67 



tre esses invejosos, que não sentfám forças para 
se igualarem ao âuctor do Retracto de Vénus, ex- 
tremava-se o vulto doesse padre talentuoso, e mor- 
daz — José Agostinho de Macedo, que com estas 
e outras rivalidades, perdeu a reputação que o seu 
profundo estudo lhe podia grangear. Garrett con- 
servou-se calado ante esses brados modulados 
pela inveja dos detractores, que o calumnia- 
vam. Deixou-os blasphemar, e guardou o silen- 
cio que se requer para homens como os que o 
dipprimjam, mostrando-lhes assim o pouco caso 
qqe fazia de taes invectivas. Vendo elles que nada 
podiam coosegiiir com suas accusações estúpi- 
das, deram-lbe íim, mas protestando começar de 
novo a empresa, e fazel-o descer da altura que ti- 
nha vingado com qs seus voos altaneiros. Re- 
gressando a Portugal o Cardeal Patriarcha D. Car- 
los da Cunha, que fora desterrado por se ter re- 
cusado a jurar, e dar azas á constituição de 
1820, e sendo-lhe apresentado o livro, para o 
examinar, juncto com vários jnízos críticos d'a- 
quelles qiie o haviam rebaixado, D. Carlos con- 
demnou o auctor, e prohibiu logo a venda 4o 
poema com pena d'excommunhão maior. Esta- 
condemnação foi um grito d'alarma para desper- 
tar aquelles que ainda não conheciam o livro de 



68 



Garrett, porque se esgotou desde logo a ediçSo 
apesar de se veader em segredo. Os últimos 
exemplares Tenderam-se por um preço excessi- 
vamente subido, e por fim haviam indivíduos, que 
offerèciam dois e Ires mil reis por elle, e mesi- 
mo assim não conseguiam obtel-o. Mas porque 
se exgotou tao repentinanaente essa (Ara que foi 
tão calumniada pelos Quixotes coimbrões e. Me- 
nippes provincianos? perguntará o leitor d'estâs 
memorias que me encarreguei de publicar? Sa^ 
bes porque leitor?! Porque era o fructo prohibi- 
do, e os anímaesinhos que inçam este amalgama 
de rivalidades, são todos desceíNentes d'aquella 
habitante do Paraizo companheira d'Adão, que cu- 
bicou os taes pomos do Éden, onde penetrara a ser- 
pente sua irmã e companheira, para tental-a a 
diliciar também o paladar de Adão. O fructo pro- 
hibido foi sempre cubicado» e será em todas 
as gerações que sobrevierem aos nossos dias. 
Esta condemnação que o Cardeal Patriarçha car- 
regou sobre Garrett, não o abalou nada, porque 
se riu quando soube tal novidade! Tractaram áe 
lavrar o processo, formado sobre a lei da li- 
berdade dimprensa, e pouco depois remetterain- 
n'o para Lisboa. Garrett, partiu logo para a ca- 
pital, sem o mínimo susto, resolvido adefifender- 



69 



se das gdrras da jastíça> e refutar as ai^uiçõeâ 
parvas e quasi iojuslas, que lhe haviam feito os 
seus inimigos e invejosos, sobre o assumpto do 
poema . e seu desenfreamento d'estyllo. Parece- 
nos que depois que se estabelleceu em Portugal, 
a liberdade dl mprensa, foi esta a primeira obra 
que soffreu prohíbição, e este caso, tornou-se Io* 
go tao notório em quasi todo o paiz, que chamou 
a Lisboa os homeus que avultavam mais na re- 
publica litteraria. Por esta época, já Garrett pos- 
suía a carta de bacharel da u niversidade, e pare- 
ce qoe este acto a que elle ia assistir, lhe era 
decretado pela Providencia, para alcançar uma 
nova coroa de louros, alem da de poeta, que to. 
dos lhe davam pelos seus bradas altivos, — a co- 
roa d'orador, porque se lhe proporcionava uma 
bella occasião para revellar aos portuguezes, es- 
se grande dote, punindo pelos seus próprios di- 
reitos. Chegando o dia do julgamento, apresen- 
tou-se João Baptista no tribunal competente pe- 
rante o conselho de jurados; e perguntaudo-lhe 
i hora extrema pelo seu advogado de deffeza, mu- 
do e jovial, respondeu — que o advogado melhor 
para o reu que não teme, era o mesmo reu. Es- 
ta resposta fbi recebida pelos circumstantes, co- 
mo a afSrmação de existir no reu uma força 



70 



maior. Preparado tudo^ e chegando o instante de 
começar o julgamento, ergueu-se o poeta, enca- 
rou firme, juizes e jurados, e começou a deffen- 
der-se com tão moderada prudência, e fogoso en- 
thusiasmo, que deixou extacticos e enternecidos 
os seus julgadores,ea sala expessa d'ouvintes,que ali 
affluiraparsí ver aquelle julgamento de novo género. 

Á vista de tão eloquente e desataviada oração 
foi logo o reu absolvido, e abraçado com dilirio 
pelos homens que gosavam então os mefliores pos- 
tos na litteratura, que tinham comparecido no tribu- 
nal, para deporem as suas plenas ideias a favor do 
poeta nascente. Entre esses padrinhos que foram 
assistir ao duello travado entre o joven Garrett 
e o conselho de jurados, acbava-se Pato Moniz, 
um dos mais aguerridos e conspícuos deffensores 
dos talentos que soffriam a pedrada traiçoeira 
dos desalmados e maldizentes. 

Todos os homens prudentes que escutaram 
o poeta, liie louvaram o procedimento, e dirigi- 
ram-lhe palavras tãò bondosas e sinceras, que lhe 
affiançavam mais tarde, um lugar distincto na 
tribuna portugueza. Por esta occasião, Outubro 
de t82!, (1) estabeleceu o poeta a sua residen- 

(1) Veja-se a nota no fim. 



71 



cia defioitíva em Lisboa, e começou logo a afun- 
dar-se nas fomentaçôes politicas» que tinham ra- 
mificações em todos os pontos do reino. N'esta 
época acclamava-se a liberdade por toda a parte, 
em baixas e altas vozes, e Garrett, sempre aman- 
te apaixonado d'essa mãe d'opprimidos, d'es§a 
rainha laureada do mundo, ergueu quanto podia 
a voz de filho leal, e os voos do pensamento pa- 
ra que ella florecesse sem ser tocada pelo sopro 
maligno do despotismo que pretendia calcai-a im- 
piamente, para não mais a ver erguida. 

Foi então que o poeta delineou com a sua pen- 
na explendida, o seu admirável Catão, e o con- 
cluiu em poucos dias a pedido d'alguns seus ami- 
gos e varias pessoas illustres, até desconhecidas, 
que souberam a grandiosa tragedia que promet- 
tiam as primeiras scenas, que o auctor recitara 
n'uma reunião familiar. Foi tal o enthusiasmo 
com que essas pessoas acolheram a ideia liberal 
de Garrett, que segundo eUò mesmo afSrma no 
prefacio,nem lhe deixaram tempo para o expur- 
gar dô rebentos pêccos e infezados, cujo nasci- 
mento nenhum escriptor evita por muito perfeito 
que seja, e lh'o foram arrancando d' entre mãos, 
á maneira que elle o escrevia. Emquanto elle es- 
boçava um acto ensaiava-se o precedente no meio 



72 



— ^^— «^^W'«<W»«i 



do vivo enthasiasmo dos assíste&tes qúe 6ram na- 
merosos. O mesmo succedeu ha alguns annos ao 
saudoso e grato discípulo do poeta, o sr. Gomes 
d' Amorim, com o chorado actor Epiphanio Anice- 
to Gonçalves quando escrevia a sua peça melo- 
dramática intitulada Fígados de Tigre que o illus- 
tre coripheu da scena portugueza easaiou pe- 
lo primeiro borrão que o poeta minhoto tinha 
feito, diz elle,quepor 6n»cadfeira,mas apesar dis- 
so o melodrama galhofeiro do protegido de Gar- 
rett, teve bastantes representações, e foi redon- 
damente applaudi^lo no theatro de D. Maria II, 
durante o carnaval de 1857. 

Mas voltemos ao Catão e a seu auctor. 

N'esta composição tão perfeita quão desejada, 
esmerop-se Garrett com tanto cuidado e paixão, 
nas ideias que desenvolve, puramente liberaes e 
um tanto amarradas aos acontecimentos que se 
davam n'esse tempo em Portugal, que depois de 
a ver representar pela sociedade de curiosos que 
se propoz a isso no antigo theatro do Bairro-alto, 
em Novembro de 1821, ainda lhe corrigiu, alguns- 
defeitos de pouca monta, que lhe encontrou e co- 
heceu que podia fazer melhores essas situações. 
E uma concepção maravilhosa, esta tragedia do 
amante de^ Annalial Como è tocante eeommove- 



73 



dora esta seena de Gatão feríodo-se mortalmente 
em Utica, quando sente as passadas do depravado 
Decio, sabdlto de Júlio César, e proferindo estas 
pala\Tas, ao baquear em terra com o golpe fatal ! 



tOh I Roma, oh I Roma! oh! minha pátria ! 
< Já n£o ha mais que a vida, — eii-a, recebe-a: 
«Vamos ao menos jonctosao sepulcro f...» 



• Quem seria capaz de a crear mais bella e apai- 
xonada do que o coração nobre e liberal do grande 
Gacreit ? Que paixão tao vehemente alimentava el- 
le pela liberdade, quando mandou proferir estas 
palavras por Marco-Bruto, na scena primeira do 
primeiro acto: ' 



«Sei indo: — e tudo n'alma tenho impreáso 
«Em fogo, — que incessante m'a devora, 
«Mas ao peso da sorte inda não curvo: 
«Tenho no peito coração romano ; 
«E emquanto a espada do tyranno César 
«M'o não souber varar, não cedo a César. 



74 



E a falia de Maniio na segunda scena do segun- 
do acto I Que jacto tao admirável de inspiração, 
verteu ali o inspirado poeta! 



«A minha vóz Catão, tu bem o sabes ; 
«A minha vóz o meu sincero empenho, 
«Todo o meu coração é pela pátria 
«É pela liberdade. Ah I este braço 
«Que ora treme de velho, já foi rijo 
«E pelejou por ella. — ^Mario Sylla, 
«Catilina me viram sempre á frente 
«De seus mais Fesolutos inimigos. 
«Esta lingua que mal hoje articula 
«Ineloquentes sons, já deu mais forte 
«Brado na cúria; nem se ouviu meu brado 
«N^outra causa senão da liberdade. 
«É tremula hoje a voz, tremulo o braço 
«Mas em Pharsalia não tremiam... Padres 
«Desculpae, perdoae, — um derradeiro 
«Lampejar de decrépita vaidade... 
Que fiz eu? o que todos vós fizestes. 
«• , 

«Poucos dias de vida enferma inútil, 
«Que me sobram na terra, é sacrifício ' 
«De preço vil e abjecto. Orphão de prole 



75 



Só; deixado n'um ermo ao pé da campa 
Que hóstia sou eu para o altar da pátria? 
Serve assim mesmo o sacrifício? Prompto 
Aqui está todo o ^sangue: pouco, frio, 
Sem vida é já, mas de vontade; e fácil 
Hade deixar as congelladas veias. 



Náo pereçaes em sacrifício inútil 

Vossos dias, — e os teus, gloria de Roma 

Explendor derradeiro de seu nome, 

Catão, esses' teus dias preciosos 

Oh! nâo osharateieis táo sem fructoí 

César teme, respeita essas virtudes 

Que adornam o mais digno dos romanos. 

Tu podes ainda ser o amparo, o abrigo 

Da abandonada pátria. A liberdade 

Acabou ; mas seus filhos desherjados 

Foragidos, caçados como feras 

Do monte a casa, e do povoado ao mont e, 

Has de desamparal-os, quando podes 

AUiviar-lho as penas, protegel-os 

Ser-lhe pae? Oh! nâo posso mais... succurobe. 

O coração tâo velho, á magoa, ao...» 



E.aqui MaDlio, sem forças para continuar, e 
concluir, senta-se, e dá logar ao nobre Catão que 



76 . 

* I í *ll "" ■■■■ ■■■ ' ■l.i í II ■ I ■ I ■ 'I I I < ■! ■! I >■■■■■ ■!■ I I — 1 ^ 

■ _ I L I _ L I I - - -■ - ■ - , , - , ■ ■ ■ ■ 

I 

õ escuta, e gae atando o fio d'esta falia ao Qo da 
sua, proseguét 



«Nobre 

«Coração é o teu — e generoso, 
«Qae as nobres qualidades d^éireeiApirestas 
«A qnem não sabe, nunca soube a teinpera 
«De que taes corações são fabricados. 
«César não tem mais sentimentos n^alma 
«Que um só — desejo de poder. D*aiffectos, 
«De paixões de homem, uma só lhe absorve 
«As outras todas — ambição 



São' bellas sublimes e grandiosas, todas as 
scenas d'este rico thesouro dramatico-poetico, 
que abrange certamente um dos melhores episó- 
dios da historia de Roma antiga. Respira^-se sem- 
pre n'esta composição de grande valor, o amor 
puro, inalterável, e immaculado pela liberdade. 
Que situações! Que pureza de lingoagem, e que 
estyllo tão primoroso, e immutavelf Shakspeare, 
Maffei, Alfieri, e Voltaire' não as creariam melho- 
res apesar de serem apregoados, como os melhó- 



77 



res trágicos modernos. Este drama, depois de 
namerosas representações seguidas» foi impresso 
em Lisboa em 1822, acompanhado da pequena 
farça do auctor^ intitulada : Corcunda por Amor 
quô mais tatnie foi deitada fora da colecção das 
obras complectas, não sei porque motivo ; talvez 
fosse para metter em seu lugar as muitas pagi- 
nas de introducções e notas, que o poeta reu-' 
Día ás edições que se seguiram. N'este tempo 
era Garrett oiiiciãl da secretaria d'estado dos ne- 
gócios do reino, em companhia dos seus particu- 
lares amigos Paulo Midosi, Rodrigo da Fonseca 
Magalhães, e Ândre Joaquim Ramalho, lugares 
que alcançaram em consequência de se terem en- 
volvido nos principies politicos do aqno de 1 820. 
Nã mesma occasião que entrou no prelo a pri- 
meira edição do Catão^ mandou o poeta imprimir 
também a Oração fúnebre de Manuel Fernandes 
TbomaZi juncta com uma miscelânea de poesias 
e discursos fúnebres recitados na sociedade Lit- 
teraria e Patriótica, para mostrar o grande sen- 
timento dos portuguezes, pela morte d^ess^e gigan- 
te orador que Portugal perdera havia pouco teni- 
po. Na mesma época, também se publicava em 
Lisboa um jornal intitulado o Toucador y sob a 
direcção, fde Garrett, e d'outro§ Utteratos distin- 



78 



ctos d'essô tempo. Consta que saíram poucos 
números d'essa publicaOão, e que são hoje muito 
raras as colecções. 

As&im ia vivendo o poelâ do Catão e do Retra-^ 
to entregue ás suas queridas producções, rodea- 
do dos seus melhores amigos, no goso d'uma 
quasi perfçita tranquilidade d'espirito, — porque 
' serenidade perfeita e felicidade perpetua é muito 
raro encontrar-se — mas essa mesma porção de 
ventura -perdeu-a por um acontecimento bem co- 
nhecido. Vindo alojar-se em Portugal, pela malfa- 
dada reacção de 1823, o avaro, estúpido, detestá- 
vel e abjecto poder do absolutismo, e fazendo 
Garrett todas as diligencias possíveis, e ás vezes 
quasi impossíveis para que todos os bons portu- 
guezes reagissem, e combatessem a par de si 
contra o poder immenso d'esse depravado gover- 
no, foi mal succedído nos seus intentos ainda que 
dominados pelo coração, e sustentados algum tem- 
po com dolorosas fadigas. 

Baqueando a constituição com o peso bruto e 
desmedido d'aquelle vasto pinhal de tyrannos, 
foi Garrett exonerado do emprego que gosava 
desde 12 d'Agòsto de 1822, e soffreu junctamen- 
te uma perseguição carniceira, e ordem de se au- 
sentar de Portugal, sob pena de pagar por alto 



79 



preço a ousadia de arremetter com um partido, 
que regado pelos detestáveis Caligulas modernos, 
(1) se enraizara profundamente n'esta nossa aben- 
çoada terra, digna de melhor sorte. O poeta guar- 
dou silencio poi; alguiQ tempo, sem fazer maior 
caso dos rugidos que revoavam por toda a par- 
te, e acolheu-se a lugar seguro, esperando que 
serenassem os ânimos d'essa cohorte vil que o 
perseguia, e a tantos que partilhavam as mesmas 
ideias. 

Muitos d'estes últimos já erravam em Inglater- 
ra por esse tempo, abrigados com dóceis de ne- 
voeiro, e com poucos meios de subsistência : al- 
guns viviam debaixo da protecção dos nobres 
portuguezes felizes, que ali viviam para não ve- 
rem a miséria que ia na pátria, nem ouvirem os 
gemidos de seus irmãos. Outros agachavàm-se 
na€ cidades principaes da França, para conserva- 
rem ao onenos as vidas, já que haviam perdido as 
esperanças de salvar a pátria. 



(1) Veja-se a nota no fim/ 



D'ÍDdigDaáo 

Crgui « yoz, ckimei coitra a Tergonha 
Que o nome portaguez assim manchayal 
£m Tão clamei, minlias verdades duras 
Holle oiiTido -os tyraxuros offenderam. 
Punia desterro injusto a minha audácia. 



(GaxreiX.'^ Camões) 



IV 



Chegando o mez de Junho de 1823, e não ces- 
sando as cruas perseguições aos apóstolos da li- 
berdade, o poeta resignou-se a soflfrer os espi- 
nhos do desterro, e com os olhos ensopados em 
lagrimas não sei se de raiva, se de paixão por 
lhe roubarem tão indignamente o seu ninho pá- 
trio resolveu-se a emigrar. Aconselhajido-o os seus ^ 
amigos' a que -não deixasse a pátria, respondeu 
que preferia acceitar o nome de mendigo nas es- 
tradas do exilo, implorando o sustento escasso, 

ALMEIDA 6ABRETT 6 



82 



ou morrer á mingua n'essas plagas remotas, do 
que recostar-se em alcaçares reaes, curvado a 
um governo que abertamente detestava* Que, ou 
havia de viver livre em sua pátria, ou jamais im- 
primiria n'ella, a mais leve pegada. Aquelles que 
o amavam, e não sentiam animo para o ver sair 
as agoas do Tejo, jQsi^tjram ainda com elle, para 
que se conservasse no paiz porque possuia um 
braço inerglco, e uma voz eloquente, que podiam 
contribuir para o arrancar das garras despóticas; 
mas o joven tribuno, era tao constante em suas 
ideias e resoluções, que não obedeceu a nenhum 
avesses pedidos, e emprehendeu a sua viagem a 
Inglaterra. Pouco depois chegou a Londres cheio 
de resignação ante os agros vais-vens, da sorte, 
e foi visitar alguns seus irmãos do infortúnio que 
se agachavam nas noiargena do largo Tamiza. Vi- 
sitando em seguida varía$ ilhas brittanpicas e al- 
guns povoados mais dignos d'adaúração, voUou á 
capital dos inglezes^ e ahi residiu juncto dos seus 
patrícios até Fevereiro de 1824^ 

Publicava-se então ali um jornal portuguez, de- 
baixo da direcção dos emigrados, intitulado o Po^ 
pular ^ e Garrett em quanto 1^ esteve escreveu al- 
guns artigos que saíram à luz n'e$se orgaift por* 
tuguez. 



83 



Em Março resQ^veurse a áehav o Tamiza, e 
^ubatituilro pelo Seaa» e logo embarcou só, sem 
4ieohum anú^ pou companbeúro de viagem, para 
Fnini^ oode chegou em: Abril» e ioi fixar a sua 
jresidemía m Havre de Graça joncto com vários 
portugueses qoQ ali se tinham refogiado. N'esta 
Ai^xai cidade, aos sosks doa marulhos do fill>o de 
SàQ Seine, e refre^eacte pela viração d^ Sena m- 
fmQTy: foi que d^a começou a escrever o seu Ca.- 
moes no dia 13 áe Maio. Durante a sua curta es- 
tabilidade n'a^aã:a paragem, até Agosto do mes- 
mo âiHio, foi muitas vezes visitar o cabo de Nor- 
flianâia e Ruão, capital â'aquelle departamento, 
úodiet m lado d'outr<tô portuguezes seus amigos, 
taxEbem infelizes e proscriptos como elle, passou 
âigomas Imras felizes recitanda contenta os seus 
qaeriâos versos, com que sei esqtieda das suas 
4i3Sgraças e. de seus eonterraneos, e das calamida^ 
des. que assolavam a pátria, (pe o faziam andar 
errante,. por climas longínquos, e a tantos seus com- 
panheiros, que liaviam enrouquecido também co- 
ma elte gritando em prol do governo liberal, que 
esbarrara no charco infesto que fabricara o fallaz 
despotismo. Ali e no Havre, foi que elle deu os 
melhores traços tfaquelle poema precioso e qua- 
si incomparável; naquella metropoU de tudo- que 



84 



existe grande, sao, sublime, e portuguez de lei; 
n'aquella elegia immensuravel inçada de rique- 
zas, que é capaz de fazer poeta o ente mais enfe- 
zado e prosaico que Deus tirou da argilla, — a que 
sellou no rosto o nome egrégio de Camões l Ga- 
mões it o talento monstruoso que encheu de es- 
panto e admiração os maiores gigantes do uni- 
verso, e fez tremer os palmares d' aquém e alem 
Ganges com o^ reflexos fíilminantes do astro que 
lhe ardia nos seios, e que depois se apagou len- 
tamente» assombrado pela indifferença de seus 
irmãos do berçol Camõesll — que admirável epopêa 
existe sob este nome tão digno de respeito! Se 
o sr. Alexandre Herculano recebeu, e gosa ainda 
a gloria d'inimitavel, creando Eurico, esse roman- 
ce-poema ou poema-romance, rival das melhores 
epopêas do inspirado escossez Walter Scott, Al- 
meida Garrett, se acaso não lhe passou os limi- 
tes nem trabalhou com mais constância, foi de 
certo mais proveitoso, (1) ao paiz e á sua litte- 
r atura, cantando o gigante a quem hoje Portugal 
se ufana de ter sido berço, assim como na inno- 
vaçâo e aperfeiçoamento da poesia moderna, ex- 



(1) Veja-se a nota no fim. 



85 



pungindo-lhe a eiva mylhologica, de que os anti- 
gos gregos e latinos ^ tinham empregnado, mis- 
turando o profano com o divino, e pondo os deu- 
ses do paganismo a fazer holocaustos ao Deu 5 
verdadeiro. 

O* próprio Camões usou d^essas imagens dos 
atheniensesque Garrett degredou pela maior parte; 
mas este apesar de prestar tão valioso serviço ás let- 
tras, mostrou n'este ponto nSo seguir á risca as dou- 
trinas que o mestre lhe deixara n'aquelle livro su- 
blime dos Lusíadas. Comludo depois do condes- 
cendente amigo de Jau, nenhum poeta nos apre- 
sentou um poema com tantas sublimidades como 
encerra o seu Camões l Quem depois d'esse gran- 
de poeta que elle canta no seu livro, ferira tão 
destramente os bordões d'uma lyra portugueza ? 
Quem se atreverá a disputar a Garrett, a coroa de 
myrlho que lhe orna a fronte respeitável, ou ne- 
gar-lhe o lugar de primeiro poeta peninsular da 
escola moderna ? Quem ousará conceber o pensa- 
mento de se medir com tão agigantado collosso? 
Eu estou convencido que ninguém entrara em tal 
commettimento, porque passaria pela vergonha de 
o contemplar do baixo rastejamento, como o cão 
que sentado á porta do casal, arremelle com a 
rainha da vastidão estelliferaj aos primeiros vis- 



80 



mMaimÊ^mÊ^ft^» m !■ 



lumbres da noite^ e a)nhecendo-^se vencido, vae 
descançar na palheiro, protestando não entrar 
mais na louca empreza de ladrar á lua. 

Um esGriptor de mérito, disse que Garrett era. 
uma litteralura inteira, e outro ainda deu mais 
alguns passos a fevor do grande génio, porque 
asseverou que era uma nacionalidade qúe resusci- 
tava; e o infeliz Lopes de Mendonça era n'este 
poncto uma das melhores auctoridades, e quanto 
ao meu humilde entendimento, o folhetinista mais 
elegante e consciencioso que floresceu no tempo 
do creador de Frei Sueiro. (1) 

Eu, sem ambicionar a coroa de escriptor, ou 
d'outra qualquer coisa, digo sem o mais ténue 
disfarce, que tudo quanto ha de bom e inimi- 
tável na litteratura que nasceu depois da innova- 
cão que fez João Baptista foi revellado por elle 
no Camões, e por Herculano era Eurico e Monge 
de Cister, São os meus livros queridos I . Os san- 
ctuarios consoladores, onde me vou desfazer dos 
agros aborrecimentos da vida ; são a ambrósia, o 
balsamo,o nectai' que me sana os golpes do coração. 

Aquellas duas imagens d'Herculano, Eurico e 



(1) Veja-se nota no fim. 



87 



Hemengarda, sao bellas como poucas tem feito 
ranger os prelos* mas as do Camões de Garrett, 
essas só a um cefebro como o d'elle foi dada 
animal-as com taiitã felicidade. Que inergia de 
pulso I Que elegância, é quô vasta selva de pen- 
samentos! 

Com que vigor elle descanta aquella saudade 
no desterro, e com que puro sentimento a envia 
á pátria, sobre as ondas revoltas 

«Do oceano indomado por tyrannos» 

Com que profunda dôr d'almá, e conâ que di- 
vinas palavras, elle abre o delicioso poema : 

«Saudade! — gosto amargo de infelizes 
«Dilicioso pungir d*acerbo e^inho 
itQue me estás repassando o intimo peito 
«Com dor que os seios d'alma dilacera, 
«Mas dor que tem prazeres — saudadel 
«Mysteriosonumen que aviventas 
«Corações que estalaram e gottejam, 
«Não já sangue da vida, mas delgado 
«Soro d*estanques lagrimas. Saudade I 
«Mavioso nome que tão meigo soas 



88 



<^^os lusitanos lábios — nSio sabido 
«Das orgulhosas boccas dos Sycambros, 
«D'essas alheias terras, — oh saudade! 
«Magico numen que transportas a alma 
«Do amigo ausente ao solitário amigo, 
«Do vago amante á amada inconsolável 
«E até ao triste ao inf^iz proscripto, 
« — Dos entes o misérrimo na terra — 
«Ao regaço da pátria em sonhos levas, 
«Sonhos que sâo mais doces do que amarga 
» Cruel é o despertar... Celeste numtn 
«Se ja teus dons cantei e os teus rigores 
«Em sentidas endeixas, se piedoso 
«cEm teus aUares húmidos de pranto 
y «Depuz o coração que inda arquejava 

«Quando o arranquei do peito mal-soífrido 
«A fóz do Tejo — Ao Tejo, oh deusa, ao Tejo 
«Me leva o pensamento que esvoaça 
«Timido e accobardado entre os olmedos 
«Que as pobres aguas d'este Sena regam 
«D^outr^bra ovante Sena. Vem no carro 
«Que pardas rolas gemedoras tiram 
«A alma buscar-me que por ti suspira» 

Que mais poderá dizer do pátrio niDbQ> o man- 
cebo que se acha na ílor da idade> a braços com 






83 



a proscripção, e sente estalar com saudade uma 
a uma, as abras mais intimas e preciosas do co- 
ração? Que bocca poderá dizer tão meigas e en- 
teniecedoras palavras? 

Petrarcha, o poeta coroado no Capitólio, modu- 
laria melhores versos á sua encantadora Laura? 
Ovidio deploraria as desgraças do seu desterro com 
mais sentimentalismo ? Não sei porque não os co- 
nheço, mas é natural que não ferisse mais do ' 
que Garrett, o coração dos amantes da poesia. 
Como é grande e arrebatado o pensamento do 
poeta n'esta saudade I E com qu e vasta erudi- 
ção elle explica a força do sentimento que ôr- 
cerra a maviosa palavra saudade, e a auctorisa ri- 
val de todas quantas abrange a lingua do cantor 
d'Ignez, do poeta das Saudades^ e do sapientis- 
simo padre António Vieira 1 1 

«A palavra saudade — diz elle nas ricas notas do 
seu poema, — é por ventura o mais doce expres- 
sivo e delicado termo da nossa língua. A ideia, 
o sentimento por ella representado, certo que em 
todos os paizes o sentem, mas que haja vocábulo 
especial para o designar, não sei d' outra lingua- 
gem, senão da portugueza. 

A isto allude o poeta, ii'este. verso em que lhe 
chama ignorado — o termo — 



90 



'Das orgulhosas boccas dos Sycambrofi> 



«O que particularmente se deve entender dos 
francezes, — continua elle, — tâo presumidos áe sua 
língua tão apoucada» 

Á vista d'este luminoso relâmpago d'intelligea- 
cia do grande poeta, estou quasi resolvido a di- 
zer que elle podia transcrever estes dois versos 
do velho Camões, no alto do primeiro c?mto do 
seu íivro, feita a devida vénia ao cantor do ca- 
bo Tormentório, que ha de ser o rei da poesia 
portugueza emquauto existirem os Ltisiadas e a 
estatua do Loreto que representa a sua figura 
em quanto vivo: 



«Cesse tudo que a musa antiga canta 
«Que outro vaior mais alto se alevantai 



Na verdade, não se erguia um valor mais ai- 
to, a pulsar as cordas d'uma lyra Lusitana^ mas 
è certo que se alevantava um pincel» que se tí&o 



91 



attiiigía as formas ô eôreis com que ò robusto 
cantor do ínclito Gama pintara os costumes úoi 
incolaâ remotos e os feitos dos antigos Lusos» 
dava um colorido honroso nas pegadas do poeta, 
livrando-âs assim, de serem apagadas pelos pés 
dos séculos, e mostrava ao mundo um seguidor, 
— em parte — acérrimo e consciencioso das leis 
e doutrinas que o grande épico derramara sobre 
os seus hymnos sonorosos! 

Como é pungente e sublime a dor que o rala 
ao conlar-nos em tão elegante metro as vicissitu- 
des do seu saudoso e querido mestre, do seu Luiz 
de Camões ! I Em que phrase tão pulchra e estyllo 
tão alto, elle descreve os transes doloridos do 
auctor dos Lusíadas f I Como delinea com vivas 
cores o quadro das varias phases .com que a so- 
ciedade se rebuça, para occultar as mudanças re^ 
peotinas dos gestos, e o turbilhão de paixões desen-^ 
conlradas que dardejam quasi sempre nos rostos 
das suas divinas imagens ! Como é tocante e sym^ 
pathico, aquelle segundo canto, em que o poeta 
guerreiro, buscando repouso ao corpo fatigado, 
nas cellas . do convento do velho missionário, de- 
para com a ^ua amada, a sua querida Natércia 
no esquife luctuoso, rodeada de padres, e amor-^ 
talhada já, para descer breve á tenebrosa estancia 



n 



do repouso do òoi*po ressequido pela saudade, 
porque a alma,... a alma^ essa... voara já á ecter- 
nidade sobre as azas da virtude, e ladeada de 
nuvens d'incenso da Providencia divina I Como el- 
le acaba a scena lúgubre do passamento da infe- 
liz amante de Camões! 



. .' «Em tanto 

«Deu a volta fatal e derradeira 
«A chave do ataúde ; cae a lagem 
«Sobre a bocca do tumulo. A existência 
<Se esvaeceu... começa a eternidade.» 



E as sublimes palavras com que Garrett manda 
contar a Camões a historia da perda d'aquella scen- 
telha que jazia apagada em sua fronte, ao lado â'a- 
qneiroutra viva e penetrante que o guiava ainda 
nos caminhos da vida tormentosa e aborrecida: 



«Era a minha primeira lição d'armas, 
cFoi a primeira vez qne o mauro alphange 
«Por d'entre os olhos me pruzou ço'a morte. 
«Junto a meu pae,— á frente o viram sempre. 



93 



«Sobre o imígo baixel a paiino cheio 
cGaia a nau do seu cominando... (Ucn 
«Silvo de pelouro soou.— Mirado a elle 
«Certeiro mouro tinha:— estendo o escudo... 
«Movimento feliz f saivei-lhe ávida. 
«A baila resvalou, e já sem força 
«Leve aqui me feriu na sestra face 
<E fria aos pés me cae) 

— «Leve ferida 
«Que um dos olhos! 

«Oh t dois nos ha dado 
•Liberal natureza — Que vale isso ! 
«Salvei meu pae.» — 



Esta é quanto a mim uma das melhores sce- 
nas do poema —guardando o verdadeiro respei- 
to a lodo o canto V e X, que são saflQcientes pa- 
ra immortalisar um homem. 

Aquella imagem . puramente histórica do bon- 
doso fidalgo D. Aleixo, quem a animaria melhor 
do que a penna de Garrett? E como é original a 
de D. Sel)astião, esse mancebo inexperto que foi 
levar o corpo ás agras solidões africanas, arras- 
tando apoz si, a gloria da nação a quem se cur- 



94 

vou o muedo mteka, xenájo passar seus filhos 
pelajterra baptísandú bamispbario$ desconhecidos, 
dando leis ainda nos mais affastados climas do 
globo, e navegando sobre o lombo enrolado d'es- 
ses vastos mares,, com a bandeira das Quinas 
fluctuando ao som dos ventos, rugidores, que açou- 
tavam essas inderruíN^ieia pjiramides, erguidas pe- 
lo ouro da dissoluta Gleopalra,: em memoria dos 
seus actos ignominiosos que sibilaram pelo uni- 
verso, como ventos maldictos que amputam na 
passagem destruidora» tudo que se não curva ao 
seu poderio como o abetada vai^ea desabrigada. 
Que palavras tão cheias de. subUmidade elle de- 
põe nos lábios do seu grande heroe, para elle pro- 
ferir ante o monarcha que lhe promette um pre- 
mio honroso em paga dos seus serviços d'espa- 
da e penna, e com que, elegância de phrase co- 
meça e acaba este dialoga travado entre o vate e 
o rei nos paços de Cintra, juncto dos cortesãos, 
quando D, Aleixo lhe apresentou o guerreiro di- 
zendo: 

«Eil-o senhor, o nobre pretendente 
' «Que desejaes ouvir 

— tSim quero ouvil-o ^ 
«Quero e desejo; nSo ignoro o preço 



95 



«Das kias tettras; neii» â'um nro engenho 
«A estima desyalio: em prol da ps^tria 
«Uns obramos cV)a espada; cumpre aouh^os 
4Go'a penna honraUa. 

*»-«Se honra a minha penna 
«Real senhor, a mipha amada pátria, 
«Dil-o-hão sabedores e feltrados. 
«Para servil-a espada e braço lenho 
«Que por si faliaríío.» ♦ 

— «Digna resposta 
«D' um poftuguez. Honrado sois amigo 
tPor tal voa tenho e quero; e abonos vejo 
<Em vosso rosto, que voltar nSo ousa 
<íDa face do inimigo. — É este. — (Disse 
«paliando aos cortesãos] de quantos d' Africa 
«Aqui vêem, o primeiro que nãlo falia 
«Cm suas cicatrizes: 

— «Bastas eram senhor. 
«As de Pacheco e... (Morreu áfome ia elle a diz^J 

— «£u nâo ignoro 
«Asperamente 6 rei o interrompia, 
«Os feitos de Pacheco.» 

Olhos pasmados 
^Os cortezâos cravaram, no soldado 
«Que tiSo crua yerdside se afoitava 
«A proferir ali^-^algum jÀ.cuida 



96 



<Que d'escuro castello a torre o aguarda, 

<0u que ao menos... Compondo um tanto o rosto 

«Tomou el-rei : 

— «Iremos para ouvir-vos 
«Da penha verde á íresquidSo sentamos. 
«Calmoso vae o tempo; e a demais, prazem 
«Dobrado entre a verdura, os dons das musas.» 



E O nosso Garrett lá conduz o alquebrado Ca- 
mões apôs D. Sebastião e a corte, aos sombrosos 
arvoredos da Penha, onde vae contar ao som dos 
brandos favorneos, o assumpto da grande epo- 
pea que prende n'essa occasi5o as attenções aos 
lettrados e homens doutos da nação, os serviços 
de subido valor de seus personagens, e os cos- 
tumes dos selvagens ignorados até então na Eu- 
ropa. 

Ali dá conta Camões, da dictosa condição dos 
filhos do indostão que fugiam espavoridos, vendo 
a gente do Gama crusando as mattas virgens e 
attacando feras, a dictosa gente que povoa as lon- 
gínquas plagas da Ásia e Occeania, e de to- 
dos os espaços do polo riental ; tudo ' que viu 
e ouviu n'esses vastos hemispherios . que elle e 



»7 



seas animosos coaq[)anheiros demandaram [sem 
ramo certo 



iPor entre os furacões d'atra procellai 



No fim levanta o rei a audiência, todo cheio 
de entbosiasmo, e quando Camões acaba, o espi- 
rituoso Garrett mette aquasi estas palavras de 
suprema vaidade na bocca do rei : 



lUm dia offuflcarei toda «ssa gloria 
lE a mais altas canç<Jes darei assumpto 



e quando Gamões se despede, manda Garrett ao 
mancebo real, que lhe diga : 



— «Voltae a ver-nie, 
E vos farei mercê, como é devido. 

E Camões lá desce a serra de Cintra á Lorà 
em que também, descia o sói, a cujo calor reii- 

ALMEIDA GABRETT ' 1 

/ 



98 






tara o livro que escpesera vkijandO' sohre agpa$ 
nunca sulcadas até-li. Que scenas Ganrett apre*. 
senta n'estas interessantes situações i E como s3o 
bellos os comentários que se seguem a eilas ! Que 
feliz concepção a dó poema Camões l 

Quem fora mais dextro do que João Baptista 
d'Almeida Garreit, para desempenhar tão árdua 
commissão? Eu pobre auctor d'estas memorias, 
sem pretensões a poeta nem tão pouco a metri- 
ficador de prosa rasteira, já exclamei n'um mo- 
mento d'aborrecimento, espraiando a vista sobre 
aquelle empório de sublimidades: 



Quem ferira bordões t5o consonantes 
Gomo o herdeiro do cantor do Gama? 
O divino Garrett, o deus da lyra, 
O sublime cantor de Dona Branca? 

O nome de Garrett já nSo morre ; 
Porém, se um dia por desgraça nossa 
Deixar de nomear-se tal gigante ; 
Deixará de fulgir no firmamento 
O luseiro vivaz que alaga a terra, 
Quando a lua repousa no seu leito 
Ladeada de fachos rutilantes ! 



99 



Se assiiâ acontecer mesquinhos Insos..^ 
Ghorae entSo na escuridSo profunda, 
As cinzas do cantor que agora canto, 
Porque nSo vereis mais o rei dos astros. 

Lembro-me que escrevi isto na capa do poema 
Camões, e ainda não me desdigo: porque a me- 
moria de Garrett não será escurecida, sem que 
tenham baixado á penumbra do esquecimento os 
nomes d'Homero, Horácio, Ariosto e Dante, e 
apoz elles, Demostbenes, Lycurgo, e Eschines. 

Os louros verdejantes que Garrett ceifou no 
campo das lettras, em todos os géneros, não 
murcham, florescenj, vivem, e dão fructo para 
alimentar as legiões da posteridade! 



« Gemi n'aDgtistia, 

«Penei ao desamparo, em soledade; 
«Vagad sosinho á mingua e sem conforto. 
« - 

«Todo sofDri no alento diurna esperança.» 
(Gabbbtt.— Cam(^0«) 



Do Havre passou o poeta a Paríz entre os an- 
Dos de 1824-25, já com os sete cantos comple- 
ctos do poema D. Branca, (l)eo Camões muito 
adiantado, mas não complecto ainda, porque as 
saudades do lar paterno, atropellavam-lhe hor- 
rivelmente a ideia, e nSo o deixavam concluil-o. 

As correspondências pouco animadoras que re- 
cebia da pátria, que lhe diziam o que ia n'ella 
por esse tempo, os sons confusos que se escuta- 

(1) Veja-se a nota no fim. 



102 



vam nas margens do' Sena acerca da crítica situa- 
ção da Europa, e principalmente d'Hespanha» on- 
de os batalhões liberaes esmoreciam e esperavam 
a cada passo, tremendo com susto, o annuncio 
fatal da guerra prestes a atear-se, assoprada pela 
reacção absolutista, que n'essa época desgraçada 
pretendia carniceira, assolar a mais fértil e pode- 
rosa parte dá Europa, faziam-lhe estalar a penna 
sobre o papel, "& sálpicavam-tf o de tinta, como di- 
zendo-lhe a sorte que esperava seus irmãos, — 
serem também borrifados com o próprio sangue 
creadò com o sol da passada liberdade. Esta no- 
va e bem triste decepção, obrigou-o a pôr de par- 
te os grandes apontamentos que tinha juncto para 
a historia do grande Génio Lusitano, e começou 
a traçar a D. Branca, por ser, diz elle, trabalho 
de menos responsabilidade do quô o primeiro. 
Em Paris foi residir para uma pobre agoa-furtada 
da rua de Coq-St,-Honorô em Novembro de 1824, 
na companhia do honrado patriota José Victoríno 
Barreto Feio, seu irmão em crenças e opinioes^, 
6 nos haveres escassos que lhes tinha legado a 
desgraçada queda da constituição. 

«E quasi que tenho hoje saudades, — diz o 
poeta poucos annos depois doesse desterrq, — 
tal nos tem andado a sorte t^-*^ das engdUtadas 



103 



^ ^i^ii « » j 



noites de Janeiro e Fevereiro que passávamos 
n'uma agaa-fqrtada, com os pés cosidos no fogo, 
eu e o meu amigo vellx); eile trabalhando no sen 
SaUustio, e eu {lidando no meu Camões, ambos 
proscriptosi ambos pobres, mas resignados ao 
presente, sem remorsos no passado, e com espe- 
raooâs largas no fucturo. — Graças a Deus, 
de mim sei, e d'eUe creio que estamos na mes- 
ma quanto ao passado e presente, mas o futu- 
ro!...» 

Concluindo o livro immortal de Camões, dedi- 
cou-o ao seu muito particular amigo António 
Joaquim Freire Marreco, (1) e para nâo compro- 
metter a posição e dignidade do iliustre portu- 
guez, seliou no rosto do Iííto, apenas a inicial 
— H. — Ajudado por esse amigo dedicado e sin- 
cerOj pode dal-o á luz da publicidade em Paris^ 
cuja composição se conduiu a li de Fevereiro 
do mesmo anno de 1825. Correndo logo por 
ukSos deportuguezese estrangeiros, recebeu o au- 
ctor a par d'um espantoso acolhimento, e pro- 
tecÇaO) algumas criticas de cores sortidas, mas 
na maior parte injustas, Cabricadas pelos seus 
abominadores. Esta obra prima, conta boje seis 

(1) Y€ja«senotanoSm.. . 



Jtí* 



edições, a fora as que se tem publicado no Bra- 
zil. 

N'este período d'odios e intrigas detestáveis, 
entrelaçavam-se graves e clandestinas negociações 
relativas a Portugal, entre Lisboa e Vienna à'Ausr 
tria onde se achava D. Miguel, e Londres que es- 
tava cheia de emigrados portuguezes, hictando 
pela maior parte com a escassez de recursos, on- 
de a dextra beneãca da duqueza de «Palmei- 
la, occultando-se da sinistra, lhes muniíicava os 
valiosos soccorros que podia dispensar. Foi aqoel- 
la illustre e virtuosa senhora, a única mãe que 
protegeu a tantos desgraçados que repintavam as 
terras d'Albion. Depois da publicação doeste livro, 
que apesar dos seus numerosos emuladores, foi re- 
cebido com e.ntl)usiasmo pelos amantes das boas 
lettras, e amigos do auctor, mandou imprimir a 
D. Branca, e resolveu por-lhe no frontispício as 
duas iniciaes, anagrammaticas — F. E. — que usa- 
ra FiUntho Elysio — Francisco Manuel do Nasci- 
mento — e com a designação d'obra posthuma ; 
o que fez acreditar a muitos e asseverar a outros, 
que a obra era filha de Filintho, porque este 
poeta morrera em Pariz em 1819, onde estava 
exulado. Ora o sr. José da Silva Mendes Leal, fat- 
iando de Garrett no seu Elogio Histórico recita 



10» 



do na sessão publica da Academia Beal das 
Sciencias de Lisboa em 19 de Novembro de 1866 ^ 
diz que c emigrando Garrett tractara em França 
com o padre Francisco Manuel, mais conhecido 
pelo nome de Filiniho Elysio. » N3o posso saber 
agora de quem é o erro, se do illustre. auctor do 
dogio, se dos aactores das biographías do tra* 
ductor do Oberon, que dizem ter morrido este 
portoguez em 1819, como deixo dicto acima. 

A D. Branca acabou-se de imprimir em 1826 
e conta boje quatro edições. Apesar de ser filha 
da mesma penna que traçou o Camões, parece- 
me que não incendiou a cubica dos habitantes das 
terras de Santa Cruz, (1) que não cançam de fa- 
zer edições das melhores obras dos nossos es- 
criptores. 

Consta que Garrett em quanto companheiro de 
casa de José Victorino, era empregado n'uma 
casa de commercio parisiense^ (2) e ás noites^ 
quando se recolhia á miserável habitação de prós- 
cripto, escutava com ávida curiosidade a beUa 



(1) V6ja*se a nota no fioL 

(2) Idem. 



106 

tradu<^o da Eneida ^rgitiana» que o seu velho 
amigo fazia por essa occasião, e debaixo de cujo 
nome S6 publicoa uma boa parte, mas não toda» 
porque o dextro e profundo latinista» não che*- 
goQ a concluirá, não obstante as 'stimulaçoes 
amigáveis, que lhe fazia ultimamente o seu ami* 
go, e a muitos respdtos o venerável barão de 
Villa-Nova de Foscôa, com o vivo desejo, deqoe 
a litt^atura portugueza podesse ufáoar-se de ter 
em sua linguagem os grandes partos da imagina* 
çSo fogosa do poeta mantuano. Mas infelizmente 
não poderam vingar os rogos ancioàos do nobre 
l^oscôa, porque uma doença renitente e perigo^* 
sa, prostou de cama o digno deputado Vietoríno, 
congénere de Garrett, e o ultimo volume da obra 
de Virgilio, saiu traduzido pelo já falecido poeta, 
José Maria da Costa e Silva. Barreto Feio era 
um doestes homens sinceros e bondosos, que ra* 
ramente se topam quando se precisa da sua pre*^ 
sença, e que pagam sempre com generosa pon* 
ctualidade, as demonstrações de verdadeira wú^ 
zade que recebem de seus irmãos ; e juactò de 
Almeida Garrett, á luz mortiça d'uma vela que 
espirrava n'aquella habitação gellada pela intensi- 
dade do frio, escutava também com pura e reli- 
giosa attenção, alguns trechos dos seus mavio- 



107 



•*tm^ 



S08 versds, e d^omas tradac^Oes de Gatuilo, que 
o novo poeta fizera em idade mais verde, nas 
hara»> snbtrahidas á$ lides académicas, é ao des- 
canço que lhe 'stipulava o 6en primeiro mestre, 
bispo 4'Angra do Heroísmo. 

Barreto applaudia o que merecia elogio, e em* 
mendaTa4be o que conscienciosamente conhecia 
«rrado. 

Este nobre patriota era também o invólucro d'nm 
cora<;3o generoso, e duma alma sensível, mas de 
crenças e opiniões inabaláveis* Conta-se até que 
estando por hospede em casa d'um titular da 
corte, quando era deputado não sei por que cir- 
culo eleitoral, que arguira nas camarás o seu bem- 
feitor que lhe servira de pae nos tempos da ad- 
versidade; interrogado acerca do seu proceder 
d'ingrato, respondeu que emquanto no palácio do 
que lhe dava o sustento, fallava pela bocca da 
gratidão, mas que na casa onde se deliberava o 
flicturo d'uma nação, fallava pelos lábios da cons- 
ciência e da opinião que nutria desde o berço. 

Era um dos homens francos e mais honrados 
do ,D0SS0 século. 

cBarreto Feio, diz o seu biographo, foi enthu- 
siasta dos rasgos de virtude, de valor e amor da 
pátria^ dos homens celebres da Grécia e Roma ; 



108 



penetrou no âmago da historia d'esi}as nações, 
e chegando a ser apaixonado das belias lettras, 
enriqueceu a IKteratura pátria, de belias traduc- 
ções, entre as quaes avultam as de Sallustio e 
Virgílio, talvez as melhores que a Europa hoje 
possue.j> 
E este nobre portuguez morreu também infe- 
c liz como tantos homens, victimas dos sentimen- 

tos' nobres e da intelligencia que Deus lhe got- 
tejou nos «seios d^alma», para serem apóstolos 
ousados dos grandes batalhões da ignorância, e 
commandal^os na estrada da perfeição e da virtude. 



c: 

c 

t 






ff Voltei em fim & pátria 

«Outra Tez de esperanças iUudído. 
«Alguns serviços por benignos chefes 
«Exagerados sim, mas oSo mentidos, 
«Nada obtiyeram. 



(Garrett.— CowiíJeíj . 



VI 



Restituída a liberdade ao lacrymoso Portugal, 
que estava havia perto de três annos, orphão de 
seus filhos mais leaes e lhes ouvia os suspiros 
que do desterro lhe mandavam sobre a corren- 
te dos mares que os apartavam, no anno de 1826, 
começaram logo a mecher-se no exilo os mofi- 
nos desterrados, dispostos a deixar o asylo es- 
trangeiro, para beijarem a face da terra que se 
levantava da enfermidade que soffria havia tanto 



110 



tempo. Por esta occasi3o voKou o inspirado Gar- 
rett ao reino, sobraçado com os seus bellos poe- 
mas filhos de saudades e magoas, animados já 
com os beijos deliciosos da imprensa e mais tra- 
balhos litterarios, de differentes espécies, que lhe 
haviam sido inspirados, pelos ennos solitários do 
exilio, e duras attribulações que experimentara 
no decurso do seu tormentoso vagueamento. Che- 
gando pois á corte de Portugal apressou-se a fa- 
zer a sua apresentação na secretaria doestado dos 
negócios do reino^ onde trabalhara em 1822 an- 
tes da . reacção absolutista que o arremessara ás 
terras da proscripção. Sendo-lhe reintegrado no- 
vamente o lugar que occupara n'aquella reparti- 
ção juncto com outros seus amigos, durante o 
pequeno espaço do regimen constitucional de 
1826-1827, encetou a publicação d'um jornal, 
que intitulou o Pormguez^ tendente a defender o 
systema constitucional e o^ melhoramentos d'ad<^, 
ministração publica^ cuja sociedade se couB^unha 
dos seguintes indivíduos além d'QUe: João Anto^ 
nio dos Santos, Paulo Midosi^ e Luiz Francisco 
Midosi seu irmão, Carlos Morato Romai Ântomo 
MariA CouQeiro, Joaquim Larcber» e Jos^ Libera- 
to Freire de Carvalha» a quem Garrett enb*egou 
o ieme de redactor prínoipaK Por este t^po foi 



Hl 






que O poeta Qscrev^ e pobUeoutarot^em a sua 
Carta de guií^para: Eleitores , e no mesmo período,- 
saia em Pariz ao primeiro volume do Parnaso 
Imitamot uma prodQcçao que ali deixara sob a 
epígFapha de Emaio $Qbre a hUtoria da lingm e 
poesia portugmza^. 

Combatidas ppuco depois as ideias do Partu- 
gmz^ esse bedjQ colaborado orgam da liberdade, 
por ; José Agostinho de Macedo, o critico mais, 
mordas que por nosso jnal possuiu a litteratura 
pátria, esse corrupto ministro da egreja, e pre- 
sidente da republica da caíomnia, que a par d'uDi' 
talento singular e uma vastissima erudição/ pos<» 
sQia um alto grau d^bypocrisia : uma, abna de- 
senfreadamente prop»:^a a praticar todos os actos: 
que os homens virtuosos condemnavam; com*-: 
batidas as crenças religiosas e i»*ofanas dos co<' 
laboradores do jornal, pelo espião politico dotem^ 
po ida invasão francesa em Portugal^ foram pre* 
SOS alguns redactores, e encerrados nas prisões 
do Limoeiro em Agosto de 1827, e pronunciados 
pelo crime de fom^tadores dos movimentos tu- 
multuosos da capital nos dias 24> 25 e 26 de Ju« 
Iba de 1827, Garrett entrou resignado para aquel* 
)a sepultura de vivos sem maldizer o infame sal*^ 
timbaiv^o do ebrislianismo, que ali o levara injiísta* 



Itô 



mente, 6 só com o intento de fazer mal, e come- 
çou a compor e planear os seus romancínhos mé- 
tricos, sem se assustar das cruas^ arguições que 
os seus emulos lhe faziam em tanto, queimados^ 
pela inveja de ]^3o poderem erguer-se á grande- 
za a que o tinham levado as suas obras. 
. Ali na prisco foi que elle concluiu o seu lindo 
romance antigo a Adosinda que come^^ara ainda 
em perfeita liberdade nos princípios de 1827 em 
Campo d'Ourique, onde morava por esse tempo. 
Saindo da cadeia da cidade os redactores do 
jornal depois do julgamento, foi José Liberato dl- 
mittido do emprego que exercia na secretaria do 
reino, e acabando por este acontecimento a pu- 
blicação do Portugtuez, fundou Garrett outro, inti- 
tulado O Chronista semanário que tratava de cotsi" 
meròio, litteratura e politica, que foi também 
colaborado por parte dos homens que escreviam 
no eWincto Portuguez. Do Chronista icãx^ vi ain- 
da nenhum numero mas consta-me que tem arti- 
gos de muito merecimento litterario. E o empe- 
nho de Garrett continuava a ser sobre litteratura 
e politica, mas a sua politica naa tendia a des- 
graçar a nação, mas sim salval-a das garras dos 
oppressores bárbaros, que se ensaiavam para a 
empolgar novamente, e pisar com os pés impiòs 



143 



os seus c(»iteiidores; e^a soa eloquente littera* 
tura miQca reãicularisara os actos virtuosos nem 
menospjresara os sanctos dogmas da religião, co-^ 
ma fazia a auetor do Gama ou do Oriente, te" 
buçaodo-se sempre eom a mascara da pbiloso-^ 
phia. 

Pelos fins de 1827, foram persegoidos encar^ 
niçadiameiíte os nobres liberaes, que já se ha^ 
viam distinguido em 1820, pelos vastos partida^ 
riosL de Miguel cujo governo se tornava a as- 
sentar em Portugal, e vendo-se os cartistas ex- 
tremamente apertados tiveram de fugir para a 
província de Gallizapara onde foi todo o Corpo 
Académico, mas não acbando essa multidão de 
foragidos, caridade nem amor entre essa selva*^ 
jaria bruta d'alem-Minho, passaram alguns dias 
pes^mamente em consequência de lhe começa- 
rem a escacear os soccorros que percisavani 
para resistir ás ameaças dos partidários do usur- 
pador que eram em maior copia. Yendo-se en- 
tre estranhos sem coração que os aborreciam e 
tractavam com desdém, mandaram os infelizes 
portuguezes pedir a um respeitável titular que 
se achava em commissão de Portugal em Lon- 
dres, que os mandasse soccorrer n'aquelia triste 
posição^ onde a fome já os ia ferindo ainda que 

ALMEIDA GARRETT ^ 8 



114 



levemente. Sabendo o nobre duque de Palmei- 
la, que era então embafxador em Looidres, que 
os dignos e exforçados liberaes vagueavam op- 
primidos e descontentes em terras gallegas co- 
mo em Tuy, Ferrol e Corunha, mandou Paulo 
Midosi a esta ultima cidade em 11 de Agosto de 
1828 para tractar de os transportar a Inglaterra» 
n'uma embarcação que mandou apromptar e sair 
em demanda das costas de Galiza. 

Chegando Pa ulo Midosi á Galiza como enviada 
do Palmella, fez ajunctar immediatamente os in- 
felizes que ali se espalhavam,, e executou o seu 
encargo, com a ligeireza e prudência que se re- 
querem em casos de tanta responsabilidade, e ur- 
gência. 

Pouco tempo depois que esta legião de foragi- 
dos, se affastou dos mares gailegos, desembarcou 
em Plymoutb, onde se formou um deposito para 
os emigrados, sendo Midosi nomeado secreta- 
rio geral d'elle em 28 de Setembro do mesmo 
anno. 

N'esta embarcação cheia de portuguezes, fo- 
ram também, emigrados para Plymouth D. Vi- 
cente Paim terceiro conde d' Alva, e o grande 
orador — mais tarde — José Estevão de Magalhães 
que pertencia ao batalhão Académico de Coimbra. 



115 



Garrett emigrou também por esta occasi3o de- 
pois de ser novamente demittido do eihprego, 
embarcando para Inglaterra, não sei se no Tejo, 
se nã Galliza, mas é mais provável que fosse no 
Tejo. 

O certo é; que chegando ao desterro fez lo- 
go representar em Plymouth o Catão aquelle 
drama que já lhe grangeara immensas sympa- 
thias dos lisbonenses, e um distincto lugar no 
campo das lettras portuguezas. 

Foi desempenhado pelos seus amigos, que re- 
ceberam, tanto dè portuguezes como dlnglezes, 
os applausos que merecera o feliz desempenho, 
e o pnmor da peça. Consta que nas chronicas 
da semana, de vários órgãos da imprensa brittanni- 
ca, appareceram differentes artigos, dando conta 
da peça e do desempenho, que passavam a car- 
ta de actores aos curiosos, e punham Garrett 
n'alguns degraos acima dos bons trágicos da anti- 
guidade. Que talento, e que rara felicidade pos- 
suía o nobre desterrado ff Em toda a parte, o es- 
timavam f Todos se enthusiasmavam ouvindo as 
suas producções, ou vendo-o fallar, com aquelle 
propósito e elegância que lhe eram familiares f E 
um tiòmeni assim que todos acatavam e reveren- 
ciavam com todo o respeito, precisava de andar 



116 



vagueaudo de terra em terra, pedindo pousada a 
estranhos, tendo uma pátria tão l)elia para alcm- 
gar a vista fogosa sobre soas flores, seus rios, 
seus prados, seus montes, e colher sobre essas 
diferentes grandezas, a poesia d'alma. Percisava 
d'errar pobre e triste, roido de saudades, á emi- 
tação dos antigos romeiros de Sanctiago? Não; 
mas percisava de liberdade para correr a sua pá- 
tria e gritar contra os abusosj^ sem que Uie disses- 
sem de súbito a phrase despótica de Gafe es^a 
bocmíít Não; mas necessitava ar, e ar muito pu- 
ro que não lhe abafasse as palavras, e o deixas- 
sem expandir a robusta imaginação que lhe quei- 
mava o cérebro, e os homens que rodeavam 
usurpador pretendiam roxear-lhe os pulsos, con- 
frangir-lbe a vóz e tortural-o sobre o eqúuleo 
do despotismo. Por isso é que elle já se tinha 
abrigado tantas vezes d'essas tempestades entre 
corações estrangeiros, e nunca curvara a fronte 
a esse rebanho de oppressores. Honra ás cinzas 
do grande patriota que sempre conservou seu no- 
bre peito conchegado ao lábaro, que abraçara 
ao desprender-se das cadeias que o ligavam á 
casa paterna I 

Disolvido que foi o deposHo d'emigrados em 
Piymouth, logo se dispersou essa immensidão 



117 



de infelizes por varias povoações brittanicas, co- 
meçando em seguida a formar partidinhõs de 
diversas cores politicas que fiseram descer sobre 
elles com mais intensidade, as a zas do infortú- 
nio que lhes tinham varejado a fronte antes e de- 
pois de se despedirem do reino para se refugia- 
rem alem-Minho. 

Mas Almeida Garrett deu de mão com toda a 
força do seu despreso a esses loucos intentos, 
que deviam tecer indeclinavelmente, as mais vo- 
razes desavenças entre a maior parte dos expa- 
triados que tinham n'aquelles climas, só a protec- 
ção do duque de Palmella, e sua bemfeitora es- 
posa. 

Para evitar que algum José Agostinho de nova 
espedé ' o envdvesse n'essas tentativas absurdas 
e o desconceituasse perante os seus amigos e 
protectores, deu-se pressa em embarcar para 
Brest> è deixou poucos dias depois a capital de h < 
glaterra. 

Em- Brest porem, conservou-se pouco tempo o 
illustre poeta, porque recebeu ali um ofiBcio do 
duque para comparecer em Londres dentro d'um 
praso marcado. 

Garrett cedendo á urgência da participaçSo 
partiu no mesmo instante de Brest para Lén- 



118 



dres, onde foi recebido pelo illustre embaixador 
com verdadeiras demonstrações de regosijo e 
cordial ajQTecto. Recolhendo-se os dois ao gabiae- 
te secreto da legação portugueza, Palmella revê- 
lou-lhe os desejos que alimentava de o ter traba- 
lhando juncto de si, com o grau de secretario da 
embaixada onde se achava também empregado 
Paulo Midosi. Garrett acceitou com satisfação o 
cargo de secretario ao pé de Midosi, não só por 
ser condescendente com a vontade do seu prote- 
ctor, mas também para dar algum descanço á 
imaginação que tinha sempre afundada nos seus 
trabalhos litterarios, e que lhe eram prejudiciaes 
á. saúde. O nobre embaixador agradeceu-lha a 
boa vontade com que se promptificava a faser par- 
te da embaixada, e d'envolta com um cordial 
abraço disse-lhe algumas palavras consoladoras^ 
e de lisongeira esperança no fucluro. 

No estreito exercício d'aquellas funcções, go- 
sou então mais^ saúde, porque só nas horas va- 
gas se entregava ás lettras e sciencias. Em No- 
vembro ou Dezembro d'esse anno appareceu pu- 
blicado em Londres, o pequeno livro da Adosin- 
da^ esse romance popular estreietamente cingido ás 
mais elegantes regras clássicas, e na mesma época 
coUecionou, refundiu e aperfeiçoou, varias lendas 



1(9 



do -povo qae delineara com aturadas investiga- 
ções. Passado pouco tempo foi tradusida uma 
parte da Adosinda — julgo que a melhor — para a 
lingoagem de Milton, peio muito estimado poe- 
ta em Inglaterra João Adamson que era amigo de 
Garrett. Os inglezes que desconheciam os mere- 
cimentos do auctor do Camões, receberam com 
grande admiração aquelle pequeno fragmento da 
Adosinda, e alguns estudaram então a lingua por- 
tugueza para lhe admirarem as obras, tão nomea- 
das, como as dos grandes poetas da sua terra. 
Apparéce este soneto nas suas obras poéticas, es- 
cripto em Londres na mesma época, que pelo 
sentimento qiie exprime, é digno de ser mencio- 
nado n'este lugar. Esta composição parece ter si- 
do feita por occasião de chegar a Inglaterra al- 
gum emigrado seu amigo, a quem busca dimi- 
nuir as magoas de se ver longe da pátria : 

Saudade 

«Séculos sSo, na vida que enfastia, 
«Estes dias de exilio amargurados ; 
^«Um por um, magoa a mágoa, vSo contados 
«Em lenta cruelissíma agonia. 



120 

f Oh! roubemos-lhe ao menos este dia. 

< Ao padecer que todos traz roubados ; 

< Sejam pela amisade consagrados 
«Ao casto amor, instantes d'alegria. 



«Tem prazeres também a desventura: 
«A própria carrancuda adversidade 
«Sorri 6'oa esperança que lhe lux fuctura- 

«Vem, amigo, no seio da amisade 
•Festeja a esposa, sonha c'oa ventura, 
«Que um dia hade mattar tanta saudade. 



«r. . . Emtote 

«Pela terra estrangeira, perigríno, 
«Nas solidões do exilíOi fui sentar-me 
«Na barbacan ruinosa dos castellos. 

{(jjíMXTt.—Camiíes) 



VII 



Ouvindo Garrett fallar com muito apreço d'al- 
gumas grandezas d'Irlanda, berço dos seus infe- 
lizes antepassados, e d'Escocia, pediu uma larga 
licença ao bondoso embaixador, para ir visitar e 
admirar de perto essas maravilhas, cuja dis- 
cripção o impressionava fortemente. Feita prom- 
ptamente essa concessão pelo duque de Palmella, 
foi Garrett passeiar em roda d'esses monumentos 
notáveis, castellos derruídos» povoações denegri- 



122 



das pelo famo das fabricas de ferragens, e os sí- 
tios mais celebrados por antigos e modernos 
poetas e prosadores brittanicos. Entre outras no- 
tabilidades que visitou o illustre poeta, figuram 
o castello de Dudley seus fosseis e barbacans, as 
profundas excavações que se faziam abji por es- 
se tempo, em demanda dos materiaes que são o 
commercio e a riqueza d^aquellas paragens ári- 
das, desertas e queimadas pela atmosphera can- 
dente formada por esses vários elementos exala- 
dos da terra, cujas naturezas differentes se 
embatem como os ventos Noto, Austro, Boreas, 
e Aquilão que se topam no sibilar tempestuoso 
entre a terra e as nuvens. A estas ruinas notá- 
veis d'um antigo castello feudal dos antigos bre- 
tões, que o poeta já visitara de passagem no an- 
no de 1823 quando estivera em Birmingham, foi 
que elle alludiu n'estes versos immortaes do prin- 
cipio do canto sétimo do Camões. 



<Eu vi sobre as cumiadas das montanhas 
« D' Albion soberba ^as torres elevadas, 
«Inda feudaes memorias recordando 
«Dos bretões semi-barbaros. Errante 



123 

«Pela teria estrangeira, perigríno, 
«Nas solidões do exílio, fui sentar-me 
«Nabarl)acaQ ruinosa dos castellos, 
«A conversar c'as pedras solitárias 
«E a perguntar ás obras da mSo do homem 
«Pelo homem que as ergueu. A alma enlevada, 
«Nos românticos sonhos, procurava 
«Áureas ficções realisar dos bardos. . 

« «... 

«Não vi quadrigas de vistosas justas 
«Nas praças d'armas afiançada viva. 

tf •« ,... 

«Nadai só pelos fossos entupidos 
«Do desfolhar do outomno, e bronco entulho 
«Dos muros derrocados, — soltas pedras 
«E immunda terra, á vista affiguravam 
. «Insepultos cadáveres golpeadoà, 
«Membros, inda cobertos d'aço e ferro, 
«Dos que em contenda injusta pereceram, 
«Pelo vaidoso orgulho, ou vão capricho 
«Do castellao soberbo. Nas ameias 
«Se me antolhavam hórridas cabeças 
«Hirta a grenha co^as carnes laceradas 

< ......•<... 

«Gomo se a idade que destruiu palácios, 
«Memorias de prazeres luxos pompas, 



124 

«Catasse mais respeito a taes restigios 
cD'atrocidade e crimes,— e escreTesse 
^ «Ao passar com a fouce efifemijada 

«No limiar d'essas portas: Escarmento 
•Ãs gerações por vir. — ^Doia-me alma 
«Na solidão das minas, e a lembranças 
«Mais gratas me fugia o pensamento, 
«Para os vergéis da pátria esvoaçando.» 

Que saudade tão aguda e lacerante exprime o 
desconsolado mancebo n'este jacto arrebatado de 
sublime inspiração I Que sentimento» e que en- 
raisado soffrimento alimentava em seu peito pe- 
los outeiros e prados alegres da perdida pátria I 

< Para os vergéis da pátria esvoaçando ! > 

Que pala\Tas humanas, pod erão calar mais fun- 
do no coração dos homens que sentem e pensam 
do que estas ultimas 1 Ainda me affoito a excla- 
mar outra vez : 

Quem ferira bord(Jes tSò eonsonantes 
Como o herdeiro áo cantor do Gttma? 



125 



O poeta» depois de visitar esses torreOes mus- 
gosos e <x>bertos d'era, as choupanas dispersas 
que ladeiam a estrada dlrlanda, via a egreja e 
os camparios de Dudley, e foi depois derra- 
mar a sua admiração sobre Hagley-Park, uma 
das maraviibas inglezas que foram mais enthu- 
siastícameate celebradas pelos grandes poetas que 
deu a mesma terra. Pope e Thomson nos ins- 
tantes das suas mais altas inspirações i D'ali pas- 
sou logo aos montes Gheviots e aos Grampians, 
6 ás infinitas montanhas de Galles> onde se as- 
sentou sósinho, sobre as rocas denegridas e al- 
pestres> envolto nos espessos rolos de nevoeiro^ 
que ainda tornavam mais solitárias e lúgubres es- 
sas penedias e pendores crestados pela atmos- 
phera abrasadora. Passando depois a Dublin e New- 
port pode apreciar então suspenso e extactico os 
grandes monumentos que* já vira descriptos n'al- 
gumas paginas sublimes do engenhoso auctor 
d^essa epopea famosa que se intitula Ivanhoé, que 
o faliecido Ramalho de Sousa verteu consciensio- 
samente pára a lingua portugueza> segundo affir- 
mam os melhores commandantes do corpo litte- 
rario do nosso tempo. 

Garrett pode: então conhecer mais profunda- 
mente o grande bomem^.e o agigantado poeta que 



126 



a terra d'Escocía tinha lançado ao mundo e a seu 
seio o havia recolhido de novo, depois de o ver 
cançado em diliciar o universo com suas bailadas 
e hymnos ímmortaes, e com aquellas prosas de 
rara fecundidade. 

N'estas dilatadas viagens, Garrett empunhava sem- 
pre a sua pasta d'escriptor, e escrevia com traços 
ligeiros as impressões que ia sentindo. Essas 
impressões que trouxe para o reino, morreram 
— creio eu— nas gavetas da redacção d'um jor- 
nal ephemero que se publicou em Lisboa e onde 
elle as entregou para serem publicadas em pe- 
quenos* fragmentos. Voltando á capital da Grã- 
Bretanha em 1839 entrou de novo no eiercicio 
das suas funcções, addido á legação portugueza, 
e pouco depois mandou imprimir ahi uma linda 
coUecção de romances do povo, e poemetos ro- 
manescos que intitulou humildemente Lyrica de 
João Minimo. Apenas conhecido o pequeno livro 
foi procurado com o mais vehemente trans- 
porte até pelos que não conheciam a linguagem 
dos Lusitanos. D'este volume de lindas poesias, 
escolheu as melhores peças, a distinctapoetisafran- 
ceza Mll.^ Paulino Flaugergaes, e traduzindo-as 
para o seu idioma mandou-as junctar ás suas ma- 
viosas producções métricas, que publicou em Pa- 



127 



ris em 1841, n'um elegante livro que se intitula: 
Au bord du Taje. 

< N'este pequeno volume de preciosidades poe^ 
ticas, vem uma linda ode, homenagem a Gar- 
rett, que corre traduzida em portuguez, pelo 
Sr. José Maria do Amaral, e publicada nas pri- 
meiras paginas das ultimas edições d'esse tbe- 
souro d e sublimidades e grandezas que se cbama 
Camões. N'este mesmo anno appareceu em Lon- 
dres, o primeiro e único volume que se cbegou 
a publicar^ do Tractado de Educação. Esta obra 
comprebende dose cartas que o auctor envia a 
uma senhora illustre encarregada da instituição 
'udma nobre princeza. 

Presumo que estas cartas foram escriptas á aia 
da senhora D. Maria II, que estava em Londres, 
n'essa época tão cheia de calamidades. Este livro 
em todas as paginas que são numerosas mere- 
ce o nome que tem no frontespicio, já no'styllo 
sempre elegante e correcto, já na fecundidade 
dos bellos pensamentos, já pela ideia que o au- 
ctor desenvolve sempre com successo feliz, já 
pela erudição .vasta e felizes comparações phi- 
losophicas, e exemplos históricos que apresenta 
•para fazer sobresair melhor os seus preconcei- 
tos, já na linguagem sempre sã que adoptou nas 



128- _^__ 

primeiras produções e jamais deixara de sus^ 
tentar ; ja nos períodos dissimaladamente engra- 
çados qae ningaem soube apresentar melhor do 
qae eile : assim como nos breves mas explicitos 
conselhos que dá ás turbas de que se constituo 
tribuno para as guiar ao porto da regeneração 
social. 

Ouvi dizer ou li algures^ -*^ hão me posso ago- 
ra recordar onde — que este bello estudo cons- 
tava de Ires volumes, mas que se perderam dois 
no lamentável naufrágio que succedeu nasagpas 
da Foz do Douro, durante o cerco do Porto, e 
não ha noticia de que Garrett, tornasse a por em 
pratica esse monumento; primeiro no seu géne- 
ro' em Portugal. É pena que obras d'estas não 
cheguem ao poncto qua imaginam os homens 
ousados e talentuosos como era Almeida Garrett, 
mas esse só volume, fornece-nos forças para di- 
zer-mos que já possuímos um tractado d'educch 
ção. 

A grande victoria que os constitucionaes ga- 
nharam na ilha Terceka — Praia— em 11 d' Agos- 
to de 1829, cantou-a Garrett em Londres, n'uma 
composição poética recamada de tão verdadeiro 
amor pátrio, que alem do Camões e Catão, pare- 
ce-me que nenhuma poesia lhe saiu tão do inti- 



i29 



mod^alma; £ \m dos mais arrebatados pensamen- 
tos que tem a sua numerosa litteratura ! Ainda 
faz vibrar com mais vebemencia as cordas do co- 
ração, do que a odo que .citei no principio da bio- 
grapbia, que eUe recitou na Athenas portugueza^ 
Esta composição intitula-se: A Lealdade^ ou a vi- 
storia da Terceira^ e Garrett dedicando-a ao cm- 
de de Villa-Flor, depotô duque da Terceira, e aos 
bravos soldados da constituição, mandoq-a publi- 
car n*um dos primeiros números do Chaveco Li- 
beral^ jornal que se publicava em Londres nos 
fins' do mesmo, anno, pelos illustres emigrados 
portuguezes. D^ís o poeta mandou-a imprimir 
em .separado n'um pequeno folheto, em conse- 
qu^cia de receber muitos pedidos de Portugal e 
França. Esta deliciosa canção tem vinte capitur 
los, em vários metros, e acaba, com coros de sol- 
dados e;saHando 1>. Maria II, ao tbrono que es- 
lava, occupado por D. Miguel. 

Nos princípios de 1830, tempo em que o poe- 
ta esteve por ventura mais despreoccupado e tran- 
quillo no desterro, começou e concluiu um tra- 
balho quelha deu uma grande faceira, e o fez subir 
mais alguns degrau», do tbrono,. em que conter- 
râneos, e affaslados o haviam erguido, para. ser 
admirado pelos pygmeus da posteridade! Contan- 

ALVEIOA GARRETT 9 



130 



do approximadameDte trinta e um annos deidade, 
tendo provado já as mais amargas vicissitodes e 
desenganos, e seotindo-se muito mais abastecida 
de estudos, era de esperar que voltasse os olhos 
para o seu passado litterario, onde pairavam al- 
gumas nuvens crianceiras que percisavam de ser 
dispersas; e assim o executou n'esse anno, N'uma 
â'essas horas divinas em que sentia subir a ima- 
ginação rodeada de luz ás altas regiões de Phebo, 
lançou mão do seu querido Catão, e fez-lhe uma 
authopsia formal. Leu, releu, cortou-Ihe os ver- 
sos que tinham a cor da infância, animou o que 
se abysmava no rastejamento, fez descer o que se 
alteava demasiadamente, alterou, modiflcou, di- 
vidiu-o todo em pequenos molbinhos borrifou-os 
com o bálsamo da sua intelligencia, e depois de 
reverdecidos, enfeixou-os todos com tanta segu- 
rança que nenhuma tempestade poderá destruil- 
os. Depois de tão correctamente emdlendado com 
aquelle cuidado que empregava sempre, enviou-o 
á imprensa londrina, onde saiu a segunda edição 
precedida d'um longo prefacio cujo principio é 
concebido nos seguintes termos : 

«cA extrema indulgência com que este drama 
foi recebido do publico, impunha ha muito ao au- 
ctor a obrigação de o emmendar, e tomar mais di- 



131 



goo áe tão lisoDgeiro favor^ do que elle sairá na 
primeira edição. São todavia passados mais de 
quatro aunos» desde que ella se extinguiu, e só 
agora, na preguiçosa convalescença, de longa enfer- 
midade, appareceu breve remanço, de mais serio 
trabalho que se lhe podesse dar. Sobre feiissima 
d'erros d'imprensa, saiu aquella edição, com to- 
das as folhas do primeiro molde, incorrecta no 
slyllo, falta de natural e verdade na phrase. Alem 
d'estes senões de colorido accresceram algulis e 
muitos no desenho, impropriedade na fabula ou 
enredo no drama, ou correcções nos caracteres e. 
semelhantes. Todos estes defeitos nasceram dos 
vinte e tantos dias em que a tragedia foi compos- 
ta ensaiada e representada, e dos vinte e um an- 
ãos que então doudejavam no sangue de quem a 
escrevia. A todos esses e ao mais capital d'elles, 
— á tibieza e requenez do quinto acto, se poz 
peito em evictar n'esta edição. 



«O desanimador estudo do coração humano, o 
fatal conhecimento das humanas paixões, e de 
sua influencia e acção nas revoluções politicas, o 
habilitaram para entender agora melhor o seu Tl- 
to-Livio, e o seu Plutarcho. Assim commentado. 



432 



pela experiência de dez annos de revelações, es- 
}es dois grandes pbanaes da historia antiga, gaia- 
jam o aaotor da tragedia, nas formas que n'ella 
fez, no desenho dos seus caracteres, e no eolorí- 
do de muitas scenas que na primeira ediçlo visi- 
velmente mostravam a não inexperta do pintor 
que as traçava sem ter d'onde as copiar do vi* 
vo.» 

Ora escrevendo aqui as próprias expressões do 
grande poeta, julgo ter cumprido soffrivelmente 
a minha missão, com relação á melhor tragedia 
que possuem os portuguezes. Tenho ojivido di- 
zer que a Castro d' António Ferreira, e mesmo a 
de João Baptista Gomes, são melhores do que o 
Catão, porem eu sustento e sustentarei em quai^ 
to tivçr olhos para ver, e oavidos para esputar, 
que o Catão é o melhor drama em verso que 
existe na nossa língua. 

Pelo meiado de 1830, quando essa apertada 
crise de Julho pôz em alvoroço orna vasta legião 
de.portuguezes> e fez ranger os prelos de mais d'u- 
ma nação, acabava João Baptista d*escrever> e en- 
tregava aos prelos, um dos seus mais admiráveis 
festões litterarios. Era o livro de Portugal na bor 
lunça da Europa, inspirado pelos movimentos 
revolucionários, que se crusavam entre as três 



133 



nações que se estendem eótre o Minho e o 
Sen^. 

Gatrett encarou silencioso e resolnto esses ho- 
risontes inflãmmados das três nações, e com es- 
pecialidade as absurdas coliigâções da França e 
subindo aos pincaros do seu alevantado Sinay, 
derramou os olhos fulminantes sobre esses cam- 
pos tempestuosos, como os volveria o triste or- 
phão vendt)-se desbordado, repellido e expulso 
dos seus dominios, por tutores desalmados, e de- 
pois de conhecer a área onde se urdiam tantas 
traições e ambições ; desceu ao gabinete de es- 
criptor, e começou a meditar. Pousando então 
no silencio mais perpetuo, o braço vigoroso so- 
bre alguns quartos dé papel, empunhou uma pa- 
lheta d'aço fino e deu principio a um grandioso 
espelho, onde presentes e vindouros tivessem a 
historia dos trabalhos mysteriosos, com que os 
grandes homens do século, pretendiam calcar a 
bandeira da sancta lU)erdade e hastear em seu lo« 
gar brilhante, a do fallaz despotismo, cravejada 
de grilhões para apertar os pulsos aos desgraça- 
dos povos da Europa. N'este livro phenomeno 
apparece tão vivo e grandioso o coração d'um 
grande estadista como no Camões, o d' um poeta 
de coração e alma. Era uma imaginação infatiga- 



134 



vel e creadora, aquella do gigante cantor de Ca^ 
mões. Quando saia um novo livro d'aquelle ce* 
rebo fogoso e ardente, nao era mais um voluíne 
que ia encher as bibliotbecas, mas sim um novo 
homem que surgia no mundo rodeado de luz, 
para arrancar um povo afficto dos cárceres da 
ignorância e encarreiral-o ao campo do engran- 
decimento e da suprema ventura. 

Este rouxinol,... sim rouxinol, por que o rou- 
xinol canta, í — nSo trinava só entre a copa da 
laranjeira ou no silvedo, onde dera os primeiros 
signaes de vida; alava-se á vista do loureiro al- 
tivo, e ia espalhar as suas melodias sobre o chou- 
po gigante que devassa os ares. 

E em todos os campos sabia manejar com des- 
treza aquella penna explendida e brilhante que 
empunhou durante tantos annos. 

Honra ao seu nome que está já gravado na 
columna da celebridade, como o d'aque]les que 
augmenta em grandeza, á maneira que correm os 
séculos. 



«Â fiUBha Tóz, o meu sincero empenho 
«Todo o meu coração é pela pátria, 
«É pela liberdade...» 



[Garrett.— Co/ào] 



VIII 



Em 1831 ainda Almeida Garrett se conserva- 
va em Inglaterra^ onde vivia irosuluto esperando 
que rebitasse entre seus companheiros do exí- 
lio, o grito d'alarma, e apparecesse no mar um 
vaso de confiança, que os transportasse ao seio 
de seus leaes amigos qué pelejavam na pátria é 
na ilha Terceira contra as tropas de terra é na- 
vaes, do usurpador. Quando souberam no es- 
trangeiro que chegara à Europa o duque de Bra- 



136 



gança e se acbtva á frente dos defensores da 
Terceira» Garrett assentou praça n'um batalhio 
de caçadores formado em Belleisle, e embarcou 
em seguida, desembarcando nas agoas dos Aço- 
res, em Março de 1832» ao cabo d'uma viageni 
tormentosa e. longa. 

Quando a corveta começou a frizar ligeira os 
mares açorianosi ouviram os de terra uma celeu- 
ma confusa que saia da embarcação que se apro- 
ximava. Os emigrados, subiram em grande copia 
á amurada do navio, e mal poderam distinguir 
os píncaros agrestes de Monte-Brasil, fizeram ec- 
coar pela extensão das gandras estas saudosas e 
enthusiasticas palavras — Paíria / Patriajt Viva 
Maria t Viva a Liberdade ! f 

Saltando logo nas praias da Terceira essa ex- 
pedição do exercito libertador, foi Garrett visitar 
alguns velhos amigos que ali possuia do tempo 
da infância e de quem recebera boas provas de 
amisade quando ia visitar aquella terra onde sa 
relaecionara estreitamente com as musas que tlio 
perfeitamente cultivava. Passados poucos dias sem 
haverem operações de parte a parte, foi cbama* 
do para trabalhar no gabinete do então nâni^tro 
da fazenda de D. Pedro, e encarregado interínar* 
mente de pasta da justiça na iiba Terceira» Jos6 



' 



137 



>AÉ>.tlteaiM«i«aM 



Xavier Mousinho da Silveira^ onde esteve fuaccio^ 
nando emqaanto o Regente pern^aneceu nos Aço- 
res. Três mezes depois doestar no gabinete de 
Mousinho, foi nomeado para ordenar e dar exe* 
cuçao a varias leis orgânicas, o que elle exe- 
cutou com grande pnidencia e mérito não cq- 
Bbeddo nos seus predecessores na legislação. 
Por este tempo era já disolvido o batalhão em que 
se alistara em Belleisle» e Garrett pediu então par 
ra servir voluntariamente no batalhão Académico^ 
6 sendoOhe satisfeito promptamente esse pedido^ 
embarcou para o reino com esse montão de li- 
beraes, deixando summamente penalísados os di- 
gnos habitantes da Praia, com qqem convivera 
aigun^ mezes nas mais estreitas relações d!ami'^ 
zade. Sobre este golpe fatal, soífreu o poeta ou- 
tro ainda hkiís pesado, que o fora ferir profunda- 
mente DO coração oppresso. Foi o transe dolo- 
roso porque passou ao affastar-se dos seus nobres: ^ 
amigos, e das sympathias que grangeara entm 
eUés,-^uma dura injustiça^ um acto quasi despo-. 
tico, que lhe fizeram os seus superiores, quasi na 
hora extrema de partir para o continente. Tendo or 
poeta tratado na véspera, do ajunctamento .da& 
suas coisas, para as levar para o Míndello, q cono^ 
mwdante do corpo, ou quem mais governava» ou 



138 



CS 



queria governar, obrígou-o a deixar a ilha inúne- 
diatamente, sem a companhia dos seus thesou- 
ros lilterarios que tanto lhe haviam custado velan- 
do noites inteiras para os por em ordem de ver 
o mundo da publicidade» e talvez o único sacrá- 
rio onde ia deliciar o espirito nas horas ein que 
o aborrecimento e os vacillantes negócios da pá- 
tria lhe amarguravam a vida de peregrino. O poe- 
ta obedeceu submisso ás ordens formaes de quem 
o constrangia a tal ponto^ e disse adeus aos Aço- 
res resignado e sereno, empunhando a pesada 
arma de voluntário, e carregando com a mochila 
de soldado raso. Foi por este motivo que sen- 
do-lhe mais tarde enviado para o Porto o volu- 
moso fardel de litteraturas diversas, se perdeu no 
fundo do rio Douro, quando a embarcação que 
o conduzia juncto com as malas dos seus com- 
panheiros entrara a barra medonha que conduz á 
cidade invicta! Assim desbordado, o viram pouco 
depois saltar nas areias do Mindello, com um 
sorriso de verdadeira alegria estampado nos lá- 
bios, e a espingarda constitucional descançada so- 
bre o braço de poeta, e sentar-se logo ao pé de 
seus collegas, e pousar sobre os joelhos a mar- 
mita esfomeada onde se distilbuia o alimento des- 
lavado aos pugnadores da liberdade. Ali masti- 



139 



ganda as batatas cosidas com o salgado bacalhad 
da constituição» o viram todos resignado, en- 
carar contente, as agoas socegadas, que se des- 
tendiam ao longe em calmaria, e sorrir para os 
que o rodeavam, dizendo que breve teriam o pra- 
zer de ver a pátria em igual quietude, rendido o 
detestável déspota a quem próximo faltariam os 
meio» de resistência. No fim d'esta ligeira e pou- 
co frugral refeição, pegou n'um pequeno livro, 
que um seu camarada Ibe apresentou aberto, e der- 
ramando um olbar fugitivo sobre algumas pagi- 
nas exclamou transportado d'alegria e consola- 
ção, como se ali estivesse o bálsamo refrigeran- 
te para lhe sanar as chagas abertas no coração: 
«— ^Meu pobre filho... foste gerado no seio das 
afanosas angustias d'um desterrado, e com elle 
te bas alimentado durante o peregrinar doloroso 
d'um viver d'amargura s, mas alfim teremos ó 
premio... o premio que aguarda na pátria o infe- 
liz proscriptOi que traz os pés cravejados das 
areias das gandras torradas, e o coração rasgado 
pelos abrolhos das invias florestas de traido- 
res. 

Descança meu filho, que depoz a lucta que pres- 
tes acabará, gosaremos o delicioso repouso em 
nossos lares, e tu serás querido e acatada pelos 



140 



homens de coração que sSo (1) indulgentes e ^re- 
sam ós exforços dos infelizfô.» E limpando uma 
lagrima que lhe escorregava pelo rost« rugaso e 
pálido entregou ao soldado o*fructo das suas áau- 
, dades. Era o poema Camões 1 Erguendo-se pou- 
co depois o batalhão, o poeta esqueceu as suas 
desgraças e a dós seus livros, e viram-ti'o todos 
então galhofar e rir com os seus mais syíDfathi- 
cos amigos na marcha para o Porto á i^ectaguar*' 
da das tropas do Mindello. Pouco tempo depois 
que chegou á cidade invicta, foi Garrett encarre- 
gado como ofSciàl ínaíòr, de organisar as secre- 
tarias doestado dos negócios do reino e esinú* 
geiros, pelo que foi muito elogiado e obsequiado 
pelo imperador D. Pedro, quando viu os seus 
perfeitos trabalhos que seriam certamente en\e* 
jados pelos estadistas mais eminentes da Europa. 
Em Agosto de 1832, tendo mais vagar começou 
a fazer o rascunho do primeiro volume dò ro- 
mance Arco de SancfÂnna de que fallarei adiante. 
Em 19 de novembro do mesmo anno de 1832» 
foi o poeta enviado em commissão a Londrtô to- 
mo secretario da missão extraordinária incum- 
bida ao duque de Palmella, Mousinho <l'ÂIbu- 
querque, e marquez do Fundial ; e depois de cod- 

(1) Veja-se a nota no fim. 



141 



clair essa missSo importante embarcou para Fran* 
ça a visitar q Dobre Palmelia que fugira para ali 
com sua familia quando chegou em 1830 ás agoas 
da Pp2âa que estavam tomadas pelas grandes for* 
ças navaes do usurpador. Por muita felicidade 
pode n'essa occasiSo, salvar-se o duque com sua es- 
posar bastante doente, e outros diplomáticos^ na es- 
cuna britannica Jack oflUeLcMem^ porque se as 
embarcações de D. Miguel lhe podessem estender as 
garras sedentas, sugeitava-se a soffrer uma mor^ 
te affrontosa no continente, como succedeu a al- 
guns desgraçados portugueses, e succedia ainda 
mais se os exforçados liberaes n3o se apressas- 
sem a saccudir o jugo traidor que os mar- 
tyrisava. Assim, escapando quasi milagrosa*- 
menle, a essa tortura, foi residir para uma 
povoado denominada Passy, nos arrabaldes de 
Pariz. 

Chegando o illnstre poeta á grande capital da 
França, e nSo encontrando já o duque, ficou ali 
por algum tempo -^ julgo que por falta de meios 
com que se transportasse a Portugal — até que 
p&de voltar finalmente á pátria, indo logo apre- 
sentaP"Se ao corpo onde deixara a sua querida 
espingarda, mas não chegou a abraçal-a de novo, 
porque o ministro encarregou-o da reforma geral 



142 



dos estudos do reino, estregando-lhe a nomea- 
ção de secretario d'essa commissSo. 

No fim de grande e trabalhosa lida, deu Gar- 
4*ett por finda a commissio, apresentando ao mi- 
nistro um perfeito reportório para illucidar os mem- 
bros d' essa juncta sobre o melindroso assumpto. 

Foi muito elogiado o pensamento do auctor, mas 
infelismente esta tentativa não pode vingar os de- 
sejos do ministro, em consequência da repentina 
e inesperada doença que surprehendeu o Regen- 
te, e ainda mais porque o tbesouro não podia com 
as enormes despezas que demandava tão utii, 
quão espinhosa empreza, — e assim ficou aquel- 
le perfeito trabalho, dormindo na secretaria, co- 
mo todos os planos de grande merecimento, ser- 
vindo só mais tarde de modelo para crear vários 
systemas, que se teem adoptado, quasi todos 
d'uma duração epbemera. 

Vendo o poeta que não davam desenvolvimen- 
to e execução ao seu prospecto, pediu que ao 
menos lh'o conservassem intacto até que um go- 
verno mais resoluto, o posesse em practica. 

Em 14 de Fevereiro de 1834 foi o auctor do 
Camões encarregado de negócios de Portugal pa^ 
ra a corte de Bruxellas, onde serviu até Janeiro 
de 1836. Ali no exercício das suas funcçSes, pô- 



143 



de dar-se com affinco ao estado da lingua de 
Goôtbe, Scbiller e Klopstok» os escríptores qae 
melhor conheceram e cultivaram a litteratura al- 
lemã. No fim de tantos annos d'amarguras e 
trabalhos, levava a effeito um desejo que alimen* 
tava desde os primeiros annos da academia, o de 
conhecer esses três grandes vultos da culta Alie- 
manha. Nas horas em que o seu ministério esta- 
va sem negócios dUmportancia a tractar, encon- 
trava-rse sempre João Baptista amarrado com pu- 
ra devoção aos melhores livros de João Wolfgang, 
o poeta que em creança chorava d^alegria vendo 
representar no tbeatro burguez de Francfort, as 
peças horripilantes dos trágicos antigos. 

£m tão boa hora começou Garrett a estudar a 
lingua progressista da AUemanba, que nos desoi- 
to mezes que residiu em Bruxellas, adiantou mais 
do que muitos naturaes que cursavam universi- 
dades. 

Sendo nomeado ministro residente para a cor- 
te . de Copenhague em Novembro de 1835, nãa 
acceitou esse cargo em consequência de sentir a 
saúde fortemente abalada; e conservou-se na 
Bélgica como deixo dito, atè Janeiro de 1836. 
Ali foi que o rei Leopoldo o agraciou com a 
honrosa condecoração d'oãicial da sua Ordem no 



m_ 

m i V i .III ' ■ ' iii ' ■ .1 .1 ...■ ' ■ . " i I 11 . ■ ' III ■ 

dia 7 d* Agosto de 1835^ e pouco depoia ou pou- 
co antes foi feito commeõdador da Ordem 4e 
Cbrísto. ' 

Voltando a Portugal^ recusou-se a acceítar q 
cai^o d^administrador d'uni dos melhores distri- 
ctos admínistrativoa qoe lhe foi offerecidò por es- 
sa occasião, bem como a nomeação d*enviado ex- 
traordinário e ministro plenipotenciário para a 
corte do Brazil. 

Em Junho ou Julho do mesmo anno de 1836» 
tendo os deputados da epposiçao deliberado crear 
um jornal politico» entrou o poeta, para essa' sor 
ciedade» e fnndou o periódico com o titulo. d& 
Portugmz Constitucional^ e colaborou-o — creio 
eu *- alguns números» mas pela revolução de Se- 
tembro deixou de tcmiar parte na redacção. N'es- 
te tempo recusou-se a acceitar variou empregos 
que lhe offereceram» como o lugar de Presidente 
do Tribunal superior do Commercio» e de Conse- 
lheiro do Supremo Tribunal de Justiça» e também 
uma pasta n'um ministério composto d^individuos 
seus amigos pela maior parte. 

Dando de mão a todos ^tes offerecimentos 
que lhe faziam a todo o momento», pediu em com- 
pensação a S. M. F. que fosse condecorado com 
^ medalha da Torre e £spada» o cavalieiro inglez 



145 

. .. . II^^I J ' » ! II I .1 .■ . 1 ■ I I ■ .1. -I I II» II ■ I I II ■■ ■ II 11—^ 

"' '■■*■' — ■■ ■ , » ^ 

Joao.Adamson, pelos grandes serviços que prés-, 
tara a Portugal e sua litteratura, escrevendo as 
suas bellas Memorias de Camões. O mesmo solí- 
átxm para o digno historiador Roberto Soutbey, 
que escrevera a magnifica historia do Brazil. Estes 
dois * cavalteiros foram agraciados promptamente 
pela senhora D. Maria II que mandou declarar 
nos , despachos, que essas concessões eram feitas 
em attenção a João Baptista d'Almeida Garrett. 

O poeta ficou penhoradissimo á Soberana por 
ver que Ugava tanta importância ás suas petições, 
e lhe dispensava tantas sympathias, a ponto de 
declarar que concedia honras e condecorações a seu 
pedido. Em 9 de Novembro d'este anno, foi o 
poeta nomeado Juiz do Tribunal do Gommercio 
de Segunda Instancia, lugar que acceitou de boa 
vontade, e em 14 de Novembro do mesmo anno, 
agraciado com a carta de conselho, e o diploma 
de cavalleiro da Ordem da Torre de Espada do 
Valor Lealdade e Mérito. 

Passados alguns dias recebeu o cargo d^inspe- 
ctor geral dos theatros e espectáculos nacionaes. 

Em 16 de Dezembro foi nomeado vogal da 
commissão encarregada de organisar as cortes 
geraes e constituintes dà nação. Por occasião de 
solicitar a mercê Real para os dois cavalleiros 

ALMEIDA GARRETT 10 



146 



Adamson e Soutiíey; pediu também qcie' se fizes- 
sem cavalleiros de Chrâto, o barão de Reifem^ 
berg, illostre sabk) da AUemanha que prestara 
grandes serviços a Portugal e á rainha no tempo 
da emigraç3o, e o director do observatório de Bru- 
xellas, Mr. Quetellet, pbiiosopho e litterato dis- 
tincto. Nos priDcipios de 1837, foi Oarrett no- 
meado enviado extraordinário e ministro plenipo" 
tenciarío para a corte de Hespanlia, mas não pô- 
de tonaar conta d'esse cargo porque fora então 
eleito depfatado ás cortes de 1836 a 1838, peta 
provincia do Minho, e pela ilha onde passou o 
fim da infanda e principio da adolesc^cia no re- 
gaço da familía, e embalado pelas saãs doutrinas 
de D. Frei Alexandre da Sagrada Familia seu tio 
e mestre. N'este tempo era Garrett membro ho- 
norário da Academia das Bellas artes de Lisboa 
e d'outras associações. Escreveu também este an- 
no^ e publicou, o Manifesto és Cortes Constituin- 
tes da Nação. Sendo pois eleito deputado e 
tendo um lugar aberto na tribuna, pode o 
grande poeta mostrar ás turbas embasbacadas, a 
soa subida eloquência, e a expoútaneidade da pa- 
lavra, que já divulgara inda joven, no tribunal, 
onde fora chamado para responder pela sua com- 
posição poética qoe já citeis o Betram de Vénus! 



147 



Era «sta talvez, a primeira vez, que^estremecia o 
vasto edifício de S. Bento, com os brados d'um 
orador robusto 1 Era a primeira vez que a nume- 
rosa assemblea borrifava as camarás, com lagiúr 
mas arrancadas ao som das palavras inergicas 
d'um poeta I 

Aqueiles que tinham ainda nos ouvidos, os ecr' 
cos iBoiestadores de passados oradores, levavam 
ps^so a passo, os lenços ás pálpebras, para es- . 
tancar as torrentes impetuosas que lhe rebentar 
vam das orbitas, que tremiam com os olhares 
peneb^ntes d^aquelle génio superior e brilhante, 
que. imperava forte e vigoroso sobre a grande. . 
assemblea! O grande orador, derramando aquei- 
les jaetõs de sublimes pensammtos, sobre o au- 
dictorio estactico e silencioso que o escutava n'es- 
ses deliciosos momentos d'altíva e nao imitada 
inspiraçlo, e fazendo silenciar profondamente até 
os S6!»s ^mais encarniçados adversários da palavra^ . 
assimiihava*se a esse grande colosso de Rhodes, 
mirando do alto engrandecimento, as camadas de 
pygmeus, que< o admiravam assombrados, envol- 
tos no lodoso rastejamento em que jaziam esque- 
cidos. Tudo era pequeno e enfesado ante aquel- 
le YuHo gigante, que ninguém ousara acommet- 
ter! Tudo tremia e enfiava, quando elle batia com 



148 



altivez e vehemencía as robustas azas da inteUí- 
gencia, remontando as erguidas regiões, onde a 
nenhum orador fora dado chegar. Até José Este- 
vão, o próprio José Estevão, o Eschines portu- 
guez, e talvez primeiro orador nos conceitos 
oraes, exactas e engraçadas comparações, e ci- 
tações eruditas que apresentava no discurso, mui- 
tas vezes tremeu e vacilou, para lhe responder 
e afifogou no peito a palavra fulminante que lhe po- 
voava os lábios, com que pretendia cortar o dis- 
curso do enthusiasmado orador. Éra que o exal- 
tado Estevão, receiava perder n'aquelie oceano 
d'ouvintes, o qne já tinha colhido em dilatados 
debates parlamentares, — a profunda sympatíiia, 
e alta estima que os portuguezes lhe tributavam! 
E quem nao confrangiria o animo e a vontade, 
ante a figura arrogante e intelligente, do gigante 
cantor de Camões?! Quem entraria na louca em- 
preza de querer apagar-lhe aquelle fogo, que re- 
verberava nas frontes dos demais oradores, e lhes 
oflFuscava a pequena luz do espirito?! 

É que José Estevão nunca havia conseguido o 
que Garrett fisera ao dar a primeira passada so- 
bre as aras I — tomar o pulso a toda aquella 
caterva d'aspirantes a oradores, e mesmo aos já 
consummados — José Estevão era fogoso, elo- 



149 



quente e dominador, mas esse mesmo fogo quei- 
mava-lhe quasi o uso da razão, e o resíduo d'el- 
la, fugia-Ihe por fim, impellido pelos ventos, as- 
soprados por aquelles que brandiam as mesmas 
armas e na mesma área que elle pisava na luc- 
ta. Garrett esse, era já um génio muito differen- 
te, e uma razão mais. firme e pensadora, um ta- 
lento mais profundo! Todas as suas palavras 
saiam sempre cheias de convicção e robustez f 
Não titubeava para divulgar- os seus pensamen- 
tos, como esses oradores que estão sempre repe- 
tindo o fatal digo, que rouba inteiramente o me- 
recimento e a força á oração, que acaba quasi 
sempre com a friagem do gelo. . 

Garrett, era sempre firme e inquebrantável, 
nas suas afiBrmações ou negações. Jamais as ca- 
marás o ouviram pedir desculpa dos erros que 
commettera no calor da discussão, como aconte- 
cia a José Estevão. Essa fraqueza, humildade, 
sede à'applausos, ou não sei se diga ignorância, 
que possuía o maior emqlo d' Almeida Garrett, 
nunca girava nas veias d'este. O. poeta orador 
nunca descera á humilde posição d'Estev5o ; nun- 
ca se arrependera de proferir os dictames que 
sentia ferver no coração, e lhe subiam ao cére- 
bro em cachões indomáveis. Era a viva imagem 



150 



do positivismo; não retirava as nobres filhas da 
sua lingua, porque eram expellidás pela álma, e 
estrivavam-sé logo sobre ò amplíssimo estrado da 
verdade nua e crua. Depositadas ahi, as suas 
francas e leaes opiniões, jamais o deixariam man- 
chado como o soro abominável da mentira. 
Garrett, não fallava com os lábios, ou faltava pe- 
los lábios: as suas palavras saiam espontâneas 
dos mos d'àlmay e voavam aos ouvidos dos 
ajunctamentos, sem que a lingua tivesse tempo 
de as emprazar um instante, para lhe tirar a for- 
ça que trasiam d^aquelie vaso inestimável. 

Garnett, era um d'estes geíiios pbenôm^aes, 
que em cada palavra legam ao mundo uma gran- 
de sentença, e fertilisam os torrões encadecidos 
pela aridez da atmosphera com cada pegada, 
que imprimem na terra; cujas lagrimas^ nutridas 
com o amor da pátria, lavam complectamjente a 
ignorância d'um povo I Haviam momentos em 
que se exaltava tanto em fallar de passadas 
desgraças e vecessitudes suas e alheias, que se 
lhe enluctavam os olhos, e soltavam intensas ca- 
choeiras de pranto, que lhe subia ali sob a in- 
fluencia dos seus sentimentos nobres, e puros affe- 
ctos que alimentava pelos irmãos oppressos! 
N'essas situações de excessivo enthusiasmo, cu- 



151 



Jos eccos enterneciam os corações mais impeder- 
nidos, não era o homem que fallava, o orador que 
buscava termos fulminantes para verter sobre um 
montão de homens d'uma classe mais humilde^ 
ou illustrada que a sua, nem mesmo o poeta 
que dilirava sobre os bordões cançados d' uma 
lyra apaixonada, não; eram as cordas mais inti- 
mas da alma d'um génio privilegiadp, que vi- 
bravam aos sopros d'um coração generoso, que 
se debatia em guerra de morte, com as lufadas 
procellosas que tentavam cortar4he a passagem 
que operava no caminho da virtude e da lealda- 
de, para que. seus irmãos o seguissem até chegar 
ao templo da felecidade. 

Não era a lingua que dictava o prospecto da fu- 
ctura tranquilidade dos povos, era a alma que 
suspirava, na incerteza de saber se os seus ais 
eccoariam no céu. Era o amor que consagrava á 
pátria, que o transportava a essa elevação des- 
medida, onde bebia aquelle génio arrebatador que 
ali derramava ; eram as ideias amargas que inda 
lhe povoavam a mente, do que soffrera em prol 
,da terra onde abrira os olhos pela primeira vez, 
quando viu seus altares profanados, pelos ho- 
mens que constituíam a tyrannia que ahi reinou 
alguns annos : era o. anciar fervoroso que alimen- 



ISS 



tava> àp não medir mais, os dédalos pavarosos 
qae topara darante o seu vaguear de per^iDo 
por climas estranhos, debaixo de soes e ventos 
que lhe crestaram a fronte durante o seu viver 
de miséria. 

Conheeia-se n'aquelle ser previlegiado uma tão 
vehemente' força moral e persuasiva, que nao 
parecia robustecida ao sopro dos ventos terres- 
tres, mas abençoada e deposta nos seus lá- 
bios eloquentes, por Âquelle que creou o céu e 
a terra^ o bom a o mau, que é juiz superior, 
entre todos os juizes que julgam os actos dos po- 
voadores do mundo. Era a voz d'um aqo que 
descia á terra, para abafar o ecco pestilento das 
paixões desenfreadas d'alguns membros que cons- 
tituem este amalgama incommensuravel, onde 
chafurdam os entes virtuosos, no lugar que era 
destinado aos réprobos; 

Garrett' era grande, muito grande, grande poe- 
ta, grande orador, grande dramathurgo, grande 
publicista e grande alma, como poucas teem ha- 
vido na nossa terra. Era grande, sim^ ninguém 
o nega, mas no meio de todas as suas grandezas» 
também provou por vezes, algumas rebeldias do 
estro. N'esses instantes ou momentos de contra- 
dicção — faça-se-lhe justiçai — via-se-lhe pairar 



1^3 



no rosto pallido^ e ás vezes affogueado, ym ama- 
rello vislumbre de cólera e despeita, mas que el- 
le dissimulava promptamente, com o sorriso sar- 
cástico de que soube usar sempre com maravi* 
Ihoso êxito. 

Mas aquelle sorrir de cynico, que tinha pen- 
dente dos lábios perante as mais apertadas si- 
tuações, não brotava certamente do seu peito 
sensivel e generoso; alimentava-o só exterior- 
mente, para sustar o peso da maldição dos ho^ 
mens que tentavam derrubal-o a toda a hora, do 
atto do seu pedestal. Era sublime contemplal-o> 
em briga renhida com os dois únicos elementos 
que o estimulavam para arrancar a espada de 
sceptico, e cobrir-se com o manto do cynismo, — o 
desejo de revelar os seus Íntimos pensamentos, 
debatendo-se em guerra medonha com a musa 
oratória, que se recusava a inspiral-o quando as 
suas tendências ^am para batter, e menospre- 
sar, as loucuras que lhe repercutiam nos ouvi» 
dos, e via commummente sanccionadas pelos de- 
putados que nada iam fazer ás cortes em provei- 
to da pátria, que precisava quem lhe desse apoio 
e nao a fizesse descer aos abysmos da extrema 
aniquilação? Foi assim que este talento superior 
e monstruoso, entrou na liça oratória, ladeado 



154 



pelos ^versarios enraivecidos, qae deposeram 
vergonhosamente a arma da cobardia. Foi um 
génio incomparável no nosso século ! Prineipe ou- 
sado em todos os themas em que mettea o pé 
pela primeira vez : caudilho exforçado em todas 
as missões de que o encarregaram. 

Nmguem como elle, soube manejar o florete 
deffensor nas aras parlamentares, contra os cem* 
tendores sophistas que o atacaram á queima rou- 
pa; ninguém como elle, soube atravessar a barra 
da intelligencia, no caminho que seguiam os Zoi- 
los no campo das lettras ; ninguém como elle 
soube receber o choque dos desappontamentos 
da vida, que sempre o seguiam de perto! Nin- 
guém se resignara mais, perante os soes enve- 
nenados qne lhe beijaram as lábios, deixando-lbe 
por legado a descrença e o sepcticismo; nin- 
guém ousou lançar a mais leve passada alem da 
sua, mas atreveu-se elle a deital-a á frente de to- 
dos. 

Viu-se-lhe adiantar o passo á frente do gran- 
de Coelho de Magalhães, o orador que não estre- 
mecia diante de ninguém, e zombava do medio- 
cre cabedal dos que oravam a seu lado; e en- 
tão, escutal-o com a fronte baixa como quem te- 
mia ser fubninado por aquelles olhares de fogo 



15b 



que Garrett assestava sobre o audictori^ quando 
soltava a voz eloquente. Almeida Garrett, o ora- 
dor que era agora respeitado e querido como um 
enviado de Deus, fora recebido nos seus princí- 
pios políticos como o grande apostolo do Orien- 
te, o leal discípulo de Loyola, o foi outr'ora pe- 
los rústicos malequenses ; mas os que antes o 
maldisiam e atacavam com a sanha do tygre cur- 
vavam-se por fim humildes ao vel -o passar, e ado- 
ravam-n'o. Com Garrett succedeu quasí que a 
mesma cousa. Os homens que o perseguiram ao 
vel-o nascer para a tribuna, confessaram-se ven- 
cidos finalmente, quando o viram erguer-se aci- 
ma de todos, e rangeram os dentes invectivando 
a sua própria impotência, como Satanaz mordendo 
na cauda quando S» Miguel o despenhou no in- 
ferno! E o nobre deputado envolvido em tão gra- 
ves e trabalhosas occupações ainda lançava os 
seus meigos sorrisos para as suas pobres obri- 
nbas como elle lhe chamava. 



«Fraco homem de iettras sou, ~ nâo 
(T presumo d'ellas, mas nunca prostitui 
«a minha prosa Q'uma mentira, os meus 
«cversos Q'uma lisonja.» 

(Garrett.— Discursos) 



IX 



Tendo-lbe sido como deixo dicto acima, en- 
carregada a inspectoria geral dos theatros, e es- 
pectáculos do reino, comegou por esta occasião 
a trabalhar com infatigável constância, para pro- 
mover a instrucção d^ homens intelligentes para 
a litteratura dramática, bem como n'outros gé- 
neros, creando logo com muito trabalho o Con- 
servatório, edificando o theatro normal, e instru- 
indo artistas escolhidos para a scena do novo 



^38 



theatro qae elle promettia crear com as suas pe- 
ças, todas thesouros de sublimidades litterarias, 
como ainda não se tinham visto n'esses casarõfô 
d'espectaculo, qae eram a vergonha da nação. 
Jqncto com estas bellas instituições creou tam- 
bém uma meza de censura para as obras thea* 
traes que seus auctores destinavam á represen*^ 
tacão, cujas funcções estavam incumbidas aos e^ 
clesiàsticos. Garrett protegeu sempre com sincer 
ra cordialidade e boa vontade, todos aquelles que 
o consultavam, como titteratos, artistas, e todos 
os mais em que os seus profundos estudos podiam 
influir. Nunca fora orgulhoso nem déspota este 
grande beroe da historia litteraria do nosso paiz. 
Ensinava o que sabia, e empregava todos os meios 
que estavam ao seu alcance, para arranjar quem 
ensinasse aos outros o que elle ignorava. Acon- 
selhava todos com a pura aífabilidade quetiidia 
sempre' n^aqueUa alma de poeta ; não era doestas- 
sabichões balofos da moda, :iue pretendem abra- 
çar o céu e o mundo, ô repelem os que se 'vão 
alistar nas mesmas fileiras. Garrett nâo era as- 
sim: qnem o procurasse, encontrava n'elle sempre 
palavras meigas e de consoladora esperança, que 
s3o talvez as melhores academias, o melhor cur-- 
so, o melhor apoio que o homem pode encontrar; 



159 



o báculo mais firme onde se apegue para lançar 
a mão aos ramos do erguido loureiro, e laurear 
a fronte que guarda o génio, muitas vezes denU'o 
do invólucro da timidez. Ahi temos para amos- 
tra do que foi o denodado escriptor, e do que os 
seus estudos o os seus maduros conselhos servi- 
ram, o nosso distincto poeta Francisco Gomes de 
Amorim, digno de todos os respeitos e elogios, 
pela gratidão e saudade que sempre guardou 
pelo mestre que lhe afinou as cordas magnificas 
d'aquella lyra, que começou a desferir as primei- 
ras harmonias ao som do farfalhar ruidoso das 
palmeiras da America, e dos bramidos do colos- 
sal Amasonas. 

Em II de Junho de 183S, começou Almeida 
Garrett a compor com toda a solicitude o Aticto 
de &l Vicente, esse drama verdadeiramente por- 
tuguez que abriu com feliz successo as portas ao 
theatro moderno, e o expurgou das nauseantes ca- 
taplasmas dramáticas que haviam tido principio 
no antigo theatro do Bairro-Alto, e ainda se fa- 
ziam ouvir então no fundo e arruinado barracão 
da rua dos Condes. Esta magnifica obra do au- 
ctor do Catão apresenta-nos um quadro suffici- 
entemente avivado com as côrés da época de el-^ 
rei D; Manuel, do caracter apaixonado do poeta 



ICSO 



das Saudades, e do jocoso Gil Vicente, cogiKxni- 
nado o Planto Portugmz) que fez os alicerces pa- 
ra o nosso theatro antigo com os seus actos. De- 
pois de complecto este bello trabalho, apreseutoo-o 
o poeta no thealro da rua dos Condes para en- 
trar em ensaios, o que logo se fez, tendo logar 
a primeira representação na noite de 15 de Agos- 
to do mesmo anno de 1838, entre os applausos 
vertiginosos, e bravos dos espectadores que todas 
as noites enchiam o theatro. Este drama foi im- 
presso pela primeira vez em 1841, juncto com a 
tragedia Merope, que nunca tinha sido impressa 
até ali. 

Por esta occasiãe soUicitou o novo dramathur- 
go, da bondade Real, que fossem condecorados dis- 
tinctamente os melhores litteratos e artistas qne 
então floresciam, e pôde alcançar a medalha da 
Torre de Espada para o seu Ulustre amigo e col- 
lega, que Deus conserva ainda entre nós para sus- 
tentáculo das nossas lettras, o sr. Alexandre Hercu- 
lano — o inspirado creadpr ou animador d^Eurico, 
essesacerdote guerreiro, e da virgem e apaixonada 
Hermengarda, a victima do soberbo e ambicioso 
duque de Cantábria seu pae, e auctor de muitas 
outras obras que serão sempre universalmente es- 
timadas, e jamais deixarão de occupar lun lugar 



164 



distiaeto nas livrarias dos homens que amam ápai- 
xonadamente as bellas-leUras, e os ctiUores da 
ideia que souberam prafaudar o coração humano. 
Igual mercê, pôde alcançar Garrett para o sr. An- 
tónio Feliciano de Castilho (boje visconde) o pro- 
fundo auctor da Novíssima Heloita da Chave do 
Enigma^ do estudo poético acerca de Camões, dos 
Ciúmes do Bardú, e de muitos opúsculos que a 
nação foltiêa com avidez pelo seu grande mereci- 
mento poético e philosophico ! ! I 

Pouco depois foi também agraciado com a me* 
dalha da' ordem de Cbristo, a pedido de Garrett, 
o dislincto actor Epiphanio Aniceto Gonçalves e 
outros lidadores do theatro, como scenographos, 
e vários indivíduos pertencentes a diversos ramos 
artísticos e scíentificos, que se cultivavam no con- 
servatório que ellé havia instituído com todos os 
seus exforços. 

Até áquella época ainda se não tinha premia- 
do devidamente no nosso paiz um operário da^ 
ideia, ou um artista de talento superior, como 
tantos que nasceram sob este -delicioso fiima- 
mento, e morreram sem premio, como Pacheco, 
Albuquerque e Camões! 

Vergonha 1 1 Foi necessário que surgisse Garrett 
(Ventre os espinhos do desterro, para dar o^s(3 

ALMEIDA GARRETT 11 



162 



grande exemplo aos nossos reis — ensinal-os á re- 
compensar os serviços dos homens extremados 
por talentos e virtudes, como tantos gigantes Lu- 
sos que a sociedade percebeu só para os marty- 
risar e matar com fome e apupos. 

Se este grande génio tivesse nascido tresentos 
annos antes e presenciasse os quadros desolado- 
res que pintou no seu Cainões, nâo teria o prin- 
cipe dos poetas portuguezes acabado os dias 
tao desamparadamente, entre seus irmãos, que è 
um labéo vergonhoso, estampado na fronte dos 
descendentes do grande vencedor d'Ouríque! , 

A viQtima da hypocrisia vil dos falsos conse- 
lheiros, (1) havia de se mover ás expressões do 
cantor de D. Branca, e o amante da infeliz Na- 
tércia seria bemidicto e acatado, pela corte da 
monarcha que perdeu a vida em ÂIcacer-Kibir, 
e premiado pelos seus trabalhos d'espada e pen- 
na. Mas desgraçadamente, Almeida Garrett só ap- 
pareceu entre nós, quando os ossos do grande 
Luso eram jà extinctos n'uma sepultura ignorada 
pelos portuguezes! 

£ pena que existências tão sublimes como a 
de João Baptista, só appareçam na terra de se- 

(1) D. Sebastião, 



163 



Gtilos a séculos; e o que ainda é mais lamenta-^ 
vel é gue a sociedade que os rodea, não possua o 
necessário grau de inteHigencia para os compre- 
hender, e só lhes chame gigantes quando desap- 
parecem do mando, perseguidos pela miséria e 
pela infâmia dos que embalançam thuribulos em 
derredor dos tbronos onde se assentam os monar- 
chas. 

Se os agraciados ficaram gosando uma gran* 
de reputação e alcançaram uma coroa de gloria, a 
Garrett coube ainda muito maior gloria, porque foi 
quem ceifou os louros com que a fabricou para 
os condecorados. 

Procedendo-se ás eleições geraes pelos fins de 
1838, foi o nosso poeta eleito deputado pelas 
ilhas dos Açores, e continuou com as suas calo- 
rosas discussões, que chamavam todos os dias a 
S. Bento um ajunctamento escolhido e numeroso. 
Algumas horas que lhe sobravam das grandes li- 
das camarárias, aproveitava-as n'um perfeito es- 
tudo, e projecto de lei para garantir os direitos 
de propriedade litteraria em Portugal ; projecto 
que apresentou depois de inteiro, nas camarás, 
para ser discutido e resolver-se aquelle assum- 
pto, que era o pensar constante d'alguns homens, 
havia já muitos annos, e que não tinham conse- 



164 



guido concluir, apesar das altas diligencias que ti- 
nham empregado. 

Consta que este projecto de lei do grande ta- 
lento, é concebido sobre bases tão solidamente 
construidas, e ideias tão ampla e elegantemente 
desenvolvidas e sensatas, que faria inveja aos pro- 
jectos dos estadistas mais notáveis das outras na- 
ções. — Correndo logo impresso este primor d'es- 
tylo e pensamentos inteiramente novos, foi parar 
ás m3os'dos homens mais sábios nacionaes e es- 
trangeiros, recebendo uma honrosa homenagem 
dos litteratos e estadistas da Allemanha, que vive- 
ram com Garrett em varias cidades onde elle es- 
teve, e d'oulros que o estimavam conhecendo- 
' lhe apenas aquelle nome que soava já grande e 
altivo nas terras mais illustradas da Europa. Es- 
tes preciosos lavores litterarios, filhos de profun- 
das meditações no regaço do silencio, foram no fim 
de muitos debates, approvados em parte pelas ca- 
marás dos deputados, em 1840, e passado isso es- 
queceram-n'os redondamente sem que podesse vi- 
gorar essa lei, por não ter sido commumente ap- 
provada pela camará dos dignos Pares, e pas- 
sou muito tempo sem se fallar em tal assum- 
pto. 

Em 2 de Julho d'esse anno de 1840, foi Garrett 



165 



nomeado plmiipotenciarfo do governo, para con- 
vencionar um tractado de commercio e navega^ 
çâo com a republica dos Estados Unidos da Ame- 
rica, cujo governo, solicitava essa convenção com 
Portugal desde muitos annos, e nunca se conclui- 
rá, apesar de se entregar o desempenho d'ella, a 
vários homens públicos, que sempre a deixaram 
aquasi no ponto de partida. 

Garrett pôde avançar mais, e em menos espa- 
ço de tempo de que os seus passados. Começou 
a desempenhar essa commissão, com a influen* 
cia que se dava às coisas, de que o encarrega- 
vam, e conseguiu assignal-a e conciuíl-a nos fins 
d'Agosto do mesmo anno. E alem de todos estes 
trabalhos a que se entregava, e negociações de 
grande responsabilidade, tinha a seu cargo corri- 
gir, emmendar e dirigir a edição das suas obras 
complectas que vendera por esse tempo á muito 
acreditada livraria, conhecida em quasi todo o 
mundo, que gyra sobre a antiga e acreditada fir- 
ma de Viuva Bertrandá Filhos, estabelecida pró- 
ximo da egreja dos Marlyres. Esta nova edição 
coBQeça por Camõesj Catão, e Auto de GU Vicen" 
te, etc. Em 1837 era o poeta presidente honorá- 
rio da Sociedade Escholastico-Philomatica Lisbo- 
nense^ e. no principio de. 1840, membro corres- 



166 



poDdente do iDstituto-bistorico e geograpbico do 
Brazil. 

Abertas as camarás de 1840, precedidas pelo 
gabinete de 26 de Novembro de 1 839, e estreita* 
mente apertadas pelos deputados dos bancos da 
esquerda, pode o ministério alcançar o favor dos 
votos do centro, com que triumphou o poeta, 
tomando por essa occasião o iogar de primeiro 
orador do centro, bonra devida ao seu conbecido 
talento, e ainda mais á cordial amisade que Ibe 
tributava o seu amigo, e coilega na tribuna^ Bo* 
drigo da Fonseca Magalhães que servia então in* 
terinamente de ministro e secretario d'estado dos 
negócios estrangeiros, funcções que chegou a 
exercer eíFectivo, em Junho de 1841. N'estd tem- 
po era Garrett sócio honorário da Associação dos 
Advogados de Lisboa, e d'oulras. N'esta sessão 
das camarás de 1840, Garrett, dispunha-se a 
combater inergicamente as vans opiniões dos ora- 
dores da esquerda, e sendo provocado d'aquelie 
lado antes que desse motivos para isso, tossiu 
assoou-se e ergueu-se, rugindo, qual Lycurgo ar- 
remettendo com Leocrates, e alongando os olbos 
sobre o expesso maltagal d'ouvintes, prorompeu 
n'um discurso de tanta força, que levou ab" cama- 
rás ao maior grau d'exaltação e temor! Dominou 



167 



todoâ e o próprio ediOcio, é muito natural que 
sentisse um abalo n'aquella occasiao. Este dis- 
curso de grande superioridade foi preferido para 
refutar as ideias do primeiro orador da opposi- 
ção, José Estevão, sobre o discurso da coroa re- 
lativo a questão ingleza, € o poeta intíiulou-o 
Porto Pyreu, por comparar ali os seus adversa- 
ria» com um celebre louco-sonbador da Grécia. 
Este rasgo sublime e grandioso do parlamento 
portQguez, è tão cheio de eloquência, puras ideias, 
e imagens tão magnificamente debuxadas^ conceitos 
tão firmes e convincentes, que os homens mais 
experimentados em pugnas oraes que se achavam 
nas camarás n^essa hora de espectação e delirio, 
afirmaram e affirmam ainda que é o melhor flo- 
rão que existe nos annaes da tribuna portugue- 
2;af Dizem que atearia a chamma da inveja ao pró- 
prio Demosthenes se vivesse ainda. 

Para se ter a certeza que foi um discurso de 
grande mérito, não era perciso possuir-se a subi- 
da intelligencia que se necessitava para lhe pene- 
trar no âmago, e tomar conhecimento com as ex- 
tremidades; bastava presenciar o espanto com 
que todas as camarás o receberam, e o silen- 
cio que reinou em tamanho labyrintho durante 
mais de duas horas que o poeta gastou a proferil-o. 






t68 



O iilustre* dôputado» depois de àmr que aão 
fâsia maior caso das calumuias que lhe teciam os 
seus adversários, espalha iias camarás estas pala- 
vras que peneiram como bailas nos corações pros- 
tituídos dos seus emuladores, fazendo abaixar os 
olhos a uns, e rugir de raiva a outros : 

«Por mim, ladrem todas as gargantas do cão 
infernal, que nem me importa açaimal-o defpd^a, 
nem uma sopa lhe bei de dei lar para lhe calar 
um latido. 

aComo cidadão nunca renunciei um direito, 
nem que me custasse a fazenda, a vida, a pátria: 
tenho-o provado nos cárceres, no exilio, qa misé- 
ria... 

«Como súbdito nunca faltei a. uma obrigação: 
e não menos assellei. a minha lealdade. 

«Como portuguez, nem um pensamento leve, 
momentâneo — chegou a cruzar-me inda no cére- 
bro de que não possa vangloriar-me á face do 
mundo, 

«Gomo funccionario publico, quiz minha boa 
estretla que ainda não estivesse em lugar a que 
podessem chegar nem tis suspeitas da inveja... 

«Fraco homem de lettras sou, não presumo 
d^eJlas, mas nunca prostitui a níinha prosa n'umd 
mentira, os meus versos n'uma lisonja. FaUem 



169 



esses opúsculos que> a nação ipin^tugueza ainda 
tem 9 indulgência de ler. Fraco soldado fui, o 
ultimo o derradeiro d'essa phalange em que tan-^ 
tos morreram para nos immortalisar a todos. Mas 
nSo fiquei nos bailes de Pariz ou nos pasmato- 
rios de Londres (1) em quanto os meus compa- 
triotas vinham encerrar-se nos débeis muros do 
Porto ; nem a minlia mão apesar de imbelle e 
doente, recusou pegar na espingarda de soldado 
para ficar nas reservas de França e d'Inglaterra, 
manejando a penna censória que tudo achava 
máu, quanto se fazia pelos que expunham a sua 
vida por elles. Cobri-me de vestido grosseiro, 
nutri-me do pSo grosseiro do soldado razo, nun^ 
ca tive outra paga e outra etapa, fiz como os ou- 
tros sem ser valentão; e a débil pegada que o 
meu obscuro pé imprimiu nas praias do Mindel- 
lo ha de ficar gravada na historia, como a dos 
bravos, cujos heróicos feitos rodeiam d'uma au- 
reola de gloria, os francos serviços de seus honra- 
dos companheiros, que, para o commum empe- 
nho não deram pouco no que deram, porque era^ 
tudo quanto tinham. 



(1) Palavras de Josó EstovSo. 



170 



«No Porlo Pyreu, estavam os que cobrindo as 
cazacas bordadas de brazões feodaes com a so- 
taiia de tribuno» escondendo debaixo d'ellas as 
decorações aristocráticas, iam fraternizar para os 
clubs republicanos a certas horas do dia; e n'ou* 
trás despida a sotana, iam ás escondidas intro- 
duzir-^e nos salões reaes, forrar as paredes do 
paço e desforrar-se em orgulho e vaidade, das 
horas da compressão em que tinham sido obri- 
gados a affectar Ibanesa e humildade. Como nos 
tempos de gloria da velha rua dos Condes e 
do Salitre quando o rei encoberto desabotoava o 
cazacão e proferindo a solemne palavra, íí^coiíâ^- 
ces-me? caia tudo aos pés do rei de theatro e o 
theatro com palmas e bravos ; assim snccederá a 
estes quando o povo em mais vasta plateia abrin- 
do-lbe a sotana de tribunos, vir por baixo as 
fardas bordadas em todas as costuras, o orgulho 
de õdalgos novos, a presumpção da gralha coiu 
as pennas de pavão. Também o theatro ha de vir 
então abaixo não com palmas, mas assobios e 
apupos! 

«No Porto Pyreu estavam os que. imaginaram 
que este honrado povo portuguez se tinha esque- 
cido de que pela Legitimidade lhe viera a liber- 
dade, que na fidelidade dos seus reis, tinha a me- 



171 



Ihor garantia d^ella, e a única de sua indepen- 
dência; que na religião de Jesu Christo — a só 
crença que professa a igualdade do homem — ti- 
nha o mais seguro amparo e fortaleza de seus 
direitos. Que assentaram que bastava dizer insul- 
tos aothrono, para que o throno ficasse impopu- 
lar; que bastava mofar da religião para que o po- 
vo abjurasse a religião de seus paesl 

O povo zombou d'elles 1 1 O povo curou-os 4a 
sua loucura, desenganando-os, amando a religião, 
respeitando ò throno e querendo a liberdade com 
ambos. O povo foi o seu medico, queixem -se d'el- 
le se podem, mas as receitas ahi estão— e ás visi- 
sitas do medico, ao menos não as pagaram. » 

E assim acaba o grande discurso do gigante 
poeta-orador ; do infeliz soldado da liberdade, 
do patríarcha das lettras, do talento incompará- 
vel a muitos respeitos. 

Toda a camará se sentiu dominada e assom- 
brada com tão altos e firmes brados. A própria 
pbalange da opposição confessou secreta e publi- 
camente, quanto era insufficíente para se medir 
com aquelle choupo altivo I E es§es oradores na- 
da mais lhe fizeram do que a justiça que elle me- 
recia, á vista d'aquelle rasgo inimitável de gran- 
dezas do pensamento. Tamanhos turbilhões d'e- 



f72 



loquencia não se podem comparar conscienciosa- 
mente na tribuna portngueza, se não com o vul- 
to gigantesco de quem os derramou sobre a as^- 
sembléa extasiada. Monumentos como este, não è 
dado a todos erguel-os, n'um jacto tão repentino 
e sublime, como aquelles com que Garrett fazia 
gelar o sangue nas veias dos seus renhidos oppo- 
sitores que se mordiam por não terem forças pa- 
ra- o imitar. 

Comtudo o arrebatado José Estevão, estriban- 
do-se imperioso e arrogante sobre o numerosís- 
simo partido que o cercava, para applaud ir os sots 
conceitos e convicções, respondeu-lhe alguns dias 
depois n'um extenso discurso sobre a ordem, e 
arremetteu fortemente contra as doutrinas do 
poeta, mas as suas imagens nunca tomaram as 
cores vivas, e as formas divinas, das que apre- 
sentara Garrett, nem alvoroçaram tanto os ouvin- 
tes. Mas ousadia, atrevimentos, e citações erudi^ 
tas já apregoadas mil vezes, não lhe faltaram des^ 
de principio até o fim do discurso, pelo que es- 
peraram longo tempo as duas camarás com de- 
monstrações de^bem visível impaciência. O com- 
petidor de Garrett disse precipitado e colérico 
depois de se confessar inferior, e vencido por 
João Baptista, que os louf os com que o poeta en- 



173 



ramava a fronte (l'orador> estavam envoltos n'um 
retalbo de manto cynico ; mas estas palavras de*- 
pressoras nada poderam humilhar o robusto ani- 
mador do vulto de Aben-Afan e da Menina das 
Roiccinoes^ por que o Porto Pyreu riu-se por essâ 
occasião d'aqQelIa caterva de... de envejo$os, e 
gargalhará sempre sem temor» de todas as bafo- 
radas parlamentares que tenderem degredar Gar- 
rett, do campo onde elle derramou os puros in- 
censos da intelligencia que lhe trasbordava d'a- 
quelle vaso inexgotavel, em que muitos ambicio- 
naram humedecer os lábios que sentiam estalar re- 
sequidos pela esterelidade do talento. IVIas nâo o 
conseguiram nunca, por que a taça onde o nobre 
poeta guardava alegrias e soffreres, crenças e de- 
senganos, baixou com elle ao regelo dos extin- 
ctos» entornando-se com a couMilsão temível que 
gyrou no envoltario d^aquella maravilhosa reU- 
quia, ladeada sempre de religião, poesia, e ^mor 
(la pátria. 

Então, quando o viram cair, alguns que o ro- 
deavam choraram vendo expirar aquelles raios 
vivificantes que brilhavam no pendor de sua fron- 
te respeitável; e outros resfolegaram com ruido- 
so enthusiasmo, porque já tinham auctorisação 
para dar á luz os seus feios pecos, e atiral-os ao 



174 



seio da sociedade, sem a presidência do humano 
coração d'algans parteiros que lhe censurassem 
' o procedimento. Assiçi desassombrados depois 
da morte do fogoso orador, e senhores das mul- 
tidões, tem alguns barateado mais facilmente, a 
honra, a pouca fortaiesa, e a independência da 
nação que lhes sorriu no berço, e vendido as pró- 
prias consciências, ao ouro vil dos infames. Gar- 
rett nunca seguira os passos doestes últimos ; sof- 
freria de melhor vontade os horrores da fome e 
a escuridão das prisões, os cardos do exilio — as- 
sim o provou muitas e muitas vezes — os apupos 
e maldições da cohorte indigna que lhe escarra- 
va nas pegadas, na impossibilidade de cuspir n'el- 
le, e os escarneos da prepotência encrespada, do 
que sacriGcar as crenças de verdadeiro patriota, 
que tinha pousado sobre o altar da immutabili- 
dade. 

Por esta época foi o poeta nomeado chro-, 
nista-mór do Reino, segundo alguns documentos 
que apparecem d'esta dacta. 

E o poeta andava atraz dos ministros para al- 
cançar tantas honras? Parece-me que não. 



kE vós, vós todos assemhlóâ illustre 
«Os erros desculpae do ingenno vate. 

<v Louvor e applauso 

«Nem o quero de vós, nem o supplico.» 

(Gàrrbtt.— Caíôo^ 



Dissolvidas que foram estas camarás, onde 
Garrett ganhara a reputação de primeiro orador, 
e colhera os mais gloriosos trophéus, recolheu-se 
ao silencio domestico, resolvido a descançar de 
tantas fadigas ; porém, passado pouco tempo co- 
nheceu que a sua imaginação não queria descan- 
çar, e principiou a procurar um meio de a intre- 
ter, porque reagia fortemente contra a quietude a 
que elle a obrigava, e os limites que lhe circum- 



176 



screvia. No intervallo que as cortes se conserva- 
ram encerradas, abriu o seu b,em concebido e 
proveitoso curso de leitura sobre historia, cujo 
prospecto de abertura llie attrahiu unaa immen- 
sidade de mancebos estudiosos que eram entre- 
gues n'esse tempo a mestres orphãos de auste- 
ridade e principies, para aquelle tão grave em- 
prehendimento, e que para Garrett fora objecto 
da maior facilidade. 

Annunciada a solemne abertura d'esse estabe- 
lecimento de novo género em Portugal, compa- 
receu ahi a corte, o ministério, quasi toda a di- 
plomacia^ as academias,' as duas camarás do par- 
lamento, os tribunaes, e alguns titulares com suas 
esposas, e muitas corporações e associações pu- 
blicas e particulares que encheram as vastissi- 
raas salas da escola do Carmo, cujo edifício esco- 
lhera f) poeta para estabelecer as suas prelecções. 

Cheias as salas de senhoras e cavalheiros, e 
quasi concluidos os preparativos para o grandio- 
so espectáculo, ao som de baixas murmurações 
do vasto audictorio, tudo esperava com viva an- 
ciedade o apparecimmto do poeta-orador, que. 
devia enternecer e fazer palpitar de gopo o cora- 
ção d'aquelles que sempre se sentiam impressio- 
nados coríi a sua Voz surdo-clara. 



177 



Todos estacavam sempre ante aqnelle.sem^ 
blaatò pailido» qae manifestava com grande van^ 
tagem as amargm^s tempestuosas qcíe Ibe tinham 
estalado o corpo» deixando-lhe por herança o con- 
tinão soffirimento, abraçado ao qual devia saccu-* 
dir a vida á borda do sepnit^ro, rojando-se n'es^ 
se pavoroso recintbo do esqnecimrato para rece- 
ber em saa fronte explendida a terra arrastada 
por nm coveiro miserável. 

Os eidos do grande aiidictorio» de cada vez 
se iQxtiQguiam mais na saia ! £ (pxe todos espe- 
ravam anciosos a cbegada de Garrett, e nao que- 
riam p^der as palavras que elle se dispunha a 
proferir n'aquelle grande acto. 

De súbito correu nas salas ma ruido mais dis- 
tincto, que foi graduabnente expirando, seguin- 
do-se-Ibe um perpetuo Meneio 1 Tudo silenciou 
então, como a fabrica a que travaram a machina 
de mt^vimento! Todo pareceu suster a respira- 
ção para nao cortar aquetie silencio t Era chega- 
do o novo corypheu da instrucção publica, que 
devia guiar os d^protegidos da fortuna ao tem* 
pio que atéli tinham buscado em \90. 

Garrett derramou om d'aqoelles olhares expres- 
sivos de poderoso talento sobre a escolhida as- 
sembléa, e tomando o logar que lhe pertencia oc- 

ALMEIOÂ GARRETT iâ 



178 



eupar> começou a proferir um discurso, em que 
manifestou a grande necessidade que havia d'uma 
escola de tal natureza em Portugal, para a real 
instrucçSo dos amigos da litteratqra, e mais scien-^ 
cias que encetavam, e se riam por fim na im- 
possibilidade de as levar o cabo por falta de quem^ 
os quad^juvasse; o plano que lhe parecia mais 
adopta vel para o fucturo estabelecimento; e os 
fructos que d'ali se podiam colher em proveito 
do paiz, onde os homens mais extremados em 
lettras e sciencias, começavam a inclinar a fronte 
para a sepultura, como o chorão que dobra so- 
bre o lago estagnado que lhe apodrece as falhas 
e a haste da vegetação. 

As ideias do poeta, foram commummente ap- 
plaudidas pdas numerosas corporações que pre- 
sidiam á festa, e viram-se humectados os alhos 
dos que prosavam as (H*ações do poeta, e lh& co- 
nheciam o viva desejo de instruir aquelles que 
eram pobres de espirito, por falta de bons mes- 
tres. Até se viram chorar d'enthusiasmo os pró- 
prios adversários públicos e particulares do gran- 
de orador, cujo timbre de voz, accendia um não 
sei que, que enternecia e dominava. Até os génios 
mais insensíveis e frios se sentiam n'aquelle mo- 
mento suspensos dos seus lábios, e constrangiam 



17» 



a custo, a respiraí^o, para conservar a sereni- 
dade Q(n que a assembléa descançava. No íim da 
discurso houve nas: salas um complecto delirio 1 
O audictorio deu então azas aos lábios que mal 
podiam domar a força de enthusiasmo,.e rompeu 
Q'uma exclamação unisona, cheia de bravos e pai-, 
mas: damas e cavalheiros, foram apertar a mão 
ao talentoso apostolo da instrucção; e elle rece- 
beu todas essas provas de sympathia e affecto, 
com aquellas maneiras nobres e delicadas que 
eram tão suas, e imperavam sobre a amizade de 
quem tivesse a fortuna de iractar alguns momen- 
tos com elle. 

Saindo parte do numeroso ajunctamento, após 
aquelles vivos transportes d'admiração, fícou o 
poeta ainda algum tempo no gabinete, conver- 
sando com os seus amigos, ajudantes e discípu- 
los, sobre a bella instituição e os applausos que 
recebera de pessoas tão instruidas e de qae não 
era merecedor, dizia elle. — Mas estas palavras eram 
filhas d'aquelle bocado de modéstia que sempre 
conservara, por que os seus trabalhos não me- 
reciam só applausos e palmas, eram dignos ainda 
de muito maiores honras — que eu não me aba- 
lanço afizer aqui. 

Finda a conversação com alguns diplomatas, 



18Ò 



■>il iKlliriMO— «WiaàMMBfc 



que ficaram pard o comprim^tar, e vários ahi- 
mnos do Conservatório, retiroo-se o (toas d'a- 
quelle tempio, aberto aos devotos do adianta- 
mento e propagaçiSo d^essa luz vivificadora 6t)ri- 
Ihante qae no nosso tnundo raeiottat se chama 
— instrucçSo dos povos menos protegidos de for- 
tuna, 6 bons mestres. 



ff Tem maus figados a tal g«n- 

atioha... Quebrou-se-lhes a arma do ri- 
ttdiculo, tomaram sem escmpulo a da ca- 
«lumnia. 

(Garrbr.— GU Victnh). 



XI 



Procedendo-$e ponco depois a novas eleições, 
em varies districtos do contíDente 6 ilbas adja- 
centes, foi Garrett eleito novamente deputado por 
um do$ círculos d'Ângra do Heroísmo, p(»r, Lis- 
boa e Víaona do Castello. Sabendo isto o poeta, 
ainda se enthusiasmon mais com o sea curso, a 
que continuavam a presidir as mais illustres no* 
tabilidades da corte, e um numero considerável 
de estudantes de muitas esperanças que ali <x)n* 



182 



corriam nos dias determinados. D'envolta com 
estes grandes serviços em proveito da pátria, c(T- 
meçou e acabou o 'poeta uma tarefa que só era 
digna de si e da sua penna robusta e cuidadosa. 

Foi o seu elegante dramazinho em três peque- 
nos actos, cuja acção se passa na época da exalta- 
ção geral dos mais leaes portuguezes em 1640. 
O drama é formado sobre a restauração dos nos- 
sos torrões pátrios, dás garras dos castelhanos 
que havia tanto, que nos pisavam sobre a terra 
que nos pertencia. Pintà-se ali com cores inalte- 
ráveis o caracter immutavel e resoluto de J7. Phi- 
lippa de Vilhena, cujo titulo pôz o poeta lo fron- 
tispício d'aquelle rasgo admirável da historia por- 
tugueza. Aguella scena em que Philippa estende 
o braço austero para seus filhinhos tenros empu- 
nhando a espada defensora, e os manda luclar 
até morrer pela indepeodencia da pátria, não é só 
uma obra cinzelada por um historiador attilado, 
mas também um quadro soberbo d'iim pintor 
que despertaria certamente a inveja no próprio 
Rubens. 

Como o poeta traça um drama sobre o peque- 
no mas excellente relâmpago histórico ! Que sym- 
pathicos caracteres, os dos personagens que elle 
apartou para a magnifica peça I E como é cor- 



1S3 



reDt6 6 portugueza aqnella linguagem que põe na 
bocca d'algumas figurasi 

Este bonito drama escreveu-o o auctor expres- 
samente para ser decorado debaixo da sua di- 
recção, por alguns alumnos de declamação do Con- 
servatório, escolhidos por elle. 

De tal forma os influiu n'este poocto, que cheios 
de orgulho pelas palavras que lhe ouviram, estu- 
daram em pouco tempo os seus papeis o mdbor 
que se podia desejar. 

Ânnunciado pouco tempo depois o ensaio ge- 
ral, e convidadas as mais distinctas famUias de 
Lisboa, e os principaes lidadores da scena portu- 
gueza, chamou Garrett os seus discípulos, e fel-^os 
entrar em mais um ensaio para que o desempe- 
nhassem como era necessário diante de pessoas 
tão intelligentes e de tão apurado gosto. O poeta 
não cabia em si de contente vendo a boa ordem 
e felicidade com que os novos actores lhe anima- 
vam as imagens que esculpturara com o cinzel de 
dramathurgo 1 

Chegou 'finalmente a hora marcada para a re- 
presentação I Entre os illustres espectadores que 
t> poeta convidara, viam-se suas Magestades Fi- 
delíssimas, d'onde. partiam a cada passo, as ap- 
provações mais animadoras, que os reaes espe- 



184 



ctadores tènoamaram no fim âo espectáculo, maD-- 
dando aos actores alguBS presentes^ de grande 
valor, e alta consideração. 

Garrett, no fim, mostrou-se penhoradissíma ásc 
Beaes Personagens que aM se achavam» e a to--, 
das as pessoas que se dignaram acceitar o con-. 
vitepara a.estrêa dos seus alumnos. 

Foi uma festa explendida aquella representa- 
ção da bella . composição dramática do sympatbi- 
CO cbronista mór do Reino 1 Foi um acto gran- 
dioso» como ainda se não tinha presenciado em 
Lisboa. 

Decorrido mais de meio, o anno de 1840, e 
reabertas as camarás, recomeçou Garrett as suas 
discussões renitentes e calorosas, a f^vor da re-» 
forma da instrucção e administração publica ; de^ 
bates em que colheu os maduros fructos que 
muitos deputados precedentes em vão tentaram 
empolgar para se ornarem a si e aos seus adu- 
ladores. Garrett colheu-os, mas não os foi cingir 
em nenhuma fronte que não a sua, porque a nion 
guem tinha que os agradecer senão ás suas opi- 
niões verdadeiras e sans, que alcançavam sempre 
a victoria. Os tentames de Jonio Dttriense (i) 

(1) Anagramma que Gaxrett usou na.infiE|acia. 



18S 



. !.■■ .^m. 



qaast que se podiam dizer sempre inteiras eie* 
cuç5es> porque formava-os sobre as suas convic- 
ções inquestionáveis, e não se dobrava ante quei- 
madores d'ineenso» e bypocritasl Dizia diante de 
todos aquelles qae pretendiam guial-o á estrada 
pedregosa» que era homem de si mesmo, e d» 
mais ninguém* que havia de dizer o que lhe mau* 
dava o coragao» e que nSo se curvaria jamaôs a 
negociantes de consciências, em que lhe custasse 
a vida ou os logares que os poderes pubUcos lhe 
mandavam occupar. Dizia-o e provou-o mais d'u- 
ma vez. A instrucçao, e a administração publi-^ 
cas, eram agora o seu pensamento continuo e in- 
quebrantável. Ninguém como elle até'li, soubera 
entrar n'este assumpto de tanto interesse para 
Portugal, e que jasia desde muitos annos abraça* 
do a um systema peco e maneta, que só servira 
para gastar sommas consideráveis aos govemos^ 
que n3o podiam com tamanho carregamento. Por 
isso, o poeta gritava com todo o vigor dos seus 
pulmões contra a vergonhosa pequice dos govei^ 
nantes que deixavam andar aleijados estes doia 
ramos de necessidade essencial. E aos brados re- 
tumbantes e crenças firmes dò poeta, iienhum dd* 
putado ousava fazer opposíçao, porque todos sa- 
biam que tinham as forças cuidadosamente fech^h 



186 



das na mão d'elle; e portanto, era tão certo cai- 
rem fulminados em terra, como a elle o comple- 
to e verdadeiro triumphol 

No parlamento de 1841 tinha forçosamente de 
se discutir uma grave e muito seria questão, com 
o governo da nossa visinha Hespanba; e era, 
que, não tendo o gabinete portuguez, dado o ne- 
cessário desenvolvimento ao tractado que ella nos 
tinha apresentado, para a livre e franca navega- 
ção, nas agoas das duas nações da península, por 
causa das altas barreiras que Portugal encontra- 
ra a transpor para levar ao termo essa conven- 
ção, a nossa fanfarrona visinha, começou a soltar 
tão aterradoras murmurações contra o gabinete 
de Lisboa que estimulou fortemente o nosso go- 
verno, obrigando-o a pôr-se de prevenção para 
arremetter com ella a toda a força, e fasel-a sN 
lenciar com gente armada que mandou preparar 
para guardar as fronteiras. Portugal erguia-se 
ameaçador, e gritava contra a ousadia dos visi- 
nbos d*aquem Pyrennèos, mas o ministério tre- 
mia, e as tropas recuavam por serem tão dimi- 
uutas à vista dos seus inimigos — e o povo andava 
offegante, embaraçado è cheio de terrores. 

Garrett era ministerial; e olhando at tento e 
flrme do alto da sua tribuna, para esses primei- 



187 



ros fumos revolucionários, conbeceu então intei- 
ra e profundamente a medonha crise em que se 
abalançava o ministério — fumos produsidos pelo 
fogo hespanhol, e assoprados pelos ventos portu- 
guezes, que apesar de brandos, foram sempre 
atrevidos, — e não querendo baquear vergonhosa- 
mente juncto com seus sócios imbelles, recebendo 
uma nódoa indelével em sua fronte respeitada, e 
ainda maior mancha na reputação já longamente 
conhecida ' e apregoada, abandonou o seu lugar 
d'oFador do centro ; e quando nos primeiros dias 
de Julho se organisou o gabinete, passou para os 
bancos da opposição, seguido do pesar roedor 
d'aquelles que havia defendido sempre com a 

mais viva inergia d'alma e coração. 
Não sabemos o que havemos de pensar sobre 

este tão estranho procedimento do illustre depu- 
tado, mas estamos firmemente convencidos que 
não practicou tal acto, sem pensar n'elle madu** 
ramente, e esquadrinhar com attenção, todas as 
faces dos motivos que o levaram a tal commetti- 
mentp. O ministério rugiu então terrível e amea- 
çador contra a resolução do poeta que o tinha 
salvado por tantas vezes de cair n'um pego, ca- 
vado pela pequenez e fraqueza, que* sentia para 
guiar a nau da nação sobre as ondas encapela*^ 



188 



das da pbalange oppositoría; mas Garrett conti- 
nuou a orar da esquerda, sem recolher os olha- 
res desdenhosos dos seus antigos rodeadores» que 
d'antes lhe fabricavam arcos trimphaes e lhe ata- 
petavam as aras com flores de aroma artificial, 
que eram sorrisos bypocritas, e palavras lison- 
geíras, como aquellas que o cavalheiro d^mdus- 
tria costuma dirigir^ aos homens que desconhe- 
cendo o que seja caridade, abrem a bolça e aca- 
tam com sorrisos os apóstolos da adulação. 

Pouco depois doeste acontecimento desconsola- 
dor» a 15 de Julho do mesmo anuo, eOectuou-se 
entre os tempestuosos debates d'uma assemblea 
enorme, a gravíssima discussão da lei da decima; 
e tendo o ministro da fazenda ofiendido impia- 
mente Almeida Garrett, este ergueu-se cheio d'in- 
dipàç3o, e pedindo a palavra em defeza dos seus 
direitos de bom cidadão, proferiu um discursa 
tão eloquente e caloroso, em que queimado pelo 
fogo da imaginação e pelo sentimento de ser ata^ 
cado tanto á queima«roupa, chegou a perder o 
metal de võz que sempre fisera eccaar n^aquelle 
edificio, gerador d* inimisades entre os homens que 
se deviam amar é viver em commum accordo -^ 
salvas as necessidades dos povos d'uma nação, 
tal foi a exaltação e arrebatamento com que elle 



189 



se m^goeu para reíbtar as ídmas» tornar de no^ 
Dbum efiEèito as arguições, e condemnar os ter* 
mos pouco decorosos que Ibe dirigira o seu com^ 
petidor, e as grosserias que l>af<Nrara em seu de 
saboQo. Àquellas inergicas palavras de Garrett* 
vibradas com a sanba yirtigínosa e potente do bO'» 
mem que se sente offendido no sen amor próprio^ 
pareciam recolhidas d'outra escola que n3o a do 
grwde poeta, e moduladas por entre a coiitrac^ 
ção indómita d'outros lábios, que nio estivess^n. 
affeitos como os d'elle, a sentir o peso dos audi* 
ctorios suspensos e commovidos. 

Este discurso de vasta eloquência, extremasse 
de todos os mais que proferiu o mesmo orador, 
em todo o decorrer da sua carreira politica^ em 
forma, estylo e extensões ; e o que é ainda m^is 
digno de ser mencionado, são aqueilas imagens 
tão extremamente vivas e nuas que nenbum ora^ 
dor ousara apresentar com resultados tão felizes 
c(Mno os que grangearam estas ante os olbos dos 
homens que sabem abraçar o bom, e afiEastar-se 
do Ínfimo, vil e indigno. A grande caterva de es- 
pectadores que presidia a este tremendo rasgo 
oral, olbava-o admirada e «lenciosa, e encarava-se 
mutuamente, mas não fazia a mais leve gesticu- 
lado nem articulava o mais singello som que a. 



190 



imgua pudesse fazer ouvir. Os seus antigas satel-- 
lítes, esses,... os seus passados derr amadores dUn^ 
senso, é que o encaravam com odío e rancor; 
esses que nos debates anteriores o applaudiam e 
admiravam, porque inda er^ ministerial e os ar- 
rancava das situações em que se enredavam^ 
d'onde sem elle lhes seria tão dijQScil a saida,<^o- 
mo ao lobo que caiu no fogo e sente o pescoço 
entre o forcado dos monteiros; eram os que 
agora lhe atropelavam impiamente, as virtudes 
que lhe tinham mettido nos seios do coração que 
confessavam adorar submissos e reverentes. Mas 
o offendido . orador, nunca quebrara o vaso das 
suas convicções á voz da calunuiia nem estreme- 
cera aos olhares odiosos que vira relusir tantas ve- 
zes diante de si. 

No dia que se seguiu a este notável aconteci- 
mento parlamentar,' foi Garrett exonerado por 
vingança, do lugar de presidente do Conservató- 
rio Real de Lisboa, de chronista-Mór, e também 
da inspectoria geral dos theatros, e espectáculos 
nacionaes. Rebello da Silva, faltando algures does- 
te rápido momento da vida de Garrett, diz: «In- 
fehzmente ia quasino começo a obra da. regenera- 
ção do theatro, quando lh'a arrancaram das mãos, 
e a torceram, e a desviaram do seu progresso, p 



(91 



EffectlvameDte o incaosavel Bscríptór mettera 
mãos a essa grande empreza, jurando arrostar 
com todas as di£BcuIdades qae topasse no cami- 
nho, para lhe dar um fim coroado conl os glo- 
riosos áuspicios que merecia o assumpto. Este 
golpe de vingança insuitadora brandido tSo injus- 
ta 6 precipitadamente pelo ministro sobre o elo- 
quente orador, que era culpado apenas de dizer 
a verdade, e condemnar os abusos que via em ' 
acção e de defensor dos direitos que a lei Ibe 
fornecia, nada o pôde ferir porque o que dissera 
estava dicto, e as ideias que apresentara estavam 
unanimemente sanccionadas pela maioria/ onde 
vira incluídos alguns que eram seus antagonistas. • 
£ quando os nossos inimigos se movem a nosso 
favor lem casos tão melindrosos como estes, te- 
mos certa uma victoria complecta. O poeta rece- 
beu o oíiicio que o exonerava dos seus cargos, 
com os lábios forrados com aquelle sorriso iró- 
nico tão seu conhecido, que tão sublimemente em- 
pregava sobre aquelles, junctade quem provava o 
gosto agroso dos grandes desappontamentos hu- 
manos,— e sollando despreoccupado e firme uma 
retumbante gargalhada, disse para as pessoas 
que eram com elle, e prísidiram a este actoi que 
para outro -fora o mesmo que sugar o fado da 



suprema imimlbai^: — Esperemos i E: volveodo 
á sua habitação seguido d'alguns amigos» a ali"' 
mentando ainda o sorrir de Demócrito disfarça- 
do, recostou-se commoda e fieugiçaticamente na 
sua cadeira de osòríptor cpe era Junctô da secre- 
taria. Empunliou aqodla penna robusta, que era 
capaz de abalar os alicerces do mundo e fazel-o 
girar sobre novos cairis; è mediu com ella umca*^ 
demo de pape] ] 0^ que o "(iram proceder assim 
julg2i*am, o que era naturalissimOy que os acoute* 
cimentos recentes lhe haviam inspirado um novo 
livro em que d«sse conta no seu estyllo desata-^ 
viado e corrente» das chadas maia hediondas d'a^ 
guns regedores da pátria ; porém as ideias dos 
que naturalmente assim pensaram^ foram pouco 
depois abafadas com documentos mágniQcamente 
elsd)orados pelo punho do próprio Garrett. Fin- 
cando só curvado sobre o seu thesouro de litte* 
ratura,» tossiu» molhou a p^ma» e arremessando 
loi^e de si o véu do sarcasmo que se lhe rare£a* 
sia no rosto, deixou sair do coração uma d'aquei^ 
las luÊidaa de aborrecimento que trazem sempre 
apoz^ a maviosa quietação do espírito, e transfor- 
mam a sanha irritada do homem, na imagem 
mansa do cordeiro* 
Depois caiu em protoda meditação e siiendo. 



193 



coma. qaem espera o eceo d'iima vo2 celeste a 
qae. deseja prender moa ac^o da terral 

Fdtz:do homem, que recebe o grande choque 
da prepotência, e acominette as maiores vicis- 
situdes, com o animo sobrenatural que Garrett 
guardava sempre n'aqueile peito vigoroso t Feliz, 
digo, porque não dava guarida a ódios, nem abo- 
minava os seus mais feros detractores e envejo- 
SOS. Feliz, se hoje Uvre das torpezas humanas, 
repousa entre gallas, na celeste mansão dos jus- 
tos que tantas vezes evocou i ! £ o poeta me-, 
ditava. De repente, como a locomotiva que co- 
meça a tomar a força motriz, ouviu-se rugir aquel- 
la macblna potente, que atropelava tudo que in- 
discreto Ibe tomava a passagem, e os seus ran- 
gidos annanciâyam a partida d^aquelie robusto 
pensamento para um novo clima, onde tinha a 
colher um ramo de louros que havia de florir 
ainda aos bafejos das gerações vindouras. 

Era mais. um vaso de superior argilla, habita- 
do por uma flor olorosa, que ia depor em cima 
dos alegretes do . seu formoso jardim theatral ! 
Uma obra cheia de riquezas Utterarias 1 Mas que 
otH*a poderia produzir aqueUe cérebro tão forte- 
mente motejado pelos recentes debates parlamen- 
tares, que fizeram paralisar o sangue e adonne- 

ALMElDA GARRETT 13 . 



194 



I 



cer a líDgua a tantos oradores d'algam mérito? 
Qoe força podia restar ao bomém que estiver duas 
horas dominando a grande chusma de salvadores 
da nação ? Que poderia parir uma imas^açâo 
que tanto luctara na véspera contra os medalhões 
do paiz ? Podia muito, porque era como os po- 
mos do bem e do mal da ^vore feminina, que 

quanto mais se lhes tira, mais produzem. Era, se 
nao a melhor, uma das suas concepções mais fe- 
lizes e dignas da estante que guarda as melhores 
composições dramáticas; o Mfageme de Santarém^ 
ou a Espada do Condestiwel, drama em cinco 
actos, que o poeta trasia impresso na mente ha- 
via bons dois annos, e ligeiramente delineado n'al- 
guns papeis dispersos, que n^éssa occasião nãa 
se deu ao encommodo de consultar. 

Este drama está sublimemente desenvolvido á 
luz d^aquelle relâmpago fulgente da historia por- 
tugueza desde a morte de D. Fernando, e du- 
rante a regência da rainha D. Leonor, amante do 
gallego João Fernandes Ândeiro até á acclama- 
ção do Mestre d'Aviz. O poeta firma a peça so- 
bre aqaella celebre anedocta, da espada que D. 
Nuno Alvares herdara de seu pae D. Álvaro Paes, 
nobre prior do Crato. Nuno Ah^ares, enlâo fron- 
teiro-mór do Alemtejo e protector do Mestre d'Aviz 



191!' 

' ■! ' ■ _ ■■■*■■■ ■MM M BI M M W I _L I l> I ■ I I H l I I ■ ■ < ' ■ _,l_ ■ _ il '' _ ,, , 11 ' ■ " > 

para o assassinato do valido da rainba, represen- 
ta aU um bello papei com o seu amor sincero 
pela virtuosa Alda» e com a lembrança de fazer 
acclamar o filho legitimo de Pedro Cru. Garrett 
descreve n'este drama de subido mérito littera- 
rio, os costumes mais enraisados nos ânimos 
populares, suas crenças e opiniões, seus ódios aos 
estrangeiros, assim como dos guerreiros que se 
preparavam já para talar de Castelhanos os cam- 
pos d' Aljubarrota. Aquellas duas imagens do dra- 
ma> o Ãlfageme e o velho sacerdote Froylão, a 
(^em chamavam o S, Gonçalo das raparigas de 
Santarém, são quasi inimitáveis. 

Aquella Alda, suas paixões e palavras innocen- 
tes, suas confissões sinceras e seu amor franco e 
virtuoso, parece-me que ninguém a animaria me- 
lhor.. 

< Para fazer uma descripção exacta e minuciosa 
doestes cinco actos sublimes percisava^se diurna 
penna que nao tremesse como a minha, e por is- 
so contentem-se os leitores com o breve esboço 
que ahi fica. 

Este ramo de louros verdejantes, que logo se 
ajunctaram, á já brilhantíssima auréola do rege- 
nerador do theatro portuguez, floresceu immensa- 
mehte no alquebrado theatro da rua dos Condes, 



196 



I 



— .. --■ ^—- ^.-^ ^--.),^ ■■ - . ^^ ^^^^ , ^^ I . II _ r 

sob a protecçio do conde do Farrobo» mas o óar* 
taz que «loundava o espectáculo» d3o dizia o 
nome do auctor, p&r que era esse p tempo em 
que todos o admiravam no parlamenta» e Garrett 
nSo queria descer do alto da tribuna ao prosce^ | 
nio theatral. Ã primeira representação foi na noi^ 
te de 9 de Março de 1842» entre ávidas excla- 
mações d'enthusíasino d'uma platea escolhida 
que chamava o auctor no fim de todos os actos 
com delirio immenso» mas Garrett não appa- 
recia; e os espectadores voltavam ao tbeatro 
nas seguintes representações, para conhecer o es- 
criptor que os diliciava com palavras tão sympathi- 
cas. 

Pouco tempo antes de gosar a vaidosa Lisboa, 
as meigas palavras que o poeta mandava profe- 
rir pelos melhores lidadores do theatro, no en- 
canecido pardieiro, foi Portugal despertado pelo 
annuncio d'um acontecimento que fez estreme- 
cer muitos portuguezes i Foi o grito d'alarma que 
rebentou na cidade invicta no dia 27 de Janeiro 
de 1942, — grito que eccoou retumbante e me- 
donho nos ouvidos dos homens que se viam na 
necessidade de o abafar pela prudência ou pela 
força. 

Garrett foi eleito deputado pela capital n'es- 



197 



se anno» e deixando em descanso os seus la- 
vores litterarios, foi assentar-se na camará^ 
que estava então em vasante de deputados 
que deviam occupar os bancos para onde elle ha- 
via passado quando se viu desamparado pelo 
grupo ministerial, que tremia da louca ameaça 
madrilena* 



«Esses nossos honrados companheiros 
«De tanta cicatriz ennobrecidos, 
«Que a espada tantas vezes empanharam, 
«Tanto sangue Terteram por seguir-oos, 
«Por defender da pátria a sancta causa ; 
«De suas Tidas, acaso a mesma pátria, 
«Não nos confiou a nós, cuidado e guarda?» 

(GAiiitETT.— Caíâo) 



XII 



 morte prematura e sentidissima que assom- 
brou por esse tempo a vida do grande patriota, o 
conselheiro António Manuel Lopes Vieira de Cas- 
tro, muito digno abbade da parocbia de S. Cle- 
mente de Basto, com quem Garrett percorrera 
as primeiras paginas académicas em Coimbra, e 
partilhara as amarguras do desterro em Inglater- 
ra, durante a emigração de 18^8, veio-lhe pun- 
gir dolorosamente o coração d'amig09 e fome- 



200 



cer-lhe ao mesmo tempo um sublime assumpto 
para engrandecer mais os ricos annaes da nossa 
lilteratura, contando a historia poUtico^eclesias- 
tica do talentoso minislro d'estado e da egreja 
catholica. Guiado pela saudade cortante do ami* 
go que deixara d'existir, lançou de novo mão da 
penna, já quasi adormecida, e compoz em senti- 
das phrases uma memoriorhistorica em que lhe 
immorlalisou aquelle nome, tâo avidamente q 
saudosamente coado por entre os lábios de to- 
dos os homens que amavam do coração, os prin- 
cípios Uberaes^ e os sacerdotes possuidores das 
grandes virtudes que elle mostrara em todos os 
cargos tanto públicos como ecclesiasticos» e atè 
empunhando a espingarda de voluntário, firme e 
animoso, e marchando sobre as forças do usur- 
pador que o arrancara da suaabbadia para o atirar 
ás provanças do exílio açodado pelos seus infa- 
mes sectários. 

Este sumptuoso monumento erecto peio nosso 
poeta ao virtuoso pastor de S. Clemente, foi im- 
presso pela primeira vez em 1842, n'um folheto 
ornado com o retracto de Vieira de Castro, e saiu 
ultimamente reimpresso a par d'outras bio- 
graphias no volume dos Discursos parlamenta^ 
res. 



201 



Estando as camarás do parlamento d'este an* 
no» ainda friamente organisadas, e nSo havendo 
âiscQss5e$ de maior gravidade, recolheu-se Gar- 
rett temporariamente á estreita solidão domesti- 
ca, e começou a escrever nas margens dos seus 
livros impressos que os prelos já requeriam, as 
emendas que lhe segredava a consciência, que 
deviam substituir alguns rebentões, que as mui- 
to serias occupações lhe haviam deiíádo passar 
desapercebidamente, e ao mesmo tempo filhas 
da ligeiresa com que sempre apromptava os seus 
originaes. 

Entre as muitas e escrupulosas correcções qúe 
fez nos seus livros melhores, avultam as da dilí* 
dosa epopéa Camões em que sempre se esmeros 
, com muito mais atten^o e que se imprimiu pela 
terceira vez em 1844. Com estes e outros affa- 
zeres levou o poeta alguns mezes, e apenas os 
interrompia por curtos intervalios, quando ha- 
viam a traotar negócios mais graves, ou se acha- 
va aborrecido. Nos princípios de Março de 1842, 
havia sido o poeta nomeado membro da commis- 
s3o organisada ' em Lisboa para tractar os negó- 
cios com a Sancta Sé, mas parece-me que nSa 
pôde fazer parte d'ella nem protegel-a por essa 
occasiSo, em consequência de ter soffrído por es* 



202 



se tempo uma queda perigosa que o obrigou a con- 
servar-se alguns jne^es em sua casa, por manda- 
do dos facultativos que o visitavam repetidas ve- 
zes no decorrer d' essa longa reclusão. 

Esta incidente infortunoso do poeta não pun- 
giu menos os seus amigos, e mesmo os mais af- 
fastados que buscavam o seu domicilio^ que es- 
tava sempre aberto para receber os corações ge- 
nerosos e todos aqu^Ues que o procuravam. 

N'esta solidão forçada pôde Garrett conhecer 
mais a fundo as grandes sympathias que lhe dis- 
pensavam, vendo entrar a toda a hora em casa 
os seus companheiros do iofortunio e da grande- 
za, e alguns talentos que por modéstia ou aca- 
nhamento, se tinham occultado a seus olhos, e 
aproveitavam aquella occasiãoem que ninguém 
despresa quem procura animal-o, para travar re- 
lações com elle, o que era uma grande honra. 

 dar credito a alguns documentos que tenho 
à vista, esta fatal isolação do poeta, foi de supre- 
ma utilidade para a moderna litteratura theatral, 
já sublimemente engrandecida por elle; porque 
foi quando escreveu o seu admirável e aberta- 
mente inimitável Frei Luiz de Sousa, esse drama 
modelo, essa elegia em prosa sublime, e de novo 
género, certamente a melhor que possuímos e que 



203 



tem impressionado mais vivamente as plateas de 
primeira ordem, e contribuido para qae vertam 
lagrimas copiosas os espectadores da mais inaba- 
lável construcção. 

Existe um documento do próprio Garrett, que 
desmente o que acabo de dizer, quanto á dacta da 
composição do drama, porque diz ter tido princí- 
pio, no dia 27 de Maio de 1843. Sem querer ele- 
var-me acima de quem affirma o contrario do que 
explica o manuscripto do poeta, creio de prefe- 
rencia n'este, porque ainda que não seja exacto, 
estou mais do que convencido que ninguém se 
transformará em Quixote para me contradizer I 
Este collossal monumento da litteratura moderna^ 
este soberbo empório |}e puro sentimentalismo, 
em que se descobre um quadro magestoso das 
maia arrogadas paixões humanas, leu-o o auctor 
em se^ão do conservatório Real', ante um grau* 
de numero de pessoas instruídas que o admiraram 
e applaudiram, com demonstrações de maior rego- 
sijo, e do mais puro affecto pelo homem que o 
creara. N'este delicioso trabalho, ainda se encon- 
tra a traducção da profunda amísade que o poeta 
tributou sempre ao cantor dos Lusíadas. Aquel- 
le dialago da scena segunda do segundo acto, 
cruzado entre Maria, a filha de .Magdalena de Yi- 



204 



■ IM >* 1 



Ihena, e o honrado Telmo, velho e dedicado es- 
Èudeíro da antiga casa de D. Jo3o de Portugal, é 
muito digno dé entrar n'estas acanhadas memo- 
rias. Maria contempla três retractos que pendem 
da parede, que^sao o de D. Sebastião, o de D. 
Jo5o> primeiro marido de Magdalena, quejulgan- 
do-o morto, contrahe segundas núpcias com Manuel 
de Souza Coutinho, de cuja ligação saiu Maria; e 
o terceiro retracto é de Luiz de Camões. Maria 
depois de mirar attenciosamente os três, diz apon- 
tando por flm para o do infeliz vate d'Ignez 
— f Creio n'aquelle outro que ali estáj ãquelle teu 
amigo, com quem tti andaste lá pela índia, n'aquel- 
la terra de prodígios e bisarrias, por onde elle ia... 
como é ? ah, sim... «N'uma mão semj[)re a espa- 
da e n'outra a penha» — «Ohl (exclama Telmo 
cheia de tristeza} o meu Luiz coitado 1 bem lh'o 
pagaram. Era um rapaz mais moço do que eu, 
muito mais..', e quando o vi a ultima vez... foi 
no Alpendre de San Domingos em Lisboa — pare- 
ce-me que o estou a ver — tão mal trajado, tão 
encolhido.:, elle que era tão desembaraçado é ga- 
lan... e então. velho 1 velho alquebrado, — com 
aquelle olho que valia por dois, mas tão sumido 
e encovado já, que eu disse comigo: «Rtiim terra 
te conierè cedo, corpo da maior alma qtiedtítou 



m 



Portogall E dei-lbe um abraço.^, foi o ultimo..* 
Elle pareceu ouvir o que me estava dizendo o 
pensamento eá por dentro, e disse-me: «Àdpus 
Telmo! San Telmo seja commigo n'este cabo de 
navc^façao... que já vejo terra, am^o» — e apon- 
tou para uma cova que ali se estava a abrir. ~ 
Os frades rezavam o oificio dos mortos na egre* 
ja... EUe entrou para lá, e eu fui-me embora, 
D'ahi a um mez^ vieram dizer-me: — cLá foi Luiz 
de Camões n'um lençol para SancVAnna»— E 
ninguém mais faltou n'elle. 

— cNinguem mais?!., pois^nao lêem aquelle 
livro que é para dar memoria aos mais esqueci- 
dos? 

— a O livro sim: accaitaram-n'o como o tríbu* 
to d'um escravo. Estes ricos, estes grandes que 
opprímem e desprezam tudo o que nâo são as 
suas vaidades, tomaram o livro como uma coisa 
que lhos fizesse um servo seu, e para honra d'el- 
les. O ser\o, acabada a obra, deixaram-p*o mor- 
rer ao desamparo sem lhe importar com isso... 
Quem sabe se folgaram? Podia pedir-lbes uma es^ 
mola» escusavam de se encommodar a dizer que 
não. . 

«Está no céu (diz Maria muito enihmiasmadaj 
que o céu f^-se para os bons e para os infeli- 



206 



zes; para os qae já cá da terra o advinharam! — 
Este lia DOS mysterios de Deas ; as suas palavras 
são de propheta. Não te lembras do que lá diz 
do nosso rei D. Sebastião?... como havia d'elle 
então morrer? Não morreu. (Mudando de tom) 
Mas o outro, o outro... quem é este outro, Tei- 
mo? Aquelle aspecto tão triste, aquella expressão 
de melancbolia tão profunda... aquellas barbas tão 
negras e cerradas... e aquella mão que descança 
na espada como quem não tem outro arrimo, nem 
outro amor tfesta vida... 

— «Pois tinha, oh se tinha... 

— «Aquelle era D. João de Portugal, um hon- 
rado fidalgo e um valente cavalleiro» — diz Ma- 
nuel de Souza Coutinho entrando na occasião em 
que a filha e o escudeiro, olham fascinados para 
os quadros que representam os três grandes per- 
sonagens da historia portugueza; D. Sebastião, 
Camões, e D. João de Portugalll Em toda a par- 
te sabia o grande Garrett erguer um brado de 
gloria e saudade, ao desditoso amante de Catfaa- 
rina d'Alhayde. Nunca via cheia a arca destina- 
da a guardar a historia do sonoroso épico. Esta 
obra é precedida como deixo dicto d'uma memo- 
ria sobre a litteratura e estyllo que adojitou em tão 
melindrosa e interessante composição, que foi li- 



207 



da na occasi^o do drama, no Conservatório, e de- 
dicada aos membros d^aquelle grande estabeleci- 
mento. È seguida d'um honroso Juízo critico, re* 
plecto de soberba erudição e agudos conceitos, 
Qlbo da penna firme, d'um dos melhores prosa- 
dores moderDOS, o já fallecido Luiz Augusto Re- 
bello da Silva que deixou orphão tão cedo um 
explendido logar no campo da nossa litteratura. 
Para se poder avaliar o grande mérito d'esteym- 
so critico, basta dizer-se que é do immortal au- 
ctor da Mocidade de D. João F, do Ódio velho não 
cança, e de tantas obras que são o orgulho da 
^erra que possue ainda quasi inteiro o cérebro 
d'onde ellas emanaram. Diz-se que este formoso 
trabalho dramatbico, não ^a destinado ao tbeatro, 
mas pedindo-o uma familia illustre para ser re- 
presentado, e cedendo o poeta a esses desejos 
representou-se por uma sociedade composta de 
pessoas credoras de subida consideração, e cos- 
tumes irreprehensiveis, na quinta do Pinheiro na 
noite de quatro de Julho de 1843. Por este tem- 
po apromptou o poeta um volume de versos ly- 
ricos que se intitula: Flores sem fructo, que a 
casa Bertrand deu á luz em 1845. No mesmo an- 
no saiu a lume no segundo volume das Memorias 
do Conservatório, o excellente Elogio histórico do 



208 



barão de Ribeira de Sabrosa, que foi recitado pe- 
lo auctor^ em ses^ plena d'aqaelle estabelecl- 
metíú de saprema utilidade para a moeidade que 
ama o estudo. É um pequeno discurso, mas conce- 
bido n'um estylo primoroso, e cheio de l3o riquissi^ 
mos pensamentos, que o toniam mais valioso do 
que os monstruosos volumes de certos auctores 
que tecem elogios em termos pomposos, mas on* 
de as ideias, já cobertas de cans, revelam sem- 
pre a mesma coisa: isto é, se acaso alguma coi- 
sa conseguem revelar. Cá estou eu lambem met- 
tido no grémio, pobre escrevinhador, que começo 
a crer, que escrever uma biographia com todos 
os r. r. é tão espinhoso como levar o rio Rhoda* 
no ao ultimo extremo da serra Guadarrama ! Se- 
guir os passos d'úm homem, contar-lbe as pega- 
das e assentar n'um bocado de papel todos os 
seus gestos, e palavras que proferiu, e os aper- 
tos de mão que deu, pode-o fazer quem for espi- 
ão, como os ha por ahi em abundância, mas um 
pobre diabo, que está como eu, entre quatro 
boiões de rapé, não sei quantos centos de charu- 
tos, meia dusia de fumadores e umas dusias de 
caixas de fósforos á José Osti,é fraco de mais para 
tentar tamanhas empresas. Mas vamos lá que com 
todos estes senões, vou levando, ainda que muito 



md 



ajoujado» o fardo a cpiâexpntas mtíÍRB dcbeis ccs- 
taSy á estação onde ajustei ^iral-^ 4e mim. 

Mas Tdteinos a enganchar o>camKSo<|ue pi^* 
leotaioente o cascalboso dosvioque^ miiilia ma** 
nia ]ilteraria me apootcMi, Depois do volwíe 4as 
flores ^m Frmto, put^icou^se ;o plíaieiro^ voittr^ 
me do bello i{on»ana«iro. doppeta, contendo cháca* 
ras» trovas, lendas e soiáos. MeoDOfs prèoceupado, 
eiOre os annos 1843-Í844» c(mieçoa a saccu^ir « 
poeira. a i^as daronieap^ que já oocaeçára a áe- 
seopoeirar em 1832» encontradas Jio çoavento: 
dos Grillos no Porto^ onde e&livera alojado o seu 
batalhão âprantO' o ^rqo; e depois d'esta opera- 
ção copiou os caracteres quá o tempo ainda couh 
s^?aya intactos, refonãíQ^os e mettepdo /no iam-' 
Uqoe das suas investigações, os fragmentos que 
estavam apagados» começou a puriiicdl-os coma^ 
attenciosa solicitude que empregava em todos os 
seus trabalhos. Algims âías de trabalho, e a cbro- 
nica Miada e amareUada, proãasiii om espiri(0 
que &z espirrar i^oidosamente muitos :ii;uiividuQSv 
e com especialidade o deco» que rugiu como o. 
tigre que se topa lendo «mortalmente pelo caça-: 
dor .de feras sertanejas, e fligitf com horror <3a 
hediondez das imagens que ò poeta principiara a 
desenhar a traços lígeiroí mas indeléveis! iVesta 

ALMEIDA OABRETT i4 



21Ô 



velba obrcmica — romaace» narração critica da 
tempo de. Pedro Ci^, ou mais propriainente /115- 
ti€€irOj foi qoe Garrett arrancou os dois roiomes 
do de ^co de SancfÂnna, cujas sceoas d'aber- 
tura correm nas proximidades d'esse arco memo^ 
ravel da rainha do Douro, iiue foi complectamen- 
te derruído ha bom par de annos. 

O primeiro yóbàme doesta obra saiu dos pratos 
no principio de 1845» quando o poeta ainda não 
possuia, senão ligeiros 2q[>ontamôntos para o se- 
gundOy que devia concluir a confissão da cbroni* 
ca encanecida pelo correr dos annos. 

O extenso e profundo prologo que precede es- 
te primeiro volume» foi um verdadeiro foguete de 
grannadas» que sobe rugidor aos ares, cujas bom- 
bas descendo rápidas e fumegantes^» vão estourar 
entre a gentalha» dispersando-a» e fazendo-a indi- 
gnar contra o fogueteiro. 

Os sacerdotes» — os mãos» que os \irtuosos 
aparta-os o poeta para outro lote — os sacerdo- 
tes são ali horrivelmente mordidos» e asperamen- 
te torturados entre algumas paginas de ferro que 

se occultam no pequeno livro. 
Molesta sem commiseração com o bico da pen- 

na aparada» mais algumas corporações sociaes» 

que lhe assiravam a imaginação nos tempos cala- 



211 



mitoso&6m que eOe extrabía essas palavras úo 
coààce fradescOí cheio naturalmeote de emplas- 
tros latinos escriptos por algum fradalbão lú- 
brico, sensual e depravado, que presenciou, ou 
teve parte nos banquetes luxuriosos do bispo do^ 
Porto, o infame seductor da fllha de Abrahão Za- 
cutto, o bemfeitor que o agasalhara em casa : es- 
sa desgraçada mulher, mãe do filho do bispo,, que 
a vergonha obrigou a disfarçar- se em taberneira, e 
que o povo começou a cognominar bntxa de 
Gaia. Esse sacerdote empregnado de infâmia e 
perversidade, que manchou tantas virgens ajuda* 
do doa seifô indignos acolytos, è alam arrancado 
do seu ministério, e rechassado do reino, pelo 
rei Justiceiro, que toma conhecimento da reclusão 
em qoe teve a infeliz Anninhas, fiel e virtuosa es- 
posa de Affonso de Campanban. 

A critica mordaz e. estúpida d'alguns adversá- 
rios do poeta, recebeu, como se costuma dizer, 
com cara de ferreiro velho, esta primeira parte 
do romance, e o auctor para se desforrar d'essas 
graves accusaçoes, como sempre fòi:iã seu capri- 
cho, tractou de copiar e recopiar o trabalho do 
segundo volume, augmentaiKlo-o consideravel- 
mente sobre a extensão primitiva, e mettendo-lbe 
alguns trechos, que, ainda que dissimulados, sao 



212' 



^hawfarfAAMaíMI» 



acc 



a resposta e desaggipavo das injustífas qtiê «o»- 
metteram com elle. Depots d'uifia bmve adver- 
tência em que se declara, os Motivos qm haviam 
retido aquelte trabalbò b» atfaodega da sira joris- 
dicção sem prompto despacho/ abre o primeira 
capitalo, desfecbaDdo mm estas paljrwas aas bo- 
chechas do leitor descuidado. 

«De2 aimos esteve G^vantes^ para trasladar e 
por em ordem» os ma&usepipCos de Gid-llamet* 
ben-engeli, e dár-nos em fim, a ultima parte da^ 
historia do cavalteiro da Maiicba. Ett nSo te fis e^ 
perar senão cinco leitor amigov e betlevolo, por 
este segundo e ukimo tomo do bemdifito Arco de 
SancfAnna. E tive de fazer eu tudo, ea só por 
minha m3o, decifrar a inrevesad^ lettra do códi- 
ce dos GríUos, que entre palavras safadas» linhas 
inteuras illegiveis, folhas rotas, e outras di£Qcol- 
dades similbantes, me deu mais que faiser do que 
um verdadeiro palimpsestes. 

«Nãò tive tf este intervallo, ô verdade, qtie não 
tive quem me fizesse uma segmida parte suforepti- 
cia,^ e calumfiiosa» eomo âseram ao pobre Miguel 
Cervantes, que o obrigou a dar tantas satisfações, 
e a torcer até o rumo da> soa historia. 

«Mas críticos e ceusorts n3o me fs^taram, pra* 
gas e praguentos me vieram de toda a parte; e 



213 



cbegaram a accasar-niB de Quixotisimo, e que so<* 
Dhei gigantes, em moinhos de vento, para ter com 
qaem biígar, e degolei exércitos d^innocentes cor- 
áeiro&, cõino se foram a pugnaz moarisma abei- 
rei Almançor, o d^^arrêgaçado braço. 

«E tudo isto porque, leitor amigo? Porque 
ameacei com a ponta do azurrague d'elrei D. Pe* 
dro, as pretensões absurdas, e anti-evangelicas 
de certos agiotas do catholicismo, que abusaram 
da boa4è da presente geração, e pretenderam 
grangear em proTéito seu, e de suas pessoas o es*^ 
pirito mais religioso da época. 

«Ha dnoo annos chamaram-me vesionario. Que 
dizem hoje isentares censores ? Vejam a Inglater- 
ra, onde^? i sombra do Puseismo e d' outras for- 
mas da t]*ansiçSo <e transacção, o catholicismo en- 
trava já nas mais fortes cidaddlas da fé luthara- 
aa, Tdjam oomo por lá se tem abusado, e como 
o governo se começa a arrepender da súa tole- 
rância;! 

£ o pobta ainda não pára aqui; continua a de^ 
safiarsem medo os seus emulos. 

«Vejam em fim na nossapequena e pobre ter- 
ra, a ignorância, a crápula, a simonia, o si^vills- 
mo politico a âúadar deshonrando a estola e a ml* 



214 



tra, entregando-as ao desprezo e ao odío peda- 
lar.» 

Quem arremelte assim com umà cohortede 
crilícos como tinha Garrett por occasião de pu- 
blicar este livro, revela mui vantajosamente, que 
em parte nenhuma os teme. Bffectivámeíiten3oos 
temia, porque lhes soube tomar as forças com tSo 
bello resultado, que todos se cailaram quando el- 
le arremessou ao mundo litterario aquelle raio, 
que logo os fulminou em terra. Só assim vergo- 
nhosamente caidos na terra lodacenta, é que co- 
nheceram, e se arrependeram de ter commettido 
tal desacato. Garrett ficou sempre victorioso, e o 
livro vendeu- se em pouco tempo, e imprimiu-se 
de novo para accudir ás exigências dò povo que 
o pedia cheio d'enthusiasmo a toda a hora. 

Em Setembro de 1844 escreveu uma carta da- 
ctada da Boa-Viagem, resposta ao opúsculo que 
lhe dirigiram dois sócios do Conservatório, assi* 
gnado por N. N. Esta erudita carta do poeta, foi 
impressa no mesmo opúsculo, que tracta da 
origem da linguà portugueza. Pouco depois es- 
creveu em Cachias a engraçada comedia em tim 
^to, Noimdo no Dafundo, e outra em dois actos 
intitulada Prophecias (to Bandarra. N'esta occa- 
sião publicou-s« também úm folheto dò poeta. 



SIS 



€00tenda um pequeno romance^iidio aoUgo, intír 
iulado Myragia...'i Eleito deputado este anuo» 
bem como no antecedeitfe, por Lisboa^ d*eQvolta 
€om os seus empregos públicos e occupações poe- 
tico-tilterarias, empreÈtôDdeu um trabalho com 
tantos espinhos que nenhum homem do seu tem- 
po» como litterato ousaria tentar! Tal era a qua- 
lidade 4o assumpto! Os talentos que conheciam 
a robustez do poeta, e sentiam que podiam fazer 
alguma coisa que não fosse muito vulgar, é 
lidavam na mesma arena, aconselharam-n'o a que 
n3o éívulgasse a ideia concebida, da árdua tare* 
fa a que se propunha, porque lhe seria altamente 
dMfieil complectaI*a com a solicitude e perfeição 
de que era credora a sua penna, que jamais ya- 
eiitava entre as mais medonhas situações, mas cor- 
^ r^a sempre ligeira sobre vastissimas resmas de pa- 
pel. O poeta escutou esses conselhos dos melho- 
res publicistas d'ent3o, com aquella serenidade e 
crença, que affectava quando via que duvidavam 
da sua vigorosa força piorai e de vontade, e no 
nijesmo instante foi visitar os numerosos cabedaes 
que já possuia para erigir o colossal monumento 
litterario que promettia obumbrar a gloria dos 
seus- pecos satellites ! T9o espinhoso era o assum- 
pto, e tão largos os barrocaes que o poeta havia 



216 



de galgar» para cbogar ieimídíobai solitária que 
guardava o epilogo . de lao exceiieote emprébec^ 
àmwHOil.,i JBsta alta eioprôsa era, a feitora da 
likagestoso livro das Viagens tmmnha Terra, cu- 
jos raios d'iDteiUiige&cia baiteram de chapa nos 
0IÍ1Q& dos invejosos oensorea» fazendo-os r^bro- 
cQder w mnmtxQi . que mediam pam caltimniar 
novacQ^e o poeta. N'e$ta arriscadi^ssima joroar 
da» tioba: o abajiií^ado escriptorde levantar dO im- 
mqodo charco do e$quecimdnlo> onde haviam pas* 
$ado as maiores resoluções politicaa, deade Lia* 
boa até: á terra qiie> gviarda as ossadas édU. 
FeroandOr os corruptos pergamiobos que ali ja« 
âiam. de. tantos seculds» que revelavam 03 mais 
e£KqQisitos. e variados. acontecimentos» occonfidos 
desde o .tugúrio miserav^el do.meudigo» atô aos 
palaciiiDshraâQQados^.f azoada parte d^ea^a eoUee- 
ção.^curiosa, as cbronicasoionastícas. Juoctos.^* 
ses velhos despojos da^ passadas coustituições ao* 
ciaes, eoãot appareceudo a chave para eocenrar 
e^ga soberba litteratura, tinha o denodado invés* 
tigador^ de rapar .as grossas camadas deímu^o 
das pedras d'antigos monumentos,, e das esqu^eci* 
daa nqinas de extínctos estabelecimentos mligio* 
SOS e profanos; aventar as cinzas, dos gij^reicôs 
que ali haviam perecido, o desccArir os rastos de 



ÍÍ7 



oossas passadas grafulez^s, e as cbronioas escriíF 
tas eom o sasguô de nossos honrados visavóos,, 
e lagrimas do orpbios e viuvas desamparadas. 
Deâfirados, os qvasi apagados lettreíros» mm^ 
dados abrir oufora para ecterna memoria do que 
foram o& Lusos oas eras do enteoebrecimeQto:— 
entenebreoimento repito, porque ainda se não ti- 
nham inventado os gazometros, e aliumiava-^se a 
sociedade com o clarão dos £achos guerreiros, e 
com o bálsamo da oUveira,^ — atado esse feixoj 
monstruoso que d6:via fazer gemer a maobina 
d*uma locomotiva, tinha ainda Garrett de lhe ,apa«« 
rasos rebentões gerados pela sua indignação» 
mas considerapdo que desfeiaria o pedestal, não 
teve animo para lhe .cortar as pennas que o or* 
na vam, porque sem ellas, que eram represento* 
tes da verdade,; erguendo o voo, estava sugeito a 
descer da sua primeira altura comosO balão que 
desprotegido peta válvula de segurança, desce, 
desce, até descançar na i&rra, ou em alguma eih 
seada algosa ou doce. Assim o entendeu Àlmei* 
da Garrett, e, em logar de moderar, alterou, avi* 
vou a pôr. das paginas que escrevera contemplaoh 
do as antiguidades e modernezas da Extremadu** 
ra, e obrigou até em muitas passagens a imufia 
romântica a galgar Yúra da senda que sempre trí^ 



218 



Ihara» e vergar o bordão áe viajante, para pe- 
netrar no seio d'essa sociedade moderna, victima 
da inércia dos governos, que tapam os ouvidos 
quando ouvem gritar por instrucçao publica i 

Mirando convenientemente toda essa miséria, 
ignorância e fanatismo, n3o pôde conservar-se abi 
mais tempo, e deu por concluida a sua colheita 
d'dpqntamentos. Voltando com a imaginação á ca* 
pitai, e, completando estas sublimes viagens, pu- 
blicou-as em pequenos fragmentos no Jornal Re- 
vista Universal Lisbonense em 4845, e corrígin- 
do-as depois ainda mais^ mandou-as imprimir em 
dois tomos, no anno seguinte, que começaram lo- 
go a ser pedidos com espantosa influencia. É que 
o livro das viagens não tinha rival na nossa litte- 
ráura ! E ainda hoje não o tem apesar de se te- 
rem escripto milhares de volumes I As Viagens 
na minha Terra são para mim meia litteratura : 
isto, para não repetir a litteratura inteira que um 
escriptor nosso, disse ser Almeida Garrett e com 
bastante razão ! Que bellas recordações de via- 
gem ^ Como é maravilhosa a fleugma com que o 
poeta se apresenta em pé, sobre o ronceiro bar- 
co d'Ilbavos, singrando Tejo acima, para se trans- 
porta* á terra da principal acção da sua* comedia, 
drama, ou o que quer que seja esse chefe d'obral 



210 



Com que gestos elle contempla do mar largo t 
baixa Lisboa, que se lhe fica apôzt Gomo é en- 
graçada a posição que elle toma para escutar as 
rançosas altercações dos toureiros de paminlho e 
forcado, com os homens que retalham com uma 
xascá de noz, quasí successivamente o rosto vi- 
ctreo de' Neptuno, quer em calmaria podre, quer 
etii agitado foribundal Gomo é sublime aquella 
disdrrpção do restauram cartacbense, e como o 
auctor arregala os olhos, e estende o pescoço por 
cima dos arvoredos para descobrir o pinhal de 
Azambuja, esse mattagal medonho, cuja tradição 
tem feito desmaiar mais espiritos nervosos do 
que as pedras-homens do Deucaliãoll Que poe* 
tica admiração se lhe apodera do animo, quando 
estaca pasmado ante esse bosque apregoado é te- 
mido como a Falperra tradiccional I ! A faltar a 
verdade, tinha sobeja razão para obrar assim, 
porque quando se toca em ladroeira, n'esta nos- 
sa terra de Portugal, é muito raro não se excla- 
mar logo : 

— «É um verdadeiro pinhal d'Azambujat 9 Como 
são desvairados, os olhares que assesta sobre 
esse frondoso covil de malfeitores e ladrões, 
emquanto se não ouviu ali a voz do progresso, — i 
sõ a voz, por que do progresso nem as sombras 



220 

^Qâft lá «pparaceraai**-^ o silvo agud^ doesse re- 
lâmpago ferreo» qoe corta . serras e montes ^Hre 
áqoem Tejo^ eáqueia Doiirol £ as palavras eom 
que copdemQa e maldiz quem o trouxe esgafiado 
ató ali: ' 

-rxtK$te é.qpe é- o pinhal tfA^ambiÊiía?' N3(> 
pód(d m'... Esta, aqueUa aotiga sei va^ temida qua- 
si retigiosamente como um* bosque droidico. E ea 
que em pequeno :nuoca ouvia contar bistorias de 
Pedro Mallas^artes, que logo em imaginaçSo iSo 
Ibe po^esse a seena aqui perto. Eu que esperava 
topar a eada passo com a cova do capitão Raí* 
d3o eila dama Leonardal... Obl que ainda mt 
faUava perder mais esta ilIusSo)..: 

«Por quantas maldições. e infernos que adornam 
o ^tyflo d'am verdadeiro «scriptor romaotioOi di- 
gam^inei» mie estão os arvoredos focados, os 
sHios medonhos d'esta expe^sura? Pois isto òpQ$^ 
stvel, pois o pinhal d'Âzambuja é isto? £u que os 
trazia promptos e recortados para os colocar aqui, 
todos os amáveis salteadores de SchiUer e os ele<- 
gantes fascinorosos Auberg-des-adreíSj eu beide 
perder os meus chefes d'obra I 

«Que é perdel-os isto, — não ler onde os 
pôr, 

«Sim leitor benévolo^ e por esta occasião te 



22i 



vou explicar «como nós boje em dia, fazemos a 
nQSsalitteratura.» 

£ aqui o poeta*romaDcista depois d^ ensinar 
ao leitor o systema de vollar do inverso as obra^ 
estrangeiras, e dar-lhes uma demão de verniz na- 
cional para lhe sellar no rosto o cunho ariginaly 
apresenta uma receita para fabricar todo o géne- 
ro de litteratura com todo m sal y pimienta como 
diz o castelhano, que não ha excedel-o em tal 
género. 

Termino por aqui a apreciação das elegante^ 
viagens» contentando-me em transcrever as pou- 
cas linbas que deixo acima, porque para notar tu- 
do que ha de sublime e maravilhoso n'ellas, era 
necessário copiar os dois livros, porque devo con- 
fessar que não tenho vocábulos para dizer o que 
ellas merecem, e mesmo eu não pretendo publi- 
car mais do que a biographia politico-litteraria do 
grande vulto da nossa terra, ainda que aleijada e 
breve. Esta obra conta hoje quatro edições, e a 
ultima acha-se quasi exgotada. 



ccDisseoçto 6Dtre os meus semeou funestas t 

«Cos mais fieis dos meus, fui embuscar-me 
ttDetraz d'esse escarpado negro monte, 
«Onde Tiste o fanal, que era a atalaia 1... 



(Gabrett.— jD. Branca) 



XIII 



N'est6 anno de 1846» escreveu o poeta uma 
pequena introducção a um sermão que se pregou 
á Seuhora da Bonança por ocçasiao da sagraçao 
da capella dos srs. marquezes de Yianna. e pu- 
blicou n'um jorual litterario, que havia então na 
capital, sob o titulo d^Itimtração^ alguns artigos, 
entre os quaes prevalescem, o Inskz, o Castello 
de Dudley, os Figueiredos, e o seu bello romance- 
poetico antigo, Beimal Françez traduzido nalin- 



234 



gua de Lope de Vega, que está encorporado n'am 
volume do Romanceiro, nas soas obras complectas. 
Em 1845-46, fora o poeta eleito deputado peia 
provincía do Alemtejo. Durante essas gravíssimas 
luctas militares e particulares de 46-47, que le- 
varam a dõrao seio dos povos, e fizeram perecer 
á fome tantos cidadãos honrados, emquanto 
centenares de homens ambiciosos e déspotas en- 
gordavam á custa de suores, lagrimas e fadigas 
dos pobres, e sorriam hypocritamente ante os 
horrores da miséria ao mesmo tempo que enchiam 
os cofres sepultados nos escuros subterrâneos, 
mostrou o fiosso Garrett mais uma vez quanto 
amor tributava á Soberana e á causa da liberda- 
de que perigava entre tamanhas calamidades, 
envolta em tanto sangue que corria em quasi to- 
dos os ponctos do reino ; e tao abundante e de- 
negrido entre cadáveres amassados e craneos des- 
pedaçados pelas cdvallarias em Torres Vedras e 
Alto do Ytio ; jâ com vehemehtes discursos em 
varias associações como na do Sacramento e ou- 
tras da mesma índole, já redigindo sabiamente 
algumas prodamações a favor da rainha e contra 
os inimigos do rei«D,' para infundir mais amor 
pela liberdade a seus antigos apóstolos, -que eram 
aliciados por aquelles que erguiam* gritos de mor- 



• - '■-V'-"TaB 



*— <■ 



gitDA k<»aôps. da. . teoraoio Jii|i»í<aiQd»L irestãY^ a 
Poitogal^rpiara ãfQ&;:j&ii/iâ «eflootiai^ dismosSes 
que âeix^k)mtm ttntaâ fmaiUjais oajsxlarfiiita j^obc&r 
za^ ^/ tovikvam a ociíAaDâft^ a tanlfift áúbos e 
paaa* ;S€a« s^^. awstrar jpaa ipca^as eovolvad^ naa 
l^í^s, trabaiboA mm. o» Àob^ipoeta». da ^a 
muitoí» ivíu» r^acaiíantm muíttt. anuas finas coia^ 
bate de in^e^^eom :aA: balas ^costearias. : i 

Trabalb^oâ» t3o «aaaíâuameiíte assim no gabin 
QGtQs d '»as<^ ftssMiasâw, xoioa. ^btre a banea da 
piibU$á$!ta« aJ^aíQiQw a^ ràategracio . do isai^ d» 
chr<)íai»te-mór do Aeiaor d\oada l&6t idemiltidtt 
em i& 4« iJu&ír da Idil^^pelaa idoIívos (pa 1» 
tive 0eíeasão:# ^tar« Em 27 de Maio ^i&kQ^, 
foi Garrett nomeado vogal da cornem^ f^l^àon 
rai ^nammà^i de <aiâiesQatar «si iotalmeçoes par- 
ci2^ pam a,.«a»arajlQ$ deputados qoef devia 
substituir. ;a qiie fora di^olviiac em; oensetpi^nfisa 
dos prâeípi^ f e^v^Mi^MiOs qii^ai»^cantai:aHi 
a pais, e (brigaram oâ g9ViRiiafiteS;a pedir ach 
xiUo. ás tnss ^mífie^. aUiadas,. JieaB»ba, Fraaca. 6 
Ii^atenra^ ' Gooeloida r esta «muaisãíão díe qiiâ a 

poeta era iiea^rd, comareoq^oiiÂdMle qoe^^i^ 

semffre eçi sJtuaçpe» metindrQ^^,>e: aj)^a de sim^ 

pies respousabitidade^ recebeu. no me^ sagiúf^^ 

ALJtfEIDA GARRETT ^ * 16 * 






^SêêÍ^-^ 



a. ncrnsi^ dettembro da commissSa extraordiná- 
ria de Eazeoda. Duraate o& primeiros mezes de^re- 
volta qoB Portugal soffreu com desesperado» dei* 
xon o ^aympathieo auctor das YiageHs^ adorme- 
cer Bovamente as suas prosas e os seus >'ersos 
que tiiàa eome^ado em epoebas mais tranquiU^, 
m^s sereuabdo-lbe, em éonseiiaeiíeia da sua pou- 
ea^saude^ as pesadas occiH)d!|^s que settipre Ibe 
absorviam o t^npo bos ultmôs mezes da revo- 
hK^o sendo soeio lumorttio da Academit Por- 
tdeòse de Belias-artes, e da Academia Philomati- 
ca do Rio de Janeiro» começou a coUeèeionar e 
a refimdir o&^ sem Bomanm CavMereBcútypehs 
quaes suspiravam os^pretos, e aiiMla mais os ami- 
gos das lettrasr qae liam com desmedido totor as 
suas prodttc^^. 

Estes bellos lavores, fiibos de proluBifissimas 
meditações e estudos, foram entr^ue^aos esto- 
res pelos fins de 1850, isto é, o segunda volu- 
me, que contem quinze ou desess«ís rcmances, 
todos ou quasi todos precedidos de^ explicais 
ao texto^ e sei^idos de notas iUnstradas para a 
verdadeira intelligencia dos leitores. O primeiro 
v(dume do magnifico romanceiro sair» em 1843, 
comprebendendo a Adozinda e outras peças de 
grande merecimento. Pouco' depois de se impri- 



227 

uàt o. segundo volime» appareeen a terceira cGfn« 
tendo vinte e taqtas peças cheias, de graça e pbi- 
losopbia.. 'Pareee^ine que^ Âlmmda Garrett tinha 
escripto, ou principiado a debuxar, o quarto vo- 
lume doesta obra com a designação de Lendasí e 
Propkeeias^ mas nSo consta que chegasse a con- 
cloíki, ou que haja algum rascunho em pod^ 
dos seus herdeiro»* £m 1847, — supponho que 
no fim — acabou de compor a sua linda comedia 
em três actos;* A Sobrinha do Marquez, cuja oc- 
ç3o se passa na ^oca do grande SdiastiSo José 
de Carvalho e' MeUo^ marquez de Pombal. 

Está peça c(mieçárft-a o poeta em 1838, e só 
nove annos depois a concluiu, a pedido d'algu- 
mas pessoas a quem o assumpto interessava. 
D'esta comedia, poucas ou nenhumas-reminiscen* 
cias me restam, epor isso vaibo^me d'um arti- 
go que tenho presente, acerca d'elia^ incerto no 
segundo numero do jomat a EfGca. 

Diz o artigo: s' 

«Cada p^sonagem etprim&uma s^ie de factos 
políticos ou sociaes^ e repre^nta uma classe in- 
teira. : . . ' 

«O padre Ignacio é a companhia de Jesus, não 
como a deducção ohronologica (Attribuida a José 
de Seabra) a descreve, mas' c(Ano o marquez de 



2S8 

» 

PomM sabia qae dia erai « ^ aio ^queria ter 
noSstaâo,» 

«D. 'LUfz rdtrMa o orgalbo Monaurel ^da flor 
da aiii6to{9racia, 4iue 'I]ioito> qoacírt^, rpara fiidvar 
Mtea a pureisa (te sua oaste, e {cefefio os ic»* 
tos e o oeppo jdo âigfoz, á bumiliiaçao â« «steiv 
ier a 'flAo de parente ao iplabea nobilitado. O 
rei pode dar ^s ^tMos» poreni, Dras, só Deos 
ftiK a nobresa. 

«Estas ávm ^ygand^s**^ a religiosa e ia no* 
bilitaFia~est8o ^aHiadas^ e sVo aonifas iem aome 
da perseguiçSo ^msMiin i^e as* ala*aça. 
' 40 jesiHta esli pitompte ia >ecder de «pdcK, 3&e«* 
nos da Gomponbia^oiMiiiO 'cotdlo sobre aicabeça e 
Gom os sQspireB 'de seu paefurezo e «Boríbmido 
no« ouvidos, íbosila aiBkda te iret^onde, qn&ttoão 
moDOB <a ihoara, lhe pode confiscar fiAastião José 
de Carvalho. 

<rMaDnel Sioí&ss ^inta atelaBse media emiodaa 
verdade do typo. Pela edacaçio pertence ao pas- 
sado ; --erd tia (Xffiqpadna de Jesus, tasliflia a 
sorte 40s fididgos}iisi|çados; e ibivida nxmrigo 
mesmo se aquella revoluf^o, que lhe custini a 
cabâga, « fes rico e Tespeiiado a dite, foi :ama 
enieldade arUtraria m um acto luecessarío. Pialo 
seu inAifieto deidasse^iestma/admica oiBargaez, 



»... .',.' ■~Tr»H.-.^L...*.. ■LJ.m^^. 



tsradila! qfm eite; tnabalbim mtiíta pela B9^a; 6 
vSb está rtài aoa raiSto âf|)otd!« âeisar de tremei^ da 
sesi mnoei. A: tíat Alooúia^/daf faioilia^ popular âas 
boa» toibai^ CMn que sei enearapoi; m%$9s paas>f9 
9iQ a^paofti Aos néS) aifidâ) cliegon a> al^nea^ ,, nua? 
ea sedtadbu Bsti âeseobaáa eoBUí a maícir esac^ 
ttdao(, e dá aOf;giiaíBÍr(^ a h^m de^ eQStj2iiâ& era 
i^erofiiMlbtiiQa! fOA devia tetiâ 

«Sn fioir D« MariafiDi^ dô Mello è nmai dcmill 
91» d& aras ib (saraoter do jâmtpiez, e aa- esecK 
la d'elte apteadiea a soffocaQ q eojMffgOi. para. 0137 
víe sdt o àmv^, fisla^ vQoa^o a^^aiitev^,, la^^men^ 
tei wQmc9^ e> â^uoifr elôvai6^< trevosa, se^ve de 
Im.ài pas» ({lie eoeiíTa o> rnuUia p^dSo-da ae^ 
breza offeodidi;, e^ dcrnMHrinieiz deicaíâoi» 

«OiiJUtniAo/apmeita a ocoasiSo para abusar 
dairaijia da; sna.casa}-^ vè^< prootrado e eâtendiar 
Ifae aij&ão para ^ ImeitúM. 

«£^ o>;ideal io eaiaibeíim portii^W»^ «Ut toda^ a 
siablíimdaíde d'alma^ Emi (paoto 0' marcpieiz^erfa 
senhor, duvidou acceitar-lhe em casamento; sqA 
solH^a^ «0m a Hbandade^ â'Ui0 pa^o, e a restitui- 
^' dai todefi oa bens) em. dote., Qvaqdof o^ astoo 
aaei< nooeaso', & as r^rexalidâ vãoedsteçarié^eir 
le propfftd. que proço^o: pacto>. e» eoanimwHii 

«fituboi^ãr' (Mcasserpir m«ilo„.0' amor Aa enoch 



230' 



leúcia da acciSo, á sentithedtoqué venceu éÍDuai^ 
honroso, o mais puro que ha nainida: (> már* 
quez^ na hora em que as illus&es se perdein; sol- 
ta uma verdade, em que está toda a critica do 
seu reinado: — «Âht D. Lui^ i eu nlò' soube, tão 
soube fazer, nem amigos, nem inimi^sl» — E 
foi assim. Para firmar o poder teal banhou á co- 
roa no sangue da nobreza. Para procIamM* a sua 
preponderância, derrubou a potêfacia moràA dà 
companhia. Quebrou o braço a qâe se encosta-» 
va a monarchia, feriu a cabeça pdr onde eflá via 
e pensava desde séculos, edeu-Ibepor apoio es*^ 
sabaze movediça incerta e desconfiada-^ o egòis- 
líio burguez, — que por estreita mao chepva pa- 
ra assentarem um throno em cima. 

cSem querer e sem o suppôír, Seba^So José 
de Carvalho, ein nome do poder absoluto, foi o 
percursor da revolução politica. O que fiiudára 
para a monarchia, quasi tudo viveu menos dd 
que elle; — assistiu de pè ás exéquias do seu ioh 
^erio. 

«Do que estabeleceu para a burguezia, nada 
sé perdeu, tudo se tomou robusto, e com ò tem- 
po ' a potencia achoú^se sem forças de dar bata- 
lha e de vencer... aquelle poder absoluto que o 
marquez julgava* fazer et^iio, amassando^ihe os 



231 



alicerces com o saogoe do.doqae d' Aveiro, e do 
padre Maiagrida. 

cO primeiro acto, a exposiçfodaSoòriiito do 
Marquez» ó um modelo* Aates de appareoer, o 
espectador reconhece já amanqpiez.de Pombal 
peia: bocca de Manael Simões: ,<) padre Ig^açio 
também já traçoa o retrato da eoqipstnfaia) e re-^ 
velou o segredo d'essa JfifloeDeia tanílde e po* 
derosa^ jqae ao mesmo tempo* arrastava a socie- 
dade: pe)a. persuasão, e a dominava peta 4>b(fi6iiW 
cia. D, Um^r^L tia Momear Mamiel Sin^Sy D. 
MariaDDa e os dois caixeiros, cada qual em seu 
lugar, estão desenhados com o maior vigor, fal- 
iam como se esperava qae Massem de si e dos 
outros, e eiplicam-se mutuamente e ás circums- 
tancias que os rodéam* 

cOs dois actos s^uintes, a nosso ver são infe- 
riores, e ressentem-se da tyrannia que o auctor 
se impoz a si próprio, querendo encerrar em tão 
curto espaço, typos e acontecimentos taes. 



«Como estudo pbilosophico da época, a Sobri- 
nha do Marquez é perfeita; como desenho histó- 
rico, exactíssima; como comedia e forma d'arte, 
a exposição parece-nos inijnitavel: o estyllo real- 



232 



fd eom a graça 'iiatnral qae é segredo da musa 
familiar do auctor, e muitas sceoas âfa^d^mua 
eon«eo3<» a verdade bii)hanlissimas«> ^-*^ O aactor 
do. >aciigD. ((»fidite)io<^Q:j«iizo critico com estas 
pala^vras satisfatorias : «A^ Sobri$èka do Marfuez, 
se Qãii é das primeiFas,ié da certo daa' boas 
obras da soa fwma.» 

Eu» iior.jniriíai parte aada poéso diaw s(d)fe is- 
to, mas para se toouar dootaecimeâto ecm os par- 
tos iitteranos do Garrett^ basta le^8è.a pripsi^a 
obra, decHdiiecertea a> seuibrithiante engenbo^»]^ 
ra se sièer o qoe vaiem as QMDSw 



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«Saiiáadél |«sto «iiliigo^di inftficflii 



«O viço de meus annos se ha maitttado 
«Ra» Mga», ao wtiae 6ev»4é MM» ^ 



(Gaim^bti.— •Camdfi^.J 



xív 



Em 1848, estando o nosao eatífaado dramar 
largo a^fiima eoUa adoentado, mas com o espi- 
rito socegado e trtnquUlo, pode escrever e dar á 
ioQirensa mais uma obra de grande mento, e 
châa d'nm sentimento tão (urofondo que nos ái% 
sttffleientemente<|adiito YaciUaTa e tremia o pulso 

què a traçava, e o doloroso tiHÍ)i{h3a de pensa^ 
meâtos tristes qne babKava^o c^r^ro que a con- 
cebia. 



234 



E o poeta tinha rasão sobeja para soffirer» cho- 
rar e tremer, ante o papel que recebia as soas 
ideias, n^essa occasião de pungentes recordações! 
Recordações dos tempos, em que não lhe era con- 
cedido abrir os olhos ao despontar do dia, e fí- 
ctal-os nos horisontes da sua pátria, nem ver 
o rosto da lua que a allumiava durante o correr 
da noite; as recordações do desterro, sob o ne- 
voeiro que povoa quasi sempre a atmospbera d'Al- 
bion. 

Este trabalho foi a Mmma Histórica da Ex.°^ 
Sr.^ Duqueza de Pahnella, D. Eugenia Francisca 
Xavier Telles da Gama, de quem o poeta rece- 
bera immenssissimas provas de consideração e 
sympathia^ em muitos soccorros que necessitara 
desterrado em Inglaterra, quando esta nobre se- 
nhora ali residia com seu esposo durante o go- 
verno do usurpador. 

Este perfeitíssimo trabalho honra tanto a il-. 
lustre finada, ea sua prole, como o grato protegi- 
do que ^Oube revelar e engrandecer as suas san- 
ctas virtudes e apreciáveis costumes. Que sau- 
dade pela carinhosa protectora dos infelizes des- 
terraitos 1 Que subbme gratidão, e que angustia 
pela sua dolorosa faltai Que reminiscência dos 
grandes actos, e das grandezas d'alma da carido- 



235 



sa protectora dos p(d>res, c qoe elop>.aqa^d 
mSo profQsa, que tantas vezes, vira levar o coo- 
forto e a alegria aos qae provavam o sofrioien* 
to voraz da fome ! Este folheto ó acompaidiadoj 
do retrato da protectora do poeta» e não foi ex- 
posto á venda mas foi impresso Qltimameote no 
já citado volume dos Discursos. Em 1849 escre* 
veu Joio Baptista e imprimiu outra memoria áeerr' 
ca da vida e trabalhos d*Qm dos homens mais 
notavpis do seu tempo, — José Xavier JMonsinho 
da Silveira. São também umas bell^ paginas pa- 
ra, a historia dos varões mais illustres do século 
em que vivemos. Goncluidos estes trabalhos e con- 
tinuando outros em que tinha dado os primeiros^ 
riscos, teve de os interromper paira tractar de^ 
promover a subscripção, para levantar o monu- 
mento do imperador D. Pedro l\, o bravo sol-, 
dado da liberdade, que pelejara com elle, e com 
elle desembarcara nas longas praias do Mindello, 
sobre as cançadas tropas miguelistas, — em cuja 
commissSo fora incluido em 13 de Dezembro de 
1850. Por este tempo era Garrett, membro ho^ 
norario da sociedade Ârcheologica Lusitana, on^ 
de o respeitavam como mestre, e era querido ex^ 
tremameute pelos sócios d'aquelle'estaJ[)elecimeih 
ta tendente a avivar as antiguidades monumen- 



23S 



tatts ]& bastante epcurecádas pela nuvem, das tmr 
poB». e^ oom a fttmto yendada |Mr vm manto* di^ 
masjgo éi^eeso. Eram bons tempos ainda aqoel-^ 
tesy ^m que osí homens detaletoto se emprâgavadu 
em. misteres que eram: proíveitost» aO) berçir que 
081 tiúha embajade. Hoje... onde se eacoâdearaoi 
os bomens d'iik&lligenciaextiremada«A^ filhos dais 
Bmsas sobedDas academias ? Onde fiofraos. ame^ 
messados os continuadores da estrada de Gamõesv 
Vieira Bocage e Garrett?. 

£m qne fogo caio^ ou em que. m⣠se afauden 
essQ) poseaote macbina. do pensamenliO' bomano'» 
que transportava es grandes bâmenSi dos^oampos 
da me^a poesia» aos da prosa correeta e admi* 
rarel qitô era: habitual em D. João de Lucmas^.e 
Fernão Mendes? Que., mald^o gdpe Sakmimn 
m miãTiosos^ poetas^ e os pensadores prefondos?! 
A morte,?... E onde estaoboje os que.os itol^ 
ram representando ?.. * Onde se . enroLvem agota ? 
Kas salas, rendendo finezai? ás míuUierea^ eins*- 
ererende mais desgraçadas nos annaes ósí proatir 
tuíção ? Mb reuoiões elandestinas» baraieandb^ea^ 
se naida qoe nos resta dai desgraçada palria? Kos 
eafès e bilhares diseotindo acercai dd que jog^ 
melhor as: carambolas f Naturabnenke.*. sSoi as 
oooiqNiçSes fárorit^, da maior, parte doshm&eos 



que Bensam, e isabem pút nm estudo poifôiiveL 
00 impossWei, vp» deis e mats âois» faz imuiío 
òettmíeftíe quatro l... 

Algufts que possuimos aioâa ^do tempo de Ga* 
rett. te (»jas ideias aioda qIo isoffi^ram o deote 
do léaroadio maligno, esses, recolberam^de aos 
^eíos idas scraves aSairilidades familiares; e idieixa* 
riam jde grilar iá turbas qms os apedrejaram, mon^ 
do^pela Ifraqaèsa e íaGtmdade do espiíitot— adiante. 

Em B de Março de lâffli, saiu um decreto mt 
<fae se iiomeanra Garrett, plenipotiendario para JQr* 
inare conobiír a coDvencSo Utterarid entre íortur 
igal >e a Bepiail^a Franoen^toom o pIenípDt^cia«- 
lio td'aqnelle Estado Mr. Barrot» o que coBseguio 
ie^r ja -ef^to em lií id'Abrii do;mesmo anno. No 
jim il'fista ^Kunmis&ão/ foi <snrrett declarado 
jaaiinstpo plenifKttenctario em «ifHspombilidade, e 
â^' vencimento d'oFdeaaão> em consequência d^ 
o venoar^por outros cargos de que estava i les- 
la. 'Em (3 de Jnnbd fbi râda Bomeiado pienipo- 
lendário é% S. Magestade Fidellissima para tra^ 
ctar {novamente das adiantadas negociações com 
a Ssmcta Sá« começadas em Mai^o de 1^2, en^ 
Ire Portugal e o Arcebispo de Berito» Intemundo 
de S. Sanctidade. 

Bm^S de iuriío d'6ste iiúesmo anaô de 16Si , 



SSB 



Sua Mdgestaíãe, attendendo aos muitos e vãdiosos 
serviços prestados por este nobró e leal porta- 
guez, como soldado no campo da honra, zka ie- 
giâlatCkra, no ministério, no sen consdlio, na di- 
plomacia, e em outros lagares distinctos, sempre 
pela Sitd< Real Causa, houve por bem conferúr-Ihe 
o titulo de Visconde d'Âlmeida Garrett, por tem- 
po de duas vidas. O soldado da liberdade, via 
alfim o seu nome escripto nas paginas douradas, 
dos nobres vassallos d'uma rainha que sabia pre- 
miar condignamente os homens que por seu vas- 
to talento a haviam livrado das ameaças quesof- 
frèra durante o seu reinado. Lembra-me; agora 
o dicto d'um litterato respeitável^ por occasiao de 
sair visconde o nosso sympathico poeta-^-^iá des- 
honraram hoje um níeu amigoli — Aqui é que 
eu nada posso resolver; se o desbonraram ouètlo, 
mas 6 certo no entanto^ que muitas vezes se dio 
honras dèshoilrando. Não busco penetrar agora 
no pensam^to secreto do homem qud proferiu 
estas palavras, mas lémbra-me da varias coisas 
que Garrett disse dos titulares, 6ntSo na minha 
opinião, sustento que devia pedir outra coisa em 
lugar do titulo, e continuar a seguir as méèmas 
ideas n'esse ponto. 
Três dias depois foi ò poeta nomeado meiõbro 



330 



' i- r ■«« 



é^umâ commrssSoique/se.foniiou.em Lisboa^ pa- 
ra reorgaoísar alguns raoios de serviço pubUco 
qoeba viam. catão no inteiro esgaecímeato, em 
conseqoeoeia das gravíssimas accapações. que 
absorviam todos os distantes aos homens <|ae os 
regiam, ^ . * . 

N'^te mesmo dia 28 de Jonho, foi encarre^ 
gado de redigir os estatutos da A^cademia Real 
das Seientíias.. '■■'-■■ 

Em^â3 de Setemlipro foi i nomeado, vogal efe- 
ctivo do G&Dselho Ultramarino, e em 29 do 
mesmo meze anno^ saciado ccmi o d^made 
Grande pfQcial daLegiSo de j Honra de França. 
N'esta época era elle deputado pela provincia da 
Beira. . 

Entrava o anno deJ8S2> e o poeta-orador 
sempre dedicado e apaixonado peto>])om, andai- 
mento dos negócios do paize felicidade de seus 
inâãos, e tributsmda pura e inquebrantável ami- 
sade á Real Família» alcançou em AS de Janeiro 
a carta regia que o nomeava Par do Reino. 

Nos princípios de> Março do ^mesma anno ap- 
pareceu um decreto que o fazia Ministro e Se- 
cretario d'Estado dos Negócios Estrangeiros, cu- 
ja graça acceitou, exercendo esse lugar honoriâco 
com a prudência que empregara sempre em to- 



240 

I Wl.WP.„^ _, _ L «Tf l.l ■ ■ 



(tos o& WM^os ^qne tòmtva. Ifas iófelismaDle* ai 
soa adoaiQistraç3o duroa poaoo tempo» porqoe Oftr 
de existe a meotira e a {rereraíâade, iiiopo^teon 
socegar ^ deoNoieatos nobres e a venlaéab 

O Qobre estadista deison o sea iogar em 91Í 
de Âgòsto do mesmo anDO, parece-me que por 
intrigas dos mais govecnantes >gQe pratk»yam 
kKiearas, tio làesmo gabiíiete. Digo parecMneii) 
porque poucos ou nenhuns documentos possuo 
para ossat^erar ;*-^*por isso i|Baiid»ianâ»ntritPjaEais 
sfinplos esolarecinentos sobre a busl saída do ga-* 
binete q(ie dirige, direi nms alguma coisa sobre 
esta interessaote transie^:da vida pubikado 
poeta. 

Em 27 de Março do mesmo anno, foi Gan^tt 
agraciado eom o dipUmia de Gnen-Cniz da Or- 
dem do Brasil, e «m li de Abril recebeu a coa" 
decora^^o de primeira idasse do Nkbaoi Iftiar da 
Turquia* Deootrrido poooo mais de dois mesm, 
foi-lhe dado diploma ide 6ran*Cfoz de Leopoldo 
da Betgica, o em 3 de iniho coocederam-lto o 
diploma da O^dem da Bstrelia Pollar da Suécia 



(i) Veja-«0 BoSa no fim. 



241 

,1 %. ■«■.IH*- >'.»■■■< .!■ ■ » ■ " ■ > 



e Norwi^. Nomeada BaMe-Bonerario, e Grai> 
Crii2jcla Oráem Militar d» Hospilal4e B. Jòâo 
de Jerusalém, a-i do segDínté meíz. * 

Na urcâra totaçSo doeste aâno, na Academia 
Real das^ScieQcias, foi consiâerado soeto «ffecti- 
YO^â^aqaelle.esUèelêtíineiito. E acaba aqui atna 
das grandes ep^eas de Garrett, e <^meça outra qne 
deve ser a derradeira) 

Ko dia lô de Março do anuo seguinte, 1Ô53; 
foi exonerado de j^etípotenciario para tratMar a 
(xmoordata com a Smieta Sé, de cnjos trabalbo^ 
fora i^earregado pela primíeira vez em TtieMar^ 
ço de 1843, e crátinuara erii 3 âe Janbo dô 
1851, ' 

Em Maio de 1883 «aia & lièí: da publidtiâde 
o seu segundo volutóie èe Tersoe qtie tem por 
tittiio, FaJMkiê-^Folhas Gaiáús. Por: e^ta occasi9o* 
era o visconde de- Almeida Garrett, presidenta 
h<«orario do in^tnto d'Africa estabeiecido ^ 
Vm^ 6 sócio Ao gabinete poriuguez de ieítttra: 
creadOrna cidade de Pei^ambuco. Na mesma épo- 
ca espalhava ^(e as ricas imagens do seu im^~ 
meítôo vocabulário, para um novo livro com que 
tencionava provavelmente fechar a sua magniãca 
lítteratura, que é sem duvida, uma das partes 
mais eloquentes e elegantes que possuo a língua 

ALMEIDA GABRETT . 16 



242 



*m * « 



de Frei Luiz de Sousa» e Bernardo de Brito. Era 
um novo género e um novo estylo da sua pexma 
engenbosai e digna de se ufanar ao tomar sem- 
pre o passo aos grandes obreiros do pensamento 
a quem se deviam curvar as gerações vindouras. 
Os seus amigos da infância, companheiros da 
miséria e da abundância» da baixeza e opulên- 
cia Utteraria, viam-n'o sempre, quando desliga- 
do dos empregos que occupava desde 1820, rodea- 
do de livros, debruçado e pensativo sobre as suas 
producçoes sublimes, cujos originaes conservava 
em seu poder, não nove annos como mandava 
o príncipe dos lyricos latinos, mas alguns dias, 
para emparas imagens rachiticas, com aquelle es« 
crapuloso esmero, que empregava em rever^ os 
seus escriptos, antes de os depor nas mãos dos 
sábios, dos pbilosopbos, e dos críticos imperti- 
nentes, que sempre esbarraram nas investidas 
que tentaran^ contra etie. Outras vezes, quando 
Q robusto lidador se alevantava da sua cadbeira de 
trabalho^ aborrecido de tão grandas lidas, viam- 
n'o logo distribuir os seus maduros conselhos 
aos mancebos que eram a seu. lado, e solUcital-os 
para si, dos homens, a quem os annos haviam enflo- 
rado a frente com uma auréola de ícan^». e legado 
o máximo conhecimento do coração jbumano com 



243 



toâas as suas virtaâes, núsçrias, bondadas, vite- 
zas» aborrecimentos» alegrias, e paix9es nobres e 
despresiveis. E poderia caber orgulho no coração 
d'um bomem assim, que nunca ousou di2er que 
se conhecia gigante? N2o, porque afai estava a 
sociedade para o avaliar; e se acaso assim o 
pensava, pensava muito bem, porque não ha me- 
lhor juiz, do que esse turbilhão confuso do mun- 
do, cujas malhas só deixam passar aquelles que 
pela sua pequenhez viveram ignorados, é passa- 
ram na immensa caterva dos seus rebanhos, abra- 
çados aos altos tacões dos vultos mais extrema- 
dos. 

Na mesma época— dizia eu-^espalhava elle as 
ricas imagens do seu immenso vocabulário para 
um novo livro t Sim, escrevia um novo li^To; uma 
historia recamada de philosophia, em que nos des- 
dobrava diante dos olhos um dos quadros sociaes 
que tanto escaceiam na Ctteratura nacional; mas 
para desgraça nossa, e das nossas lettras, ficou 
essa pintura ainda muito longe do seu termo, por- 
que os últimos traços que ali sé apreciam fome- 
cem-nos uma favorável ideia de quanto faltava 
dizer ao abalisado escriptor, para expor aos olhos 
do publico aquelle painel grandioso, que havia de 
offnscar a vista e a gloria dos melhores pintores 



344 



do nosso século. ii?á(|Be(Qe.geoero que, eMe eotia 
ereava, já fortemente alqúiâbrado peloa» s^os par 
decimentos que o atormBntavmi 

Era um liado romance canfeoiporaQeo^ cnjDS^ 
primeiros capitei, correm com auctorisação da 
ancliOr nos < sertões do Brml nõú muit& bmge 
da Bahia,, ao soou dos touéos qn& sihitavam nas 
copas das paJsEteíras^ dm mvos das feras sertar 
n^as, 6 do canlap soix(H*a do rouxinol d' America, 
— 0' sabiá. 

Que. lioido quadro» e que prim(flPOso estiidot £^ 
que: maga poe^a pullula n'aque]l2& S0berba&. pa- 
ginas ! Que elegância de formas, e que sublimes 
pensamentos; Da tudo quanto bei lidto sobra cos- 
tumes bi^aziteifos, nada tSD Jteello tenho visto co- 
jm estas poucas paginas, que nos laprea^ta Gar- 
ratC^ n^este soberbo {H*olog.o d'úmli\ãro; Este firag- 
meiito; d'utt romiuâce delicioso, que nos veio di- 
:^r quanto seu aQ<to*eraiiii£ãttígavelintitula-se 
Melena, 

O gr^ide poeta^ mesmo doente eomo esta:vj» 
enw)lto .n'uma mortalba de dores atrozes, vigiado 
peloB facultativos: espeta dopte elegante,, aiada não 
fechava O; numero do& seus livros. 

É que: socegado alguns dias aquelie cei^ro 
ardente e fecundo^ ccráeçaya a trasbordar de poe^ 



24S 



8ia/6 o possuidor d'^te, tinha de buscar um va* ^ 
gò onde ÇQt^roasse essas copiosas torrentes que 
deviam eni^içar alguns paramos sociaes» onde não 
checara m^ o maná refr^erante de seus olhos, 
o ecjco da sua grande palavra, e o vibrar d'aquel- 
la harpa sonora em que modulou hynmos a 
Deus e á pátria, e que então já deixara de dedi- 
lhar, ao sentir que a fronte lhe propendia tei- 
mosa, para a dura argilla d'onde o mesmo 
Deus o havia arrancado. As ultimas pincelladas 
gue ^tt no seu bello quadro da Helena, mos- 
tra-nos sniSfiienjtemente as grandes lavas d'ima- 
ginação que o abrazavam n'aquella occasiâo^ e a 
divina inspiração que sentia na alma; mas des- 
graç^daiiiente, o poeta abandonou*o n'um poncto 
de tanto interesse, que temos quasi a certeza, de 
que alguém o foi interromper, e tirar*lhe da mlio 
a palheta d'ouro ^çfue empunhava. Este romance 
foi interrompido necessariamente nos fins de 1853, 
epdca em que Garrett foi chamado á camará 4os 
P£H*es pard defenda dos tumultos oraes, essa alu- 
vião de religiosas que habitava os numerosos mosi- 
teiros que existiam ainda n'esse tempo em Portih 
gdi, — com o seu magnifico relatório e projeâbo 
de lei, que apresentou nas Camarás em 21 de Ja- 
neiro de IS&ii O poeta di^ ali alto ebom sow^ que 



246 



devem existir esses recolhimentos para refagioi e 
abrigo de mulheres desamparadas e infelizes» e 
educação de raparigas desprotegidas da fortuna, 
e todas aquellas, que, olvidando as turbulentas 
paixões e os desregrados prazeres mumlanos, 
buscam emfim o descanço do espirito e a morte 
dos sentidos, no silencio do claustro, para alcan- 
çar a gloria eterna em estreita convivência com 
Deúsí 

Este relatório é um fecundo ramo da eloquên- 
cia do talentoso estadista, para lhe atigmentar a 
coroa, já tão elegante e respeitada pelos porlu- 
guezes e estrangeiros. 

N'esta mesma sessão, apresentou o seu Hco 
relatório de bases para a reforma administra- 
tiva, que havia tantos annos que era assente so- 
bre alicerces tão aleijados e incomprebensiveis, 
que não se differençavam os superiores entre os 
subordinados, senão pelos lugares em que se as- 
sentavam, e pelos ordenados que venciam. Me- 
dindo o poeta essas desigualdades com ò metro 
recto dos seus puros sentimentos, não pôde con- 
ter a impetuosa lava de indignação, que Ibe co- 
meçou a est uar no coração, e empregou toda a 
sua força moral para lhe fabricar um termo. Does- 
ta tempestade colérica, foi que saiu esse projecto 



247 



que submettea ao exame d'uma commissao, pa- 
ra lhe dar o destino mais acertado. Mais aliiviado 
n'esse tempo dos seas padecimentos, julgou que 
a sombra da morte o desiimparava emOm, mas 
eram tão passageiros e inconstantes esses aitivios» 
que. pouco tempo gosou essa venturosa felicidade 
que havia muito tempo que não experunentava. 
Breve... muito breve, sentiu ranger os ossos, en- 
tre os horrores d'um soffrimento que promettia 
arrastal-o á sepultura 1 Mas aquella grande alma, 
aqueile espirito fecundo e inergíco, possuía ani- 
mo ainda para supportar por algum tempo as 
acerbas agonias que Ibe cerceavam lentamente a 
existência. Aqueile génio altivo, fadado para en- 
caminhar seus irmãos ao éden da perfeição, onde 
se aprende a soffrer com resignação as tempes- 
tade da vida, ainda não se curvava ante a pavo- 
rosa uuvem que porfiava em annuvear-lhe aquei- 
les olhos vivificantes, acabrunar-lhe a fronde 
egrégia, e murcbar-lhe aquelles lábios sympathi- 
cos, onde a cordura e a bondade jamais se ha- 
viam apagado. 

Entrava na senda do existir o mez de Fevt^reiro, 
e a dôr do poeta, recrudescia com indomável te- 
nacidade. A camará dos Pares esperava-o òom 
a viva ançiedade^ que o enfadado e ferido joga- 



«48 



dor d^sgrima» «spera e implora para. ses laào 
yai mStevo i^atural de Garnwaílles, para o salvar 
do florete eQveQôaaâo'qoe o seu adversaríobe 
apoQta ao 3ití o do coração 1 k numerosa cambra^ es- 
pera va-o para o ouTir entrar na discussão da nes-» 
postado discurso da Goròa, em que s^inpre so dís"* 
tioguira- nas camarás anteriores, tanto, quanto 
era dado a um talento assim^ e a uina :alma qae 
mmea se-dobrára emfirente à)S;gigaotes que o ti* 
làm acommeltido, . i 

A: oaflftara contava com a protecção da sua pa*> 
lavra de vigor transcendental» os dias oorriam. 
rápidos^;© a lerai doeaça redobrava J 

Que esperanças para o parlamento. .. 

Ghegou finalmente o dia 10 de Fevereiro de 
1854. O robusto poeta, ergueu-se do seu leito 
d'agonias; com o firme propósito de compa^er 
onde o chamara mais que a própria vóz do de^ 
ver» a franca e leal amisade de seiís amigos e ad- 
miradores, que vendo-^o tão dobrado- 6 desfaleci- 
do, desejavam ouvil-o mais ao menos uma vez» 
animado pelo fogo que devia prodbzir tfelle a 
grave discusáão, acerca, do dstaldo da administra- 
ção publica, 

O género da. discussão não. aterrava o gigan- 
tesco orador; mas a enfermidade oppor-aè-ia a 



849 



qm s/^^íQ a seu modo, á palavra qua íDteroe* 
m B dominava as asaembteas?: £ra-lho iioposslr 
vel sabei-o, inas o poeta cria ainda ãrmementô 
n'Aquelle que accende o estro do corarão, ín 
com Sua npião divina, grande o que nasceu pe* 
queno, e amesquinba á extrema humildade, o qúè 
sempre se vangloriou de ser altivo e potente. ' / 

N^estâ propósito sentou^se a escrever. 

Entnetanto cbegava a seu lado, e abraçava^ 
com o mais profundo respeito, um dos seus sdab 
constmites amigos ;--tiiá vez o melhor que pos* 
suiul . 

Talvez? Não; — era inquestionavelmente o cor 
ração que lhe. tributava então mais puro affe(Ao! 
Era o : seu discipulo favorito, Frandsco Gomes 
d'Âfflorim, o estimado poeta. dos Cmíos MatutU 
«oW (4) •. . 

Junctos e unidos os dois poetas» mestre e d^*» 
cipulo, conversaram algum tempo, emdifferentes 
themas litterarios e scienfíQcos, e assuiçptos pút 
blicos e particulares. Amorim ainda não se resol-^ 
vera a perguntar-lhe se tencionava ir ao parlamen^ 
to n^aqúeUe dia, e o mestre não se havia lemi»rat 
do de lhe dizer que ia« 

Ouviu-se na rua um. rumor leve e fechado» qud 

(1> Veja-ie nota etc . .. . j 



ãSO 



se assimílbava ao rodar d'uina carmagem, cajôs 
cavallos se condusiam n'um galope tenteado. De 
repente cessou este raido, e a rua de Sancta Isa- 
bel caiu no seu sileneio primitivo. 

Amorim nâo prestara maior attençao ao que ia 
fora ; olhava compadecido para o mestre e cou-^ 
versava. 

Garrett ergueu-se prestes da sua cadeira de 
pau sancto, e apoiando-se ao hojmbro do seu ver- 
dadeiro e leal amigo, eneaminhou-se para a ja- 
nella com passos' pouco armes, e vagarosos. 

Era a carruagem que o devia conduzir a S. 
Bento, que o esperava á porta. . 

Amorim, olhou para o mestre com a respeito- 
sa expressão que se deve a um pae, ou talvez 
com a veneração que o crente contempla uma 
imagem divina ; e abafando no peito uma palavra 
que já lhe começava a mover a língua, ficou si- 
lencioso e pensativo. Garrett compreheudia-lbe a 
mdga expressão dos olhos, como Luiz de Gamões 
coii4)rebendera as gesticulações e olhares do seu 
Jsxi fiel ; e enviando-lhe um d'aquelies sorrisos 
maviosos e de pura confiança que tinha sempre 
nos lábios, para aquelles com quem tractava, si- 
lenciou também. Tinham apenas trocado aquelie 
olhar commum, serenos e mudos, e os dois 



2K4 



pensamentos d'alma, já estavam revelados entre 
si. 

Naturalmente o discípulo perguntara-lhe n'a- 
quelle olhar de sancto respeito: 

— NSo temes que te redobre a doença e te 
Álte o alento vital?... 

E traduzido o bondadoso sorriso do mestre di- 
ria proximamente: 

— Se me escacear o animo, e me abreviar os 
dias do viver, é no posto que me aponta o dedo 
da consciência, e a favor da causa que jurei de- 
fender; com a dextra firmada no evangelho da mi- 
nha pátria. 

MSo ouso aíSrmal-o, mas olhando attentamente 
para as saudades do discípulo, e engrandecendo 
por eátas o coraçSo leal do fecundo auctor^ de 
Frei luiz de Sousa, nSo se podia esperar que os 
quatro lábios coassem mudos, outros pensamen- 
tos que n9o estes. 

Pouco tempo depois, partiu a carruagem, le- 
gando o definhado orador ao seio dos Pares do 
Reino. 

Gbégada que foi a hora desejada pelo parla- 
mento, começou a proferir o seu discurso;— e 
fez isso em tSo feliz instante, que o eonclúio duas 



2Í8 

r'^.|V' ..,-■' ■ ^rVV-i it,lr, - , , ^. ~ 

« 

boras âe|)Qís ^proximadameote) epitmgmcc^o- 
sissimo chuveiro de bravosi apoiados t e vozes de 
muito bemll 

Foi um delirio imme&so pâraos ouv^te^» íQ um 
inteiro triuinpbo para elle. 

Mas que pureza de ideias, e q^e elevadQ3 peo* 
sãiaent03 vef tea a- /esta vebemente oração, Qoi^e- 
bida por entre as dores que lhe- violavam a^* pa- 
tranhas do coraçUo t 

' Que vaUe essa volumosa miscelânea d^oracSies 
parlamentares ao lado d'esta metropoU de peosa- 
m^tos que ninguém ousará combater com a pu- 
ra verdade que elie empregou sempre em todas 
a$ suas palavras, ^ n'esta occasiãOi para refutar 
aíassatções do ministro do reino? t Qiiem s^ «tre- 
v^á a cortar-lbe esses largos voos que remoa^ 
taram ás regiões do infinitp^?! Quem sem o mjir 
lio d'uma nova torre de B£|bel, lhe poderá lapçar 
a mão á coroa que ganhou pelos seus talfiQ- 
tos?! 

Quem?! £u não sei; que o digam aquelles (]tud.sa- 
bem melhor do que eu, apreciar as obras dopeu" 
samenlo humanol • - 

QU6 magestoso aspecto não havia de ser o do 
poeta doente^ animado pelo fogo da pai&ão <f^ o 
Foia^ quando ratouohou d'imprudeate o wmistro 



2S8 



das justiças e Hie desfeehoa no roeto ieDBado es-* 
las palavras: 

— «O seu procedimento nem é c^nstitueiô&al 
netn ca(bolieoi!]>-^E como não havia de estar ex- 
temiado aqueile Aigaz espirito; tSo fundamente 
roido pelos vermes da morte I Que o digam' oú 
que- assistiram a e^e grande acto» e tiveram re- 
lações estreitas coiâ eiie, porque eu nao tive ã 
felicidade de o cotítoei*; apenas me é agora con-^ 
cedido admiral-o nos livros que correm por esse 
grartde mundo, e nos retratos que o represen-^ 
tam. 

O orador foi interrompido muitaá ve^es com 
apoiados, ê braoóslúos srs. condes da Taipa e de 
1lM)mar, e mais homens públicos que presidiam 
a esla sessão interessante^ Garrett sentindo-se 
quasi exbausto de forças encurtou o discurso al- 
gmââ coisa, e dizem que i^ retirou das camarás 
bastatife desfigurado. 

Muitos que o viram assim, disseram que era 
aqueile discurso, o epQoga dos seus brados par-^ 
lamentares; mas Garrett ainda* não tinha tocada 
n'um poúcto que lhe indicava a consciência.' Ain- 
da lhe faltava trma flor para concluir o seu for- 
moso ramalhete parlamentar. Esse ratnaihete 
de elevado preça atou-o &i^mente na ses8%> da 



254 



t 

camará dos Pares, .do dia 4 de Março com o sea 
discurso sobre o estado d^admioistraçãç piaUi^, 
e questão do Padroado. 

Por esta occasiSo desa£froatou-se das palaisras 
que o ministro do reino lhe dirigira com pouca 
propriedade pretendendo rebaixal*o. Ghampiu à 
arena differentes ramos d'adminUtraçSo, e accu- 
sou de inepsia, aquelles, em cuja alçada estava 
remediar os abusos que se praticavam n'esses es- 
tabelecimentos. 

 camará ouvia-o serena e admirada, e os go- 
vernantes em quem elle descarregava as tempes- 
tuosas accusaçôes, encaravam*n'p enfiados, sem 
terem animo ao menos para sç olharem ^tre-si. 

Terminou a discussão. Pouco , depois saíram 
das cortes duas numerosas pbalanges d'homens. 

Uma, sentia-se presa pelas palavras do robusto 
orador-^robusto no moral, que no pbisico era o 
mais imbelle de todos, — outra a dos seus adver- 
sários, assanhada e amarella, como se quizesse 
tragar aquelle que lhe tomava o passo, e a sup- 
plantava na sua vergonhosa impotência. 

E lindam aqui as suas luctas da palavra, e os 
mais empregos que alcançou dos reaes poderes. 

Emmudecendo a sua lingua, só se ouviam em 
S. Bento uns eocos roucos e frios, que expiravam 



255 



ao tocar nas vozes do poeta que ainda hoje ali 
revoam, e os saudosos carpidos da tribuna orphã, 
e enfadada de muitos oradores imbelles que ali 
ficaram esbracejando^ e só de tempos a tempos 
se via animação nas camarás, aos brados dp fogo- 
so José Estevão qu& ficou sendo o primeiro ora- 
dor parlamenar do paiz. 

Quando alguns homens ali oravam, e se batiam 
renhidos sem resolver o assumpto por fim, e di- 
ziam sempre a mesma coisa, ouvia-se murmurar 
aoutrosemquasi todas as camarás, em voz baixa: 

Falta aqui um Garrett I E ainda actualmente se 
repetem ao ouvido estas palavras de immorre- 
doira gloria para o poecta, e de ectemo escarneo 
para os vastos marinheiros do galeão do estado. 



xt^rrei sobra eslas âom èesboUda^. 
«tLagTÍmsts tristes Bkinbas, ónralhaeas, 
«Oue a< ftrídetf éo Mj^dleáro* «s^tem cjiitikiiiiéo. 



{QÁKKÊXt.^Camões.) 



XV 



o visconde d'Alm6ida6arFett^ sentifido-se desEa- 
lecer dia para dia^ redolv€u-s6 6Dt3a a dar o adeos 
sentido e biú. aos negócios do paiz» e á& frivo- 
lidades da sociedade cpie^ freqnentara no decurso 
da sua carreira brilbantOi & algumas^ vezes falíz. 

SepuJAou-se no viver solitário do Ànacboreta» 
acompaobada pelos affagos da filba que estreme* 
cia, e do diseipolo qjue lhe adocrava as feras ago- 
nias d'alma> e erguendo silencioso uma oração 



ALMEIDA GARRETT 



Í7 



2S8 



fervente a Deas, agiiardoa tranquillo a mor- 
te. 

Ynlgada desde logo esta atterradora noticia em 
toda a Lisboa, correram ao seu modesto domici- 
lio, os filhos da mesma religião, os martyres das 
mesmas torturas, e até os seguidores d'outras 
doutrinas que não as suas, para lhe admirarem a 
resignação, e a divina inspiração que Deus lhe 
concedia nos poucos dias que lhe reslavana'. 

Decorreram alguns, mezes, e aquelle génio con- 
tinuava a soffrer sem que Deus se apiadasse d'el- 
le. 

A morte descia rápida, feia e terrivel para. em- 
polgar aquella vida saturada d'agonias. Depois, 
como o corvo que vendo o caçador atrevido, re- 
monta mais uma serra, e se vae refugiar entre as 
penedias, desappareceu da atmospbera onde ten- 
tava a estancia do moribundo, para o fulminar, 
com seu alpharige venenoso. Desapparecendo pois, 
essa realidade ou visão aérea, foram dores ainda 
mais horriveis, visitar o génio soffredor ao seu 
leito de Lazaro. E elle; já com a murcbez da mor- 
te desenhada nos lábios, e os pios da tive agou- 
renta sobre seus tectos, não ousava soltar um 
ai, um gemido, um desespero, uma blasphemiaff 

Que sancta resignação !... . 



239 



- D'espaço a tôpaço» assestava aqúellès olhos 
embaciados pelo saffrimeoto ; aqoelles olhos tao 
vivos' e f algentes outr'ora, e t3o encovados então, 
sígnal sufficiente de quanto a vida se affastava 
d'elle, — na cruz do Redemptor, que lhe era sem^. 
pre juncto do leito da agonia, e beijando soflpe- 
go e constante, aquella imagem da divindade, e 
aquella historia 4os : atrozes padecimentos de 
Gbristo, fazia apparecer no rosto pallido e tremu- 
lo umas oncMações, que pareciam exprimir estas 
palavras: 

— «Pae recto e consolador!... Tu soffreste 
muito maiores torturas do que estas que me gd- 
peam o coração, e passaste avante das faldas do 
teu erguido e pedregoso Sinay... Passaste para 
ensinar as gerações* a soffr^ com paciência os* 
maiores martyrios ; e os impios que te pregaram* 
no madeiro do supfriicio, adoraram^e por fim, e- 
atracaram phreneticos, as tuas sanetas doutrinas: 
— e depois da vida M d'elles o reino da Gloriai 
«Eu, serei também amado equerido além da sepuN 
tura^nSo como uma dmndade, mas como osmar*-. 
tyres das paixões terrenas, que souberam como eu, 
sopportar resignados os aárcmtamentos da ^ida.? * 
Â^séu lado era immovel, mudo eattento^. como « 
o cruzeiro do átrio velando a porta do sanctuarío, 



260 



o sâa lèaií discq)ulo^— ^ ftctava-o^ triste coibo^ó fi- 
lho earinhosc^^ que pnMto do pae enfenno^ ste^ 
te na porta as argotadaa da orpbandade; e par»* 
da pergantar ao. moriboodo tí^qmiíí» olhar nan 
readd de) lagrimas: 

— «Quem me áeiíM oo Biundo para eadier o> 
vaeno immenso do meo coitaçSo rasgado ?..jí» Mas 
o mestre do generc^ni^ poeta já nãO' sentia fbrtasf 
para: lhe respòoder a^ tão borrítel pei^gfmita; e eok 
costandQ-se a eUe^ apertavt contra a peito raiada, 
a crez que o filho de Deus levara aos cerFOS es- 
calvados do Galvari0« E a poeta das Fo^s Gai- 
dÀ9 começava a parder aq^ella respiração ^spi- 
ritaosa que expeUira akè-li df aqueãe sacrário tte 
poesia'^ e a visão da morte», que jjá lhe esvoaçara 
sobrei a: babítaçio, vSa vokaira; ainda a dar moh 
primentQ á soasmissSo^e oseu parecer cortara, o 
coração a^ álgtas cotas bondosos que o redeavan. 

Era pungente e didorosai^ ver esvai^^e gottar a 
giolta aqaelle bdsamo pitecioBov comj que o silen* 
cid80 mattyr^ (kdeificara tantasí amai^oras a seus 
innlios que sofiiríam, — com a suavidade* do anjo 
qve Deus envia ao' barathra lutrienb),. a d^ôr ura 
osculo de perdio, nosla&íDs do impio^RTepenâido 
que extrctotai com m pulsos roxeaddSi pebes ca- 
deias dos rem<»!sosi Obt como era tási»! Gomo 



im 



.»i— iqay-g* 



IWigPA A Alim» W iSokiQâr vd<:;illaat6 aquele a3(!ro 
dívi^Q» ás paft9$ ido acesso já nveias abailas, iim 
o roubar ao w^o^o». qm ^^borai^a Já a proxíDia 
^e^Uoe^p 4a 3Qa fltiamm^ ílQB^Qladora, Era émp^ 
datador as$ifitír á ç^srraeão d'agqellas orbitais soSn^ 
os d0Í9 olboiSSàixrcbQs^ epmo ofrucio que eanpeguer 
Cien b^jaâOrpQr uivii, i&sí^o pegonhentO;, ou varejado 
pala voQia^ i{96 }be lorçea a. baste que o praih 
j^^ 40 troQpo. Pre^a agueUa iristo yída por iw 
£o IHe (6Q\ie, r^sequido pelo$ sopros gi^ladpr^s 
4p aid> fraoíid^ «qiíeUa isente da poeta ^ onde se 
viram MtiUr sei^pre as fiamos íDextiqgiiiy^ 
ã'i;9»a iQteUig^oia si^perior; encolhidos os meopr 
bci^. d'aii»eU^ €0ip9 tão gaí^ate po seu2^pitb4e 
íeUei^lftde; abraudãdo o puJ^sac do cQraç^o «wm^ 
reei^i quem Uiie podieria forneper o perâido.alfip- 
U) m^Gf^ poderM Fobo^teoer de iK>y<> aqueUaplwr 
ta íertilisadora» niifi^da eatjlo £^té á medála por 
0301 IradQ pe^^aote ? Itecis K.. sd I>eq$ lb^ po- 
4id .bradar dáD ^^ tbro&o celeste: 

— dLevantchte miseroti^.E eUese ergoérat Btdís 
-s&d ^ roibu$to> do que fora dor^te a$ boras fe- 
lizes. M^s o divinp liegeder do yí$ível e iftvísivçji 
ji Jbe tii^ia lavrada a seuteusa fioal. 

E o poeta cofi^tiouavd a soSrer resinada a«le 
« íí^ç ^rwificedol 



262 

> . ' ' ' I r - 1 1 • „ j i I ■ - 

; - " — ..,. ■ I ' ■ ' ' ■ ' ' • • 

Seus amigos!— raros — e seus vastos admirado- 
res, esqueciam-se a sen lado, dos cargos que lhe 
eram cooQados pelos governantes da nação, e bus- 
cavam constantes sanar-lhe os fandos golpes qne 
lhe povoavam o corpo. Todos carpiam, e espera- 
vam afflictos, o soluço extremo d'aqueila eiisten- 
cia brilhante, d^aquelle soberbo pharol que nos 
allumiara a pátria, com os reflexos immorredoi- 
ros da sua grande intellígencia. Todos o chora- 
vam e lhe apontavam olhares apaixonados e com- 
padecidos ao seu leito de martyr,— e oravam si- 
lenciosos, pedindo Áquelle que tem fechado na 
dextra divina o destino dos õéus e dos mundos, 
que terminasse as torturas, ao mho que tantas vezes 
dedilhara a lyra harmoniosa, evocando-o em sen- 
tidos hymnos, e vulgando os Seus preceitos, aos 
ôntes que chafurdavam nos lameiros da desmo- 
ralisação, e ignoravam que existe alem da vida, 
um tribunal supremo, oocupado por um juiz ine- 
xorável, que hade pezar os nossos actos nas con- 
chas d'uma balança fiel. 

E esse juiz sdnda se nao amerciava da sua dôr 
despedaçadora, nem lhe dava a derradeira poisa- 
da! Aquella alina queria morrer, mas Atropos não 
chegara ainda com a thesoura cortante. 

E o vate, alongava passo a passo^ os olhos ex- 



263 



piranfes para a porta do aposento I Que buscaria 
elle encontrar com a vista no tenebroso recinto ? 
Que élo, o prenderia ainda á terra que tanto lhe 
custava deixal-a?t O que seria que lhe paralysava 
a lingua^ que não podia enviar o ultimo adeus ao 
mundo? Faltaria^lhe algum ente idolatrado de 
quem esperava o perdão d-algum acto mal-pen- 
sado? Seria o remorso de ter quebrado algum jii- 
ramento, feito ante aquella imagem divina que 
tinha diante dos olhos? A lembrança d' alguém que 
araãra loucamente, e por quem se achava desam- 
parado n'aquelle momento sol^mne? Algum do- 
cumentQ guardado, que lhe nmncbava o manto 
â'bonra qu6 o, mundo civitisddo lhe posera nos 
hombros? Ralal*o-ia a impossibilidade de rasgar o 
véu que occultava o fucturo áa filha querida, a 
quem breve ia legar aquelle grande nome, que 
as naçOes' mais civilísadas apregoavam como o de 
tantos homens dlnteiligencia colossal; que pas- 
saitam ligeiros n'esta treva lamacenta, e desceram 
á sepultura com a rapidez d'um metheóro?* Se- 
ria a lembrança da pátria^ «nde tia tanto que fa- 
zer, e tão poucos filhos que se esforçassem por 
ella? Quem sabe?!... É muito provável que todos 
estes* pensamentos lactassem renhidos como seu 
espirito já quasi apagado ! . . . 



BSSSSESaCBSSSS 



m 



aos a]ttigQ$ (|^ p foêmmivqw \h& cbega^isfim 
ao tejto todos. 03 sãos duthograpbos. Seodp^ba 
entreis ímmedíataoiei^e aquelio a^pai^to^ mo* 
tbo d'origiDaias acabado? a locompl^toç^ laQHDs 
ligeira sua» attei^ttaiento, le eomieit^a a âe$i^#ida- 
çar ;aqi]íaUe0 qnn o5o eratt digaoa cIq aer vi^to^ 
pelos $&as ymdouiY)s, e foi coU^çciona^do oeqvia 
podiam sar prweitasos i pátria de qi>efn $6 4«^ 

pedia* • 

Feita a coDsoíeiuáQ^ monda* mir&gon. ^q^tír 
to beilo arebivo» que não doadiourara o &ea engi^ 
Dbo eKplendidissinio, ao ^au puito partijipalar (^ 
laerymoso amigo D«. Pedro de Brito do HiOs q^i^ 
o viakava muito a mtddo qo$ ultlmios mezes da 
sua yiàsL 

Vendo depositados oa seua queridoa mmm' 
eripta& n'iim cofre tao seguro, ^ valado por wna 
akna siocera como era a dia D. Pedro» deacaoeoa 
Hiai8, dos cuidados í{ae o presidiam a lasta a^va 
insoiidayel. 

A presença da <fittia idolatrada» llmou^Ihe tam- 
bém ipm até ao amyago o éio que Ibe amparava 
o espirito extenuado. 

Deus annuaciou-ibe por fim o momento £atid» 
pela visão horrível da morta^ qua ja estíveift ao* 



26» 



iJ»i » y 



bre soa estancia, e se affastara pai^a eUe fazer o 
legado do sea thesouro litterario, e do oome egré- 
gio qae estava prestes a ir aos braços da posteri- 
dade 

A morte alevantara-se enfurecida do seu escoa- 
derijOi e fora pousar á porta do moribundo t 



«Nio pôde mais o coração c'oa vida; 
«E lenta a morte c'o enfezado sangue 
«Caminho yem do peito. O espaço mede 
«Que lhe resta na arena da existência; 
«Perto a barreira tíu... Ahi jaz o tumulo. 

{QknvETt,— Camões.) 



XVI 



À quadra outonal corrria ligeira para o fim da 
vida, como o poeta das Folheis Caídas. Qual ex- 
pirara mais cedo ; o poeta ou o outono ? A qual 
restavam mais dias de eidstencia? Era um mysterio, 
e mysteríôs de Deus só a Deus é dado conhecei- 
os. Ao animal que falia e pensa, que ora e blas- 
pbema, só os revela o porvir! — o porvir se acaso 
não o tragam primeiro as fauces da terra I 

Era o dia 9 de. Dezembro de 1854^ — dia de 



268 



acerbas tristezas para tantos portuguezes leaesr- 
clía que ha de Bear gravado em lettras indeléveis 
na historia da nação que se ufana de ter visto 
nascer e morrer, o inspirado cantor da amaior al- 
ma que deitou Portugal.» 

A casa do moribundo estava fechada e silen- 
ciosa como a ermida do deserto, onde nem se 
faz ouvir o esvoaçar do morcego em derredor da 
alampada amortecida» pela falta d'alimento. 

Bateram as 6 horas da tarde. 

De repente a casa soffreu um estremeção vio- 
lentissiim). que pareda produzido por uma (l'es- 
tas • tempestades que voltam as arvores com as 
raizes para o céu, e desboronam os ediScios mais 
fundamente baseados. Os gonzos das portas e ja- 
nellas, rangeram com lúgubres gemidos. Subita- 
mente abriu-se a [porta; como impelida por um 
tofao procalosol 

. £ra a morte que entrava uq aposento, fedendo 
reeaar todos os que rodeavam ,o leito ! 

.0 poeta eoclinou os olhos sobre os <}q di$ci- 
polo, apertou £om frenesi a truz do Gbristo fio- 
bre . o peito extenuado e arquejante, e clei^u 
peoder a froote, como a flor beijada por \m mQ 
de sol abrasador I 

Amorím> apertou ws J)n(ços aquelle corpo ina- 



26» 



nimado» e mtitimirou solaçaoda^ com ú rôsto 
snteauloi àe lagrimas : \ 

--cFartes mm quericta meslr#r)... NSa me 
desampares ainda, que já Éínto fogir o estro qae 
me accendestel... Partes?!... È quem ba de &M^ 
zar alem da teu ttltúno soktço, as cwdafs da tsíh 
nha pobre lyraft^. Qae poderei cadtar agora fl... 
A saudade?... a tua morte?... ohl mas a sauda- 
de cantastel-a tu, e a tua morte d3o terei eu ani- 

I 

mo de a cantar, porque será a morte do meu es- 
trof*— (I) 

Todos choravam, todos sofiHam, todos^masr 
qu3o dilacerante n3o era o soffi*imentd do des' 
consolado poeta qu& Bcava sem mestre e sem 
protector?!... Sim... Que sons poderia exlralaraí 
desconcerfd^dfd* lyra do discípulo, vendo sua mãe 
quasi a dar o arranco eáctremoH? tTmanenía, 
uma elegia fúnebre, um! canto de consternação, 
uma safudade, e finaÉnente a^ grandezas d^^ilmt e 
d*espirito do agigantado successor de Camões?!!... 

Oh! mas tudo era triste; e a lyra leda e apai- 
xonada do poeta que soluçava com o moribundo 
nos braços, tran^5rmar-se-hia, talvez para sem- 
pre f— em aliaíráe de morte. ' 

(i) Veja-setotaifiafim. 



270 



O mestre não Ouvira já, ou não poderá respon- 
der ao leal coração que o interrogava! Indínoa* 
se, olhou todos quantos se achavam no aposento, 
trémulos e chorosos, e apertando a cruz n'nm es- 
treito abraço, murmurou por entre um suspiro 
anciado e ruidoso: — Já o não vqo... 

E foram estas as suas derradeiras palavras!... 



Ouviu-se um gemido longo e doloroso em todos 
os extremos da habitação, e um ecoo parecido com 
o estalo d'uma mola de íino aço 1 

Era a morte que despedaçava aquelle coração 
privilegiado 

«Onde gemeu amor, caipíu saudade» — e a 
princeza das lyras que estalava para despertar o 
mutàdo do letliargo ocioso, e pedir^lhe que a j)0- 
sesse patenta aos olhos das gerações futuras. 



Os raios do sol que haviam de acalentar o 
poeta durante a vida, tinham-se escondido de 
vesppra nos fundos abysmos do occidente, assus- 
tados com o Austro outonal, que trazia em suas 



271 



aza» a (lonuDcio â'alguns dias de clmva Qopiosa! 
O sol não tioba de apparecer mais na sua vida! 



Caiu o homem grande, ergueu-se a estatua da 
imnK>rtaUdade I 



Pouco depois de se evaporar aquolla alma e 
subir aos pés de Deus, só se ouvia na luctuosa 
habitação a oração sancta de duas irmãs de cari- 
dade, que o encommendavam ao Senhor, e b so- 
luçar do . homem que lhe servira d^esteio nos 
últimos momentos da existência, — ^^e sentira 
com verdadeira dôr d'alma^ d violento estremes- 
são que lhe dera a morte para saccudír o corpo 
na terra, e levar a alma a um logar, ignorado 
por aquelles que se despedem das mundanidades 
tempestuosas, e dos que ficam na terra para. os 
admirar nas obras que deixaram. 



Dois dias depois, isto é, na segunda feira 11 
de Dezembro, foi condusido o cadáver do viscon- 



ffít 



xr 



de d*Atm^dà G»tàf^ âo cemitério doãi Prafz^^^ 
pelos stetxê alffiigQ$;--ê d^efpoáítôdo tid jáiágú dâ 
illostre familía de D. Francisco do Rio de Mene- 
zes parente affastado do fallecido. 

Entre varias deputações, representantes de so- 
eiedades Mferâridd ^ drtiidti<»d^ ácominanhâi^aá o 
féretro, os srs. Alexandre HercalaUdv AirtontoFe* 
liciano de Castilho, Luiz A^igosto Rebello da Sit* 
va, António Pereira da Cunha, Silva Túlio, D. Pe- 
dro d^Bríto do Rio? i^iphaâia Anteeto Gonçadves, 
e itíSò Nepomucâtío de Seixas^— lente de bistio* 
ria da Cmservâttork) ftedi d» Lísíboâ. Este ulti* 
mo^, jà no eaafiinha d)á morffâaf á&sf mortos» 1»d^ 
çanda ti nAo, > «m dos^ cordoa do caixão, 6 fl^ 
cando atraz, bambado^ ^ I^im^dv exelamoa cmn 
pTOjftdo: 

— cEuí nao ápjudo mâ», ântes^ elle é que me 
guia : t eú nttíd^ depds dâ diía morte iQd guia- 
rei por elle f»* (f> 

F^io caminkif todos qiieriafii ajudar t: levar á 

regelada estancia» aquelte corpo irio, onde |á cor-' 
rera muito sangue portuguez, e tão puro como o 
recebera do seio de sua tirtuosa mãe. 
Todos queriam tomar o peso ao invólucro da 

; 1 • f * 

(i) Véja-se notano fim. 



sn 



graiide ^dma j(|Qe ^e avipocava oom ooontadto da 
dor. 'foà^s :qiieriam ler as lio&ras de levar à der^ 
radeira pousada o inspirado reformador das let^ 
trás {Knliigueza&l 

Chegando o tortêjo ftmebte proiimo do cemi-^ 
lerio, paron um Inomento para descanço dos gue 
ctmôtisiam o caixSo, — depois... começando de 
BOfvo â movcr-se o ^romposo saimento, ' 



("Na estancia entrou das gerares extinctas-i 



fim -seguida tts tropas que estacionavam no 
campo, deram algumas descargas de arliiheria e 
de mosquetería. 

9H)usado t)i^x3o juncio do tumulo, e rodeado 
pelo numeroso séquito, pertencia ao sr. Alexan- 
dre Bercutano subir 8 pedra, e orar primeiro, 
mas récusando-se a isso o íllustre litterato, to- 
tnm o togar o sr. Atílomo Feliciano de Castilho, 
nias foi pouco afortunado na sua oração. Pasma- 
dos todos os ouvintes ante a frieza do poeta das 
Prima/ceras, e começando muitos a murmurar da 
sua pouca inspiração^ disse Castilho que não es- 

ALMEIDA GARRETT 18 



274- 



tava prevenido para aquetle acto solemne. (1) Is- 
to desgostou fortemeate alguns dos amigos do 
defuncto. 

Seguiu-se a este o sr. Silva TuIio, que se mos* 
trou intimamente compungindo, ao fallar no poe- 
ta. Fez uma pequena oração, mas com palavras 
de tanto valor, e proferidas com tal sentimento, 
que penetraram em todos os corações! Depois 
orou o sr. Vieira da Silva, em nome da associa- 
çao typographica, cuja corporação representava. 

Descendo este da pedra sepulcbral, subiu Luiz 
Augusto Rebello da Silva> triste mas inspirado, 
e fez um brilhante discurso, que arrancou lagri- 
mas a todos ! 

As lagrimas corriam a torrentes pelas faces 
dos ouvintes; e a dor era geral, porque a pala- 
vra cadenciosa de Rebello, era capaz de as ir bus- 
car aos olbos mais estéreis, n'aquelle momento 
de saudade pungente I 

Quando este fecundo orador, chegou ao meio 
do discurso, disse com aquelle entbusiasmo sau- 
doso que tinha ardendo no coração : Inclinemo- 
nost Todos se dobraram então diante do cadá- 
ver, não do visconde, mas sim, do . cantor de Ca- 
mões e Jau. 

(1) Veja-se a nota np fim. 



•; 



29^ 

Estanda as céremonias do enteitaméntò gtrasi 
no fim, chegou próximo da sepultura, é rompeu- 
por entre o grupo, o estimado poeta Luiz Âugtis^ 
to Palmeirim» e recitou com aqnella harmoniosa 
cadencia que se conhece no seu metro,uma poe- 
sia do sr. Mendes Leal, e outra do diséipulo do 
finado; o sr. Gomes d'Âmorim. 



§ 



Âcbava-se ali o corpo diplomático, muitos con- 
selheiros doestado, e o ministério, — só faltava o 
presidente do conselho, que mandara prestar 
a ultima homenagem aos restos mortaes d'âquel- 
le que tanto trabalhara em íàvor da sua pátria, 
pelo sr. Conde da Ponte> que era n'essa época 
^ governador civil de Lisboa. 

. RebôUô da Silva, disse no fim do seu brilhaiv- 
te improviso, estas palavras, que já sao indeléveis 
nos fastos da litteratura portogueza, e nos ccHPa- 
ções qqe' as escutaram — «Aqui, jaz o visconde 
d' Almeida Garrátt. — Ali, á luz d'aqueUe astro 
glorioso,, vive João Baptista d' Almeida Garrett!» 

Eis aqui o resumo do saínàento do nobre pòr- 
ti^uez, do grande poeta, do litterato distincto, 
do orador gi|[ante, do bom^ádo estadista, do ho- 



238 



mm J^n^mei^^» .que neci^stl^am como disse, D. 
JoSq ^'AzeyedOj d^ se curvar para atravessar o 
maravilho3Q colosao de Rbodea* 

E nós ({ue estimamos as suas obrias^ e profe- 
rimos, ^m respeito o seu nome, curvemossiios 
tawibem reTereutes ante essa cobuana gigaútéa» 
porque somos ante elia» os reptis mais ínfimos, 
que já gosaram os beijos do sol! 



Aimeida Garrett descieu i sepkiituffa com uma 
saudade que Ibe ^ogiu fòrtementó a ahná nos 
sws vHimos dias< 

Deixava íicar vadia uma âas lacunas mais es*- 
paíçosas do livra da nossa litteratul^a d^^ste secu^ 
lo. 

NSo pensando mnitâts vestes -^(âonaio é de mor- 
tas I) -^ ^ue a morte nos ataca <l'improvisOi e nos 
fulmina quando somos roídos pelo desciâdo^ com- 
prometteurise a esccever um livro» que pela as- 
sunto (|iietífiba de celebrar, inditava ter de cei- 
far, mais loiros na republica das iettiias» do que 
todí}s ^loaotos escrevera atéli^ que. são iii(}uestío- 
navdineate os braços mais froMí^s da arvore 
lilteraria da nossa terra* Eaílou. em mmtss reu- 



^s^ 



&iãeai d6 boinens instruídos» D'6ssa obtá qoo Ib6 
fervia no earebro ardente, desde qoe sooegou, 
das hictas; e das. raiigrações, até pouco saites dé 
morrer. 

O \mo^ era a lustoría das revoluções políticas 
em Portugal, que começaram em 1820, e termi- 
naram aquasi, pelo triumpho da liberdade em 
1834. 

Disse o poeta no prologo d'uma das suas obras 
que o desempenho d'es$a commissKo, era para 
elle um poncto de honra, porque estava promet- 
tido por um quasi juramento; mas infelizmente, 
não o pôde conseguir o cuidadoso escriptor. An- 
tes de lhe dar começo, cerrou-lhe a morte aquel- 
les olhos de brilho penetrativo, que deviam des- 
cobrir os quadros da guerra, que foram apagados 
pelo desapparecimento, d'aquelles «que em con- 
tenda injusta pereceram.» 

Não pôde cumprir o seu promettimento, não ; 
mas ao menos ficamos com a satisfação de não 
ouvirmos dizer aos seus contemporâneos e pos- 
teriores, que deixou um só momento de escre- 
ver, para se entregar a trabalhos inúteis á pátria 
que o viu erguer o braço 'de soldado, para var- 
rer a zumbidora bofetada do despotismo! 

Hocra ás tuas cinzas, bardo sem emuIo<con- 



278 



temporal l^Descança tranquillo, que a tua pátria 
nunca moverá os lábios para te cliamar ingrato i 
Descança que jamais se extinguirá na Europa, o 
nome e a memoria saudosa, do poeta que soube 
pagar a divida nadonal ao desditoso Camões. 







A 

BIOGRAPHIA 



DO 



Ti«eonde d*Aliiiel4la Cíarrett 



NOTA l-^Pag. 59 

«Que arrancara em idade mais verde.» 

o RdnUo de Vénus diz o poeta que o escreveu aos de- 
zessete annos, e d'esse tempo até a época em que o deu á 
in^rel^ não cançou de lhe íazar emendas, e de as pedir a 
hoqiens doutos e instruídos com quem tractava, entre as 
quaes haviam algumas do sr. S. Luiz. 

Faço esta nota para que algum conhecedor da matéria nâo 
àigã que é enexacta a época da leitura do primeiro poema 
que Garrett deitou ao mundo Utterario. 

D'e63e tempo são também algumas poesias lyricas que o 
poeta publicou muitos annos depois no livro das Flores sem 
Fructo e nas Foíhas Caídas, quando as castigou cóm a sua 
varinha magica* 



280 



«Por esta occasiãcK OHtabf<^<le 1821, etc.» 

Encontrei ultimamente ma documento, que pôde taxar 
de anachronica esta minha afiirffiaçâo. Dit, que o julgamen- 
to do poeta, teve iuga;. em Outubro de 1822. No entanto, 
eu nao me atrevo a retirar este capitulo do logar onde o 
oolloquei primeiro: se algum leitor estiver mais orientado 
do que eu n'este poncto da tida do meu heroe, peço-lhe o 
e^ecialissimo obsequio de escrever á margem as emendas, 
e de m'as trazer depois para eu. corregir esta lalta na se- 
gunda edição, se acaso este opúsculo chegar a tel-a. Aquei- 
te nada que souber sobro* est& assumpto, aconselho-o a que 
leia primeiro esta passagem, e que volte depois a encadear a 
historia onde melhor lhe convier, porque estou convencido 
que nSo oparará^ psm^ tísffiâforBaa^Senor livro, nan tam 
pouco lhe raspará o que elle encerra debom,ouoinereeimen- 
(o, qps porveotani dMígue a akaiiçar do te^ilivrci piMi - 
eoi paorft quem; o eKvevii 

Conheço que wnX» dev» perdoar a^ (faem euiief^ yn- 
mekO' a bistõría de ámanhf, da qaé a de boje; ina» dívBtfem 
tanto ás rezes os apcí&tameiítos, e erram as memerí» ém 
que relatam^ ílaclKW que nem á todos foi dadO' pres^OMiar, 
que esiimo9 aibraçados a elles, no atoleiro dO'reâieiitoc® de- 
pois os que lidam ao baixo eampo-dalitteratura, ao* passo qne 
elles nas veigaa chflsi s^temiabnsa tépida e d^lidosa^lieijar- 
lhe os lábios, ehrincar*Ihe eoi» o cabello, sSoos que ouvom a 
pò firme, as accusaçOes nem sempre justas da opoiao piibli^ 
ca que od espreita successivameute com seus ottios iaq^si- 



s»t 



tmaas, proeoniDde tecobrír em todos o» mcMmnkoã» vm 
yaso onde Toria o pto da maledicência. 

NOTA m^Pag, 79 

«Regado pelos detostsve^ Galigdas moder* 
nos, etc.» 






Consta que Ganrett emigroii p()r cansa da comedia [lolitica, 
9^ larça, julga que imitada do FranceZ; que ae intUulava 
Qurcmida por Amor, em que isdiculisou sem d6 os ho- 
jpm» d'aqaeile tempo» quando a mandou representsur no ve- 
)ho theatro do Çairrp-alto; e outros escriptos quç nSto (le- 
garam a publicar-se, por causa do repentino affastamento 
do poeta» d'entre os mancebos.enthqwastas que lhe punham 
«m «uc(ík> as peças que elle apresentava. Foram estes, màn- 
ceboa^pela maior parle^ os quo trabalharam com yonjtade 
^ .^»()iistanç;ia,para o cons^varem no reino, e aqueUas pes- 
soas mais consideradas na côrtSi que tinham a|^ciadq a 
leituia dos.seus opúsculo^ e a representa^lU) d'aq}]eU(imá* 
^nifíca tragedia de Catão, 

, O pp^ta comtuda nâo cedeu a. todos esses rogos por que 
imiros amigos naturalmente maia intimo^ lhe acenavam, lá 
daa margens do es.tensa Tamisai. 

• • ... 

NOTAIV— Piij.?* 

.«Almeida Garrett» »e acaso ião lhe passou os 



283 



limites» nem trabalhou com mais coostancia, foi 
de certo mais proveitoso ao paiz, etc. » 



Escrevendo estas linhas não tive em vista depreciar aqel- 
la soberba epopèa Eurico do Sr. Alexandre flercuiano, por 
que éa melhor prosa que conheço n'aqueUe género, nas mo- 
denvts lettras. 

N(o busco também esquivar-me com aquellas palavras 
indiscretas talvez! — a confessar a sua vasta inteiligenoia, 
e o respeito devido ao seu nome illustre, que é proferido 
com assombro, e apregoado com admiração pelos melhores 
cultores da idéa, que ainda nos dão signaes de existência 
nas fileiras da peifelçSo litteraria, e outros que já sentiram 
cerrar-se o tumulo sobre seu corpo, para deseançarem das 
fadigas da vida no leito da eternidade. 

Dou aqui plena satisfação ao dignissimo commandante 
do actual exercito litterario de Portugal, para que não me 
julgue capaz de tamanho atrevimento. O meu intento foi 
somente pôr acima de todos os poemas modernos o Camões 
de Almeida Garrett, porque a minha consciência assim m'o 
segredava quando traçava aquélle período, como agora que 
alinhavo estas notas. 

Faço esta declaração, não para me desdizer do que fica 
escrípto, mas provar o respeito que tributo ao grande histo* 
ríador a quem devo uma parte do nada que sei, — se é possí- 
vel fazer divisão nos meus poucos conhecimentos liitera- 
rios. 

NOTAV— Pajf.86 

cO foUietínísta mais elegante e consciendosQ, 



283 



que floresceu no tempo do ereador de Fr. Suei^ 
ro» 

Disse, que António Pedro Lopes de Mendonça foi ò me- 
lhor folhetinista contempoÂineo de Garrett, assim como sus- 
tento hoje qne até agora ainda náo apparecen nm competi- 
dor áqnellas poacas mas bellas paginas, que nos legou; 

Não quero dizer que estamos hoje sem bons folhetinistas 
porque os ha ahi credores de muito respeito entre os quaes 
realçam mais os nomes de Teixeira de Yasconcellos, Pinhei- 
ro Chagas, Gesar Machado, Eduardo Vidal, Eduardo Coelho, 
e outros, que manejam a penna com destreza n^esse género 
de litteratura que tâk) enraizada está hoje entre nós. 



NOTA VI -^Pag. 101 

cJá com OS sete cantos completos do poema 
D. Branca*^. 

O magnificíO romancede Garrett, D. Branca, aquelle subli- 
me episodio épico das passadas luctas entre chrístaos e 
mouros, que firmou entre nós a convençSo poética da 
actualidade, saiu a primeira ediçSo de Pariz, distribuido em 
sete cantos aplenas. 

. Vinte e dois anno» depois> o poeta guiado por conselhos 
d'alguns homens doutos, que nunca despresou durante a sua 
vidalitteraria,e do seu maravilhoso pensamento, estando na 
Cruz-quebrada desmanchou a()uelle livro que tanto accendeu a 
revoii^ que sé tiavou nas lettras em 1826, e ajuntando- 



384 



nie^^algunft ceiH0949 yerso9 sem ttm isao Ike ra^Hijr ás pri- 
mitÍTas belezas, levou-o a dez cantos, explicando mais cla- 
ramente o rasgo da chronica d'onde o arrancara e dando- 
lha ao meaiao tempo maia vohim« a elegância. 

Com este livro foi qu^ Garrett^ ílQgj^o<4e mc^rto^ para 
nSo ser peisegaído pelo governo que entso dominava ^ pa« 
tria, eoradenmoupeUmaioi parte as imagens da mytbologia 
grega que «t^ essa epopa inçava a poesia em toda a pvte, 
dixeodo ao abrir o poema: 



< Anreos numes d'Ascreu> ficções risonbas 
«Da pulta Greda amável, crença linda» 
<De Vénus bella, Vénus mãe de d*amores 
•Brmcões, travessos: — do magano Jove 
«Que do sétimo céu atraz das moças 
«Vem andar a correr por este mundo, 
« Ja niveo touro, já dourada chuva, 
•Já quanto mais lhe apraz,-^ de Baceho alegre, 
«Do louro Apollo, e das formosas nove 
«Castas irmás que nos vergéis do Pindo 
«Tecem aos sons da lyra ecterooa eannes; 
«Gentil rehgiáo, teu culto abjuro« 
«Tuas aras profanas renuncio: 
«Professei outra fé, sigo outro* rito, 
<E para novo altar meus hymnoa canto. 



«Disse adeus ás ficções do paganismo 
«S christáo vat^ ohristftM versos &ço 

«N^esta compoâçSo^-Hlis 6aitett***4«ganh8e wivciíiie&te 



285 

O exemplo de Wiolbmd nq ObçroQi; .todo .o sçu maravilhoso 
é tirado das fabulas populares, crenças e preconceitos aa- 
ciooaes.» 

fíOTA Vn— Pa^. 103 

«Detficòo-ú aa líeumrrilo partictrter amigo, An* 
toniô Joaquim Freire Marreco^ ele. » 

D'este amigo, é que falia o poeta no. principio do poema 

•Cierto amigo na angustia, que aos tormentos 
«Myrradores que a vida me entravavam 
«Adoçaste o amargor, e com benigna 
«Dextra» cavaste i ioda do infortúnio 
«Clnivoíiuê o g]/rD bárbaro lhe ijope(a. 
•Ati, a quem a vida que se meia 
. 4(Bai desateto» an desconforto, defo»» 
«Ali rainhas endeixas mal cantadas 
«Nas solidões do exílio, onde as repetem 
«Os ermos eohos de estrangeiras giuttas, 
«Ati meus versos consagrei na lyra 
«Quebrada sobre o escolho da desgraça. 
«Inda languidos sons desfere amédo, 
«Que a teu fiel ouvido vão memorias, 
«Lembrar da pátria, e recordar do amigo. 

Veja-se o começo, do poema» e nota correspondente; ^ 



28fi 



■ 111 <— 



NOTA Vm— Pag, iOS . 

«Parece-me que não incendiou a cubica dos 
habitantes das terras de Santa Cruz.» 

K 
I 

Quando escrevia aquellas paginas, nSo tinha noticia de 
que hottvew contrafacção brazileira doeste livro, mas affir- 
mott-me ha pouco tempo o ar. Jacome Serra, estudioso moço 
paulista, que viu mais d'uma edição d'elie, feita no iinperío. 

NOTA IX— tdew 

«Empregado n'uma casa de conunercio pari- 
siense, etc.» 

Escrevi este período informado por um emigrado com^ 
panheiro do poeta, que nSo esteve em Paris, mas ém RuSo^ 
e que se correspondia com elle. Lembra«me agora que li 
nSo sei se no Braz Tizana, que Almeida Gairett esteve efe- 
ctivamente empregado n'uma eaáa commereial em França, 
mas no flavre de Graça, e nao na capital. Esta noticia julgo 
que vem confirmada no livro das Memorias de Litteratura 
Contemporânea de Lopes de Mendonça, esdríptor que eu 
muito respeito. 

NOTA X — Pag. 140 

«Querido e acatado pelos homens de coração, 
que são, etc.» 



287 

Estas palavras que ponho na bqcca do poeta, quando elle 
desembarca nas praias do Mindello, sSo inteiraiménte íUbas 
da imagínaçSo. Mas comtudo presumo que não serão total* 
mente destituídas de verdade, porque é de mppér que os 
pensamentos do nobre soldado do dador da earta constitu* 
ciona), nSo se affastassem muito da minha ideia. Aquelles a 
qudm não soarem bem estas phrazes, dou-lhes de cons^ho 
que não as leiam, porque pouco ou mda perderão com isso, 
e nenhuma afifronta me fazem. ' 

Deixem-me ao menos o prazer de as gravar aqui, porque 
gosto muito d'ellas, e como todos sabem, ha bocados n'este 
livro que só eu os poderei interpetrar, por causa da pouca 
clareza com que os apresento, bastante contra a minha von- 
tade. 

NOTA XI— Pflíf. 146 

«Mas não pôde tomar conta tfésse cargo, etc. 

Estou certo que entre as nomeações que os podere$ pú- 
blicos fizeram ao poeta, hão de haver alguns cargos que el- 
le não chegou a exercer, em consequência de não os poder 
acceitar. Se os não acceitou foi por que não pôde ou não 
quiz; o que é fora de duvida, é que de tudo quanto digo so- 
bre taes assumptos existem documentos que foram encon- 
trados entre os papeis, que se revolveram depois da morte 
de Garrett. 

NOTA XII —Pflí/. 148 

«Ate José Estevão, o próprio José Estevão, etc. » 



288 



Hade «IgHemdiserqne eu tentai^ lazer apologia? dos dois 
^gaaftes da tribuna pcnrtugaeKa» aprezealo €Uiirett abia^^ 
4 lua ao paaso que pootor-^talvessem raaio aigumal —José 
Estevfto de bniçoe, applicando o ouvido eòbre a terra, em ob^ 
secvBQfto do que se passa na raiz dos eeus fmidameBtos.Iâ* 
Tão ^e é demasiacía a altura em que ponho GarreUè ^ des- 
medida a baixeza mi que mostre o set maior emulo; sSo 
é tanto assimJ Apesar ^ pôr sem hesitação, m tafar mane- 
eido, os dotes de Garrett, náo deixo de coafessar o jaaepeei- 
mesto de losó £stevio dé Magalhftes. Este fica com a (^o- 
ria da sua eloquência, e Garrett com todas as sotas fran^ 
MS litterarias e oraes, 

* 

O3 que tomarem á má parto esla mi^a dedicaç&i pelo 
contrabandista da palavra desapontament&, palavra qne 
campéa de fronte altiva nas nossas lettras, Almeida Garrett, 
façam de mim o juizo que entenderem, por que nSo me zan- 
go, seja qual elle ior« Mas obrigado pelo dever, a pdr o 
méu peito por escudo ao nome do poeta' direi com um 
dps mais exforçados athletas da revolução litteraria de 1865 
e 1866, — jl ftmf SetgneuTj tout honeter. 

NOTA XIO— Pa^ ^m 

«Digo parece-me etc.» 

É esta uma das passagens do meu livro em <]pie mais 
forçado me vejo a titubear. 

Dlz-se que Almeida* Garrett pediu aaoa demissão de mi- 
nistro, a S. M. a rainha, por aquella Augusta Senhora se re- 
cuar a dar apoio a assignar um tractado que elle fez entre 
Portugal e a França. 



m 



-«»- 



COTA XIV— Pò^. %& . 

. cO estimado poeta dos Cantos, ate.» 

. , Qec^aj^o giM jqSo presenciei esti» scemuque descrevi—talr 
vez com alguma liberdade de pensamento— porque n'eç8a 
época ainda eu nâo tinha completado mais do que quatro 
annos, e apenas sabia o caminho qu& conduzia ao eido do 
yisinho que tinha as uvas mais maduras do que as do meu 
qitintAlf que oram mais^ azedas do qué as- prppite azedai! 

NSo presenciei, digo, as scenas a que se refere esta nota» 
mas conhecendo todos os laços d'amizade que ligaram sem- 
pre Amontn ao .«eu mestre, creio que ninguém lançará máos 
olhares .^pbre os quadros em. que os mostro jnnctòs. É cef to- 
que, ^ando um amigo vé o amigo intimo em estado perigo' 
^jM), tisin.a restricta olnipçfto de veiar por'e]lé;«<^{^ricipal*' 
naente. se o. enfermo está n'uma>isolafáo de aíTa^, como' 
aquella que Garrett exprimentou nos seus últimos tempos 
de.vida. » , 

NOTA XV-fPo^. 2«0 

,v.«^K a^rua>âe. Sancta Isabel, etc:» 

♦ . . • . . , : ■ - . . • j ■ . •: . 

• Garretj^^jcqorreu na n^^de .S^i^ Is^l v TíPf* . . 

«Será 9 morte do meu e$trp, eta.». 

Háo de dizer alguns conhecedores do assumpto que es- 
estòu tractando, que eu transpuz os ^rajos^i^a piodera^ão 

ALMEIDA GARRETT 19